Mesmo cercado por prédios, avenidas e décadas de intervenções humanas, o Rio Jaguaribe ainda abriga vida silvestre em João Pessoa. Um vídeo divulgado pela página Rio Jaguaribe PB registra uma capivara, uma saracura e um jacaré utilizando a água e a vegetação existente às margens do curso d'água.
As imagens mostram os animais em diferentes momentos do cotidiano e chamam atenção para uma característica muitas vezes esquecida na relação entre a cidade e a fauna: o Jaguaribe é um ecossistema natural que foi progressivamente cercado e modificado pelo avanço da urbanização.
A presença dos animais, no entanto, não significa que o rio esteja ambientalmente saudável.
Pesquisas acadêmicas, investigações dos Ministérios Públicos e levantamentos realizados pelo poder público ao longo dos últimos anos registram problemas como perda de mata ciliar, ocupação irregular das margens, assoreamento, lançamento de esgoto e acúmulo de resíduos sólidos.
Urbanização modificou margens e curso do Jaguaribe
Os impactos da expansão urbana sobre o rio são estudados há anos.
Pesquisa publicada em 2016 na Revista de Geociências do Nordeste identificou intervenções como remoção da mata ciliar, ocupação das margens e aterros na bacia hidrográfica do Jaguaribe.
O estudo relacionou a forma de ocupação do território a processos de erosão, assoreamento, enchentes, inundações e poluição. A bacia do Jaguaribe está inserida na área urbana de João Pessoa, o que aumenta a pressão provocada pelas atividades humanas ao longo do percurso.
A interferência sobre o rio também modificou sua própria geografia.
O Jaguaribe nasce na região sul da Capital e atravessa diferentes bairros. Seu curso original seguia em direção ao litoral, entre Bessa e Intermares, mas foi desviado no século passado para o sistema do Rio Mandacaru.
Parte do antigo percurso ficou conhecida como Rio Morto. Apesar do nome popular, a área continua inserida em um ambiente de manguezal e sofre influência das chuvas, marés, drenagem urbana e ocupação do entorno.
Ministério Público levou degradação do rio à Justiça
A situação ambiental do Jaguaribe voltou ao centro das discussões neste ano.
Em abril, o Ministério Público da Paraíba (MPPB) ajuizou uma ação civil pública contra os municípios de João Pessoa e Cabedelo, o Estado da Paraíba, a Sudema e a Cagepa.
A ação teve origem em uma investigação sobre a degradação ambiental da bacia e seus reflexos no trecho costeiro entre Bessa e Intermares.
Entre os problemas apontados estavam episódios de alteração da qualidade da água, presença de espuma com odor químico, turbidez, manchas escuras, mortandade de peixes e água visualmente poluída alcançando a região costeira.
Relatórios reunidos durante as investigações apontaram ainda mais de 150 pontos de pressão provocada pela atividade humana, envolvendo lançamento de esgoto, ocupação irregular, deficiência de saneamento e descarte inadequado de resíduos.
MPF também acompanha lançamento de esgoto
O problema já vinha sendo acompanhado pelo Ministério Público Federal (MPF).
Em abril de 2025, o órgão expediu recomendação para que Cagepa, Governo da Paraíba e prefeituras de João Pessoa e Cabedelo atuassem conjuntamente no enfrentamento à contaminação da região da antiga foz do Jaguaribe.
Meses depois, o MPF informou que áreas críticas estavam sendo mapeadas e que intervenções eram planejadas para enfrentar principalmente o despejo irregular de esgoto doméstico.
O descarte de lixo também representa pressão constante sobre os rios da Capital.
Em 2025, a Defesa Civil de João Pessoa informou ter retirado mais de 4 mil toneladas de vegetação e resíduos sólidos dos rios Jaguaribe, Cuiá e Cabelo e de trechos do chamado Rio Morto.
Entre os materiais recolhidos durante as ações estavam garrafas PET, sacolas plásticas, pneus, colchões e até eletrodomésticos.
Água nasce em melhores condições e piora ao longo do percurso
Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e concluída em 2025 ajuda a mostrar como a qualidade da água se modifica dentro da própria cidade.
O trabalho analisou trechos do Jaguaribe entre a nascente e a Mata do Buraquinho.
Na nascente, a água recebeu classificação “boa” pelo Índice de Qualidade da Água. O cenário, porém, se deteriorava ao longo do percurso.
A pesquisa registrou aumento das concentrações de nutrientes e microrganismos, além de assoreamento, lançamento de esgoto doméstico e acúmulo de resíduos sólidos.
Dois trechos foram considerados particularmente críticos pela elevação das concentrações de coliformes fecais.
Os resultados reforçam que a degradação não ocorre de forma uniforme: ela aumenta à medida que o rio atravessa áreas submetidas a diferentes formas de ocupação e lançamento de poluentes.
Fauna resiste às pressões urbanas
Apesar da degradação, o Jaguaribe continua sustentando diferentes formas de vida.
Um inventário da ictiofauna realizado no rio identificou 21 espécies de peixes, incluindo espécies características de água doce e outras associadas a ambientes estuarinos e marinhos.
O vídeo publicado pela página Rio Jaguaribe PB acrescenta outros exemplos dessa biodiversidade ao registrar capivara, saracura e jacaré utilizando o ambiente.
As cenas ajudam a inverter uma percepção comum quando animais silvestres aparecem em áreas densamente urbanizadas. Nem sempre se trata de fauna “invadindo” o espaço das pessoas. No caso do Jaguaribe, a ocupação urbana avançou justamente sobre áreas que historicamente faziam parte do habitat dessas espécies.
Peixe-boi precisou ser retirado do Jaguaribe
Um episódio registrado em agosto deste ano tornou ainda mais visível essa relação entre fauna e ambiente urbano.
Um peixe-boi-marinho que vinha sendo monitorado por pesquisadores chegou ao Jaguaribe, na altura do bairro São José.
O animal havia passado pelos rios Paraíba e Mandacaru antes de alcançar o Jaguaribe e acabou sendo retirado por uma equipe especializada e transferido para uma área mais adequada.
O episódio mostrou que o sistema do Jaguaribe permanece conectado a outros ambientes aquáticos e pode ser utilizado por diferentes espécies, embora determinados trechos apresentem condições inadequadas para a permanência de animais mais sensíveis.
Ecobarreiras tentam reduzir lixo e poluentes
Ao mesmo tempo em que os problemas persistem, diferentes projetos tentam recuperar partes do rio.
Em 2024, um projeto desenvolvido pela UFPB com apoio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente começou a instalar ecobarreiras fitorremediadoras no Jaguaribe.
As estruturas foram planejadas para reter resíduos flutuantes, principalmente plásticos. Plantas aquáticas colocadas entre as barreiras também auxiliam na retirada de nutrientes e outros poluentes presentes na água.
A proposta combina retenção física do lixo com processos naturais de tratamento.
Rio é monitorado em 15 quilômetros
Outra frente integra o Programa João Pessoa Sustentável.
O diagnóstico e monitoramento ambiental do Jaguaribe acompanha aproximadamente 15 quilômetros do rio, com medições de qualidade da água, sedimentos, vazão e identificação de fontes de poluição.
O planejamento técnico prevê coletas periódicas em diferentes pontos para observar como as condições ambientais se modificam ao longo do percurso e oferecer dados para futuras intervenções.
Dentro do mesmo programa está prevista a implantação de um Parque Linear de aproximadamente 2,5 quilômetros, na região do Complexo Beira Rio.
A intervenção está associada à urbanização das comunidades próximas e prevê medidas de drenagem, saneamento, infraestrutura e proteção das margens contra novas ocupações em áreas de risco.
Projeto de revitalização avança para nova etapa
O Jaguaribe também faz parte de uma iniciativa internacional de planejamento urbano e recuperação ambiental.
O Projeto Básico de Urbanização e Revitalização do Rio Jaguaribe integra o LAIF City Life, iniciativa com participação da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento e financiamento europeu.
Atualização publicada em agosto deste ano informou que os estudos iniciados em 2023 avançaram para uma etapa voltada à materialização dos projetos e à busca de financiamento para as intervenções.
Entre as soluções estudadas estão áreas úmidas artificiais, conhecidas como wetlands, destinadas a aproveitar processos naturais de retenção e filtragem da água.
Também foram apresentadas propostas de reflorestamento, espaços públicos, novas conexões entre comunidades e intervenções de recuperação ambiental ao longo do rio.
A vida que ainda permanece
A capivara entrando na água, a saracura circulando entre a vegetação e o jacaré utilizando o Jaguaribe como habitat ocupam apenas alguns segundos de vídeo, mas ajudam a contar uma história muito mais longa.
A fauna permanece mesmo depois de décadas de ocupação das margens, alterações no curso do rio e lançamento de poluentes.
Essa sobrevivência, porém, não elimina o quadro de degradação documentado por estudos científicos e órgãos de fiscalização ambiental.
Entre os animais que resistem e os projetos que tentam recuperar áreas degradadas, o desafio é fazer com que a biodiversidade registrada no Jaguaribe não dependa apenas da capacidade de adaptação das espécies, mas também da recuperação das condições ambientais do principal sistema fluvial urbano de João Pessoa.

