Há quase quatro décadas, quando começou a trabalhar no rádio, no sertão paraibano, Nena Martins ainda não imaginava que sua trajetória a levaria dos estúdios de comunicação às estruturas do poder público. Hoje, aos 58 anos, ela acumula experiências como radialista, apresentadora de televisão, vereadora, dirigente partidária e gestora pública. Em comum, segundo ela, permanece a mesma motivação: defender causas ligadas às mulheres, às famílias e às populações mais vulneráveis.
Atualmente à frente da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres de João Pessoa, Nena vê sua história pessoal como reflexo dos desafios enfrentados por mulheres que buscam ocupar espaços tradicionalmente dominados por homens, seja na política, seja nos meios de comunicação.
Durante entrevista ao podcast Em Ponto, do Portal Ponto PB, a secretária falou sobre violência política de gênero, políticas públicas de enfrentamento à violência contra a mulher e a necessidade de envolver os homens nas estratégias de prevenção.
Da comunicação ao serviço público
Um dos trabalhos que marcaram sua carreira foi a participação em programas voltados à cobertura dos municípios paraibanos, experiência que lhe permitiu percorrer praticamente todo o estado.
“Conheci a Paraíba de canto a canto. Vi de perto a realidade do sertanejo, do Cariri, do Curimataú e do litoral”, relembrou.
A vivência jornalística acabou servindo de ponte para a vida pública. Em 2008, foi eleita vereadora em Conceição. Na época, era a única mulher entre os nove parlamentares da Câmara Municipal.
A experiência, segundo ela, revelou de forma concreta as dificuldades enfrentadas por mulheres em espaços políticos.
A política ainda é um território desigual para as mulheres
Nena afirma que o machismo e a violência política seguem sendo obstáculos para quem decide disputar cargos eletivos.
Segundo ela, situações de silenciamento e deslegitimação da fala feminina continuam frequentes.
“Quando uma mulher é interrompida ou desestimulada a falar, isso também é uma forma de violência”, afirmou.
Ela lembra que, mesmo sendo a única vereadora eleita de sua cidade naquele período, frequentemente percebia a ausência de outras vozes femininas nos debates legislativos.
A secretária defende que o enfrentamento desse cenário passa pela ampliação da participação das mulheres na política e pela denúncia de práticas discriminatórias.
Violência contra a mulher: uma realidade que vai além das estatísticas
Segundo ela, uma das principais lições aprendidas ao longo da gestão é que a violência contra a mulher raramente atinge apenas a vítima direta.
“Quando uma mulher sofre violência, toda a família é impactada”, afirmou.
Ela cita crianças, pais, mães e outros familiares que acabam convivendo com as consequências emocionais e sociais das agressões.
O principal equipamento municipal voltado para esse atendimento é o Centro de Referência da Mulher Ednalva Bezerra, que oferece acompanhamento psicológico, jurídico e social para mulheres em situação de violência.
O trabalho é realizado por equipes multidisciplinares formadas por psicólogas, assistentes sociais e advogadas.
De acordo com a secretária, o acompanhamento não se limita ao momento da denúncia. Muitas mulheres permanecem em atendimento por meses ou até anos, até se sentirem preparadas para reconstruir suas vidas.
Do acolhimento ao empoderamento
Segundo Nena, a dependência financeira é um dos fatores que frequentemente dificultam o rompimento de ciclos de violência.
Por isso, a pasta investiu na criação de programas de capacitação voltados para mulheres em situação de vulnerabilidade.
Entre as iniciativas citadas estão cursos para cuidadoras de idosos e ações na área de estética e beleza, desenvolvidas em parceria com instituições de formação profissional.
A ideia, explica, é ampliar as possibilidades de inserção no mercado de trabalho e fortalecer a autonomia financeira das participantes.
“O objetivo é que essas mulheres tenham condições de recomeçar”, disse.
A secretária relata que muitas das mulheres atendidas acabam se tornando exemplos para outras vítimas ao compartilharem suas histórias de superação em eventos e campanhas institucionais.
A criação de uma rede integrada
Segundo ela, a rede já existia na prática, mas passou a funcionar com maior integração após regulamentação municipal.
O sistema reúne diferentes órgãos da administração pública para encaminhar demandas relacionadas à saúde, assistência social, educação e direitos humanos.
A proposta é evitar que mulheres em situação de violência precisem percorrer diversos setores da administração sem obter respostas efetivas.
“É uma forma de garantir que o atendimento seja mais rápido e integrado”, explicou.
Educar meninos para prevenir futuros agressores
Para Nena, o combate à violência de gênero não pode se restringir ao atendimento das vítimas. É necessário atuar também na formação das novas gerações.
Nesse contexto, a secretaria desenvolve ações em parceria com a rede municipal de ensino, por meio de atividades inspiradas na Lei Maria da Penha nas escolas.
A iniciativa leva debates sobre respeito, igualdade e violência de gênero para alunos, professores e gestores escolares.
Segundo a secretária, foi durante essas atividades que surgiram relatos espontâneos de crianças que conviviam com situações de violência dentro de casa.
“Foi quando percebemos que precisávamos começar pela raiz”, afirmou.
A estratégia busca não apenas identificar casos de vulnerabilidade, mas também estimular uma cultura de respeito desde a infância.
Falar também com os homens
Ela relata que, em diversas palestras promovidas pela secretaria, houve resistência inicial à participação masculina. Em alguns casos, homens deixavam o ambiente ao perceber que o tema seria violência contra a mulher.
Ainda assim, a gestora considera esse diálogo indispensável.
“Se a gente fala apenas com as mulheres, muda a consciência delas. Mas e a consciência dos homens?”, questionou.
Segundo ela, algumas atividades acabaram produzindo resultados inesperados. Em determinados encontros, homens reconheceram comportamentos abusivos e procuraram orientação para modificar a forma como se relacionavam com suas companheiras.
A secretaria também mantém diálogo com instituições que atuam na ressocialização de autores de violência doméstica, entendendo que a prevenção passa necessariamente pela mudança de comportamento dos agressores.
A consolidação institucional da Secretaria da Mulher
Segundo ela, a mudança fortaleceu a capacidade de planejamento e execução de políticas públicas voltadas às mulheres.
A alteração ocorreu após aprovação de projeto na Câmara Municipal e, de acordo com a secretária, representa um passo importante para consolidar o tema como política permanente de governo.
“Hoje a secretaria está institucionalmente fortalecida”, afirmou.
Uma pauta que continua aberta
Embora reconheça avanços nos últimos anos, ela avalia que o enfrentamento da violência de gênero ainda exige esforço permanente do poder público e da sociedade.
A aposta, segundo a gestora, passa por uma combinação de acolhimento, autonomia econômica, educação e conscientização coletiva.
Num estado onde os casos de violência contra a mulher continuam mobilizando autoridades e organizações da sociedade civil, o desafio permanece o mesmo: transformar políticas públicas em mudanças concretas na vida de quem mais precisa delas.
