Essa é a primeira chave para entender Claudivam Araújo, patoense radicado na capital paraibana desde 1993, conhecido como Pai Claudivam: um homem que fala de fé como quem fala de responsabilidade. E que não se apresenta “pastor”, “pai” ou “chefe” de um rótulo religioso. Ele prefere uma palavra ampla — e exigente: espiritualidade.
A segunda chave está no corte. O corte não é só o do cabelo, ofício que o sustentou por anos. É o corte da própria vida.
“Eu cortava cabelo e atendia pessoas… Chegou um tempo que minha mestra disse que eu tinha que escolher”, conta. Entre uma “madame” na cadeira e uma urgência espiritual na porta — “alguém precisando de oração, de limpeza, de emergência” — veio o ultimato. Ele foi “colocado à parede” e escolheu o que chama de missão: conduzir vidas a partir da fé.
Um sacerdote sem pressa
Já a Jurema, ele define como raiz nordestina — “a nossa parte indígena”. A distinção é central na visão dele: orixá é divindade da natureza; já as juremas sagradas, explica, são “pessoas que viveram na terra”, ancestrais que seguem cumprindo missão espiritual.
E é aqui que ele mostra o tom que atravessa toda a entrevista: o sagrado não combina com espetáculo.
Na era em que a religião disputa audiência, Pai Claudivam critica o que chama de banalização do sagrado: “curso”, “banho” vendido como milagre, atendimento online sem vínculo, promessa fácil em troca de dinheiro. Ele compara a busca espiritual a uma consulta médica: quem procura “médico espiritual” quer remédio, direção e cura — não chantagem.
E aponta um critério duro para separar missão de oportunismo: “Respeito, caráter e verdade.” Se faltar isso, ele diz, a pessoa não está com divindades — está com “lavas negativas”, o que chama de “quiúmbas”.
Linha do tempo de um chamado
- Patos (PB): cabeleireiro por muitos anos; inicia contato com a espiritualidade aos 16.
- João Pessoa (1993): muda-se e começa a “busca” do que entende como missão na “terra salgada”.
- 31 de dezembro de 1996: inicia-se no orixá no Templo Xangô Obarinde, sob orientação de Maria José Rodrigues, com padrinhos Antônio Rodrigues (Padim Toinho) e Francisca (D. Chiquinha).
- 2016: desligamento de uma casa religiosa em que imaginava permanecer “até o fim da vida”.
- José Américo: compra e constrói o terreiro com apoio de atendimentos, viagens e doações — incluindo uma campanha informal em Portugal.
O detalhe mais simbólico não é a viagem. É o pacto: a mulher que vendia a casa, “Dona Selma”, teria dito que só venderia “para uma pessoa da espiritualidade”. Pai Claudivam interpreta isso como confirmação de algo que já vinha sendo anunciado por entidades que cita com respeito: Mestra Maria Padilha e Mestra Luziara.
O terreiro e a comunidade
Ele descreve o que faz como um trabalho que mistura festa, distribuição e logística comunitária. Um dos pontos altos do calendário é a festa de “Onibejada” das crianças, que ele trata explicitamente como ação social: já conseguiu fechar a rua, distribuir cestas básicas, mobilizar doações pelas redes. Em alguns casos, diz, famílias levaram “cinco, seis, sete cestas” — e ele defende a decisão com um raciocínio simples e realista: se a comida base chega, “o dinheiro compra a mistura”.
Além das cestas, ele cria pequenas “economias solidárias”: vende, às vezes, itens ligados ao culto — “um banho, alguma guia” — e reverte o valor para alimentos. Também acolhe vulnerabilidades dentro da própria casa religiosa: filhos em dificuldade, sem trabalho, sem renda.
Quando a pergunta é sobre legado, ele não cita números. Ele cita uma palavra: respeito.
Ele afirma que viajou meses para fora e a casa nunca foi invadida. Não porque a violência não exista — ele reconhece a criminalidade na região — mas porque, na leitura dele, a comunidade devolve o que recebe: “Quando eu respeito o outro, o outro me respeita”.
Intolerância religiosa: a violência que nem sempre vira manchete
Pai Claudivam relata que sofre intolerância quando vai às matas fazer procedimento de Jurema: denúncias de “depredação” mesmo quando, segundo ele, está realizando um rito. Ele descreve uma diferença de tratamento: quando as pessoas reconhecem quem ele é, o tom muda; quando é alguém negro da periferia, o risco aumenta.
Ao falar do papel do Estado, ele é direto: quando Ministério Público e órgãos públicos entram na pauta, vira “bálsamo”, “alívio” e “fortalecimento”. E dá uma orientação prática aos filhos: buscar direito, acionar polícia quando necessário — com uma frase dura que mostra a insegurança até na proteção: “Reze para que esse policial não seja intolerante”.
Um trecho que chama atenção é quando ele diz ter recebido denúncia não de outras religiões, mas de pessoas “do Axé” — da própria matriz — por causa de uma celebração pública na Praça de Iemanjá, feita com trâmites formais. A denúncia, para ele, revela disputa interna: gente que prefere “marmota” e espetáculo a processos de socialização e educação pública sobre o que é a espiritualidade.
Disciplina, estudo e limites: “não é velório”
Ele descreve regras na casa: não aceita que as pessoas cheguem “de qualquer jeito”, nem com teatralidade — “todo de preto”, roupa como se fosse velório — porque o terreiro, na visão dele, exige postura. “Minha casa tem disciplina. Eu trabalho com a mãe terra.”
E disciplina, diz, começa nele mesmo: para cobrar, tem que dar exemplo. Para conduzir, tem que estudar. Ele se define como curioso, leitor, alguém que busca os mais velhos quando não sabe. A autoridade, então, vira método — não espetáculo.
Redes sociais: fé, denúncia e sobrevivência digital
Ele conta que um vídeo fora do tema da espiritualidade “viralizou” e abriu caminho: milhões de visualizações, crescimento, e depois a “caixinha” que virou ponto de escuta. A partir daí, começaram a chegar relatos “cruéis” — pessoas enganadas, abusadas, roubadas por supostos sacerdotes. Ele diz que isso alimentou seu papel de desmistificador: explicar fundamento, cortar mentira, orientar sem prometer milagre.
Mas a visibilidade cobra preço: tentativa de derrubar perfil, clonagem, golpe com pedido de dinheiro usando o nome dele. Ele enfatiza que não faz consulta online: atende presencialmente e, mesmo assim, vive com agenda cheia, trabalho social e um filho pequeno — “acordo 5 da manhã”.
No meio do turbilhão, ele lança uma frase que resume seu projeto: “Espiritualidade não é faca no pescoço. Espiritualidade é acolhimento.”
Um futuro desenhado com tijolo e suor
Ele diz que quer um lugar com “mata e rio”, como as casas de Baía da Traição, cidade do Litoral Norte da Paraíba — um espaço em que natureza e culto não se interrompam. E deixa uma mensagem que é, ao mesmo tempo, pessoal e política: filhos — de sangue e de santo — “são para o mundo”. Ele não quer dependência. Quer liderança.
O homem por trás do título
O ex-cabeleireiro que aprendeu a lidar com vaidade, imagem e espelho, hoje opera em outro tipo de corte: tenta aparar o excesso, o abuso, a mentira e o medo que rondam a fé — especialmente quando fé negra é tratada como crime.
E talvez o ponto mais forte da fala dele seja esse: o inferno, para muita gente, não está num lugar — está na cabeça. E se um sacerdote não vira remédio, ele vira parte da doença.
Entre no nosso grupo de WhatsApp

