>A participação das mulheres na política brasileira continua cercada por desafios que vão além da disputa nas urnas. Apesar de representarem a maioria do eleitorado, elas seguem ocupando uma parcela reduzida dos cargos eletivos e, segundo especialistas, ainda enfrentam barreiras estruturais dentro dos próprios partidos. É nesse cenário que a advogada, professora e ativista Patrícia Berger constrói sua trajetória política, marcada por candidaturas consecutivas, atuação em projetos sociais e defesa de pautas ligadas aos direitos das mulheres.
>Presidente do PRD Mulher na Paraíba e da ala feminina da federação formada por PRD e Solidariedade, Patrícia afirma que sua atuação política começou antes mesmo de conquistar um cargo público. Para ela, política não se resume ao exercício de um mandato, mas à capacidade de transformar a realidade das pessoas.
>Formada em Direito e Letras, ela trabalhou anteriormente no Judiciário e na área da educação. O ingresso na política ocorreu após um convite recebido em 2020 para disputar uma vaga na Câmara Municipal de João Pessoa. Antes disso, teve uma breve experiência partidária durante o período eleitoral de 2018.
>Embora tenha permanecido como suplente nas disputas que enfrentou até hoje, Patrícia afirma que nunca cogitou abandonar a vida pública. Pelo contrário. As dificuldades enfrentadas durante as campanhas serviram como incentivo para ampliar sua atuação social.
Política além das urnas
>Sem mandato e sem estrutura de gabinete, Patrícia criou o Projeto Isaac JP, iniciativa voltada à arrecadação de roupas que são vendidas para financiar a compra de cestas básicas e kits de higiene destinados a famílias em situação de vulnerabilidade.>Segundo ela, a ideia nasceu da dificuldade em atender aos inúmeros pedidos de ajuda que recebia após a primeira candidatura.
>O nome do projeto, explica, surgiu após uma das primeiras ações sociais realizadas em uma comunidade da Capital. Ao perceber a alegria de uma mulher ao receber uma cesta básica, associou aquele momento ao significado bíblico do nome Isaac — "motivo de sorrir". Desde então, a iniciativa passou a concentrar ações de assistência social e orientação jurídica, principalmente para mulheres vítimas de violência.
>Patrícia afirma que essa atuação reforçou sua convicção de que fazer política não depende exclusivamente da ocupação de um cargo eletivo.
Mulheres ainda ocupam poucos espaços de poder
>Um dos principais temas defendidos pela advogada é a ampliação da participação feminina na política.>Ela avalia que, apesar da existência de leis que garantem cotas de candidaturas e regras para distribuição de recursos eleitorais, muitas mulheres continuam enfrentando dificuldades para disputar eleições em igualdade de condições.
>Segundo Patrícia, ainda é comum que candidatas recebam menos apoio financeiro e estrutural durante as campanhas, mesmo quando a legislação determina tratamento proporcional na distribuição dos recursos públicos destinados às eleições.
>Na avaliação da dirigente partidária, a fiscalização ainda é insuficiente para impedir esse tipo de prática.
>Ela também critica o uso de candidaturas femininas apenas para cumprir a exigência legal de participação mínima de mulheres nas chapas, situação que já resultou em processos e cassações de mandatos em diferentes cidades brasileiras.
>Para Patrícia, outro fator que contribui para a baixa representatividade é o próprio comportamento do eleitorado feminino.
>Na sua avaliação, muitas mulheres ainda deixam de votar em candidatas, perpetuando uma lógica histórica de predominância masculina nos espaços de decisão.
Violência política de gênero
>Patrícia afirma ter vivenciado episódios que classifica como violência política de gênero durante sua trajetória partidária.>Segundo ela, esse tipo de violência ocorre quando a mulher é formalmente registrada como candidata, mas não recebe as condições necessárias para disputar a eleição em igualdade de oportunidades.
>Na avaliação da advogada, combater esse cenário exige fiscalização dos órgãos eleitorais e maior participação das próprias mulheres na denúncia de irregularidades.
>Ela afirma que pretende utilizar sua posição na direção partidária para acompanhar de perto o cumprimento das regras de incentivo à participação feminina nas eleições.
Violência doméstica exige reação precoce
>Outra bandeira defendida por Patrícia é o enfrentamento da violência doméstica.>Ela atua orientando mulheres sobre os mecanismos previstos na legislação e afirma que muitas vítimas permanecem dentro do ciclo de violência por desconhecimento ou medo.
>Segundo a advogada, agressões físicas costumam ser precedidas por comportamentos controladores, ameaças, humilhações e episódios de violência psicológica, sinais que não devem ser ignorados.
>Por isso, ela defende que as mulheres procurem ajuda logo nos primeiros indícios de agressão.
>Na avaliação da dirigente partidária, medidas protetivas previstas na legislação representam um instrumento importante de proteção e precisam ser acompanhadas de campanhas permanentes de conscientização.
>Ela também destaca a responsabilidade da sociedade diante de situações de violência.
>Para Patrícia, vizinhos, familiares e testemunhas não devem tratar casos de agressão como um problema exclusivamente do casal. A recomendação é acionar imediatamente os órgãos de segurança, permitindo que profissionais especializados façam a intervenção necessária.
Fibromialgia: quando a lei não basta
>Nos últimos anos, Patrícia também passou a defender os direitos das pessoas com fibromialgia.>Ela afirma acompanhar de perto a realidade de pacientes e relata, inclusive, estar em investigação médica por apresentar sintomas compatíveis com a doença.
>Segundo a advogada, houve avanços importantes na legislação federal e estadual, que ampliaram o reconhecimento dos direitos das pessoas com fibromialgia, incluindo atendimento especializado, políticas públicas e instrumentos de identificação.
>Apesar disso, ela afirma que ainda existe grande distância entre o que está previsto na legislação e o atendimento encontrado na rede pública de saúde.
>Entre os principais desafios apontados estão a dificuldade para obtenção de laudos médicos, a burocracia para acesso aos benefícios e o despreparo de parte dos profissionais para reconhecer uma doença cujos sintomas nem sempre são visíveis.
>Ela também chama atenção para o preconceito enfrentado pelos pacientes, frequentemente desacreditados por apresentarem dores intensas sem sinais físicos aparentes.
O desafio da representatividade
>Ao longo da entrevista, Patrícia Berger associa praticamente todas as pautas que defende à necessidade de ampliar a presença feminina nos espaços de poder.>Para ela, mulheres parlamentares tendem a compreender com maior profundidade temas como violência doméstica, saúde feminina, maternidade e doenças que atingem predominantemente o público feminino.
>Pré-candidata à Câmara dos Deputados, Patrícia afirma que pretende levar essa experiência para o Congresso Nacional caso seja eleita.
>Independentemente do resultado das eleições, sustenta que continuará desenvolvendo ações sociais e defendendo políticas públicas voltadas às mulheres e às populações em situação de vulnerabilidade.
>Para a advogada, a transformação social começa muito antes da posse em um cargo eletivo e depende, sobretudo, da disposição de ouvir, orientar e agir diante dos problemas enfrentados pela população.

