Paraíba
Quando a mamadeira vira espetáculo
Publicado em 20/09/2026 às 00:06 Por Redação
Noah morreu no dia 7 de setembro. Morava com a família em uma ocupação no Centro de João Pessoa e passou mal depois de se alimentar. Houve gritos por socorro, gente correndo, uma tentativa desesperada de salvar uma criança que começava a perder a vida enquanto a cidade estava mobilizada para um desfile cívico. Ele não resistiu. Depois vieram os gatos encontrados mortos, a suspeita de intoxicação, a polícia, a perícia, os depoimentos, as câmeras e as perguntas. Vieram tantas perguntas que, em algum momento, parecia que todo mundo queria um pedaço daquela história.
A morte de Noah deixou de pertencer somente à família muito rápido. O lugar onde ele morava virou cenário. Repórteres entraram ao vivo da calçada. Câmeras acompanharam a movimentação da polícia. O velório apareceu na televisão. A fotografia do menino ocupou a tela. Objetos da casa foram mostrados enquanto eram recolhidos pela perícia. Houve apresentador pedindo imagem em tela cheia, câmera procurando detalhe, especulação sobre o que poderia ter acontecido e a promessa repetida de que qualquer novidade seria imediatamente levada ao público. A dor de uma família pobre ganhou aquilo que a pobreza quase nunca consegue sozinha: atenção.
E talvez seja isso que mais incomode nessa história. Antes de Noah morrer, aquela ocupação já estava ali.
As famílias já moravam ali. As crianças já brincavam naquela calçada. A vulnerabilidade não nasceu no dia 7 de setembro. A necessidade não chegou junto com a Polícia Civil. Quem passava pela Avenida Dom Pedro II podia enxergar aquele lugar todos os dias. Mas existe uma perversidade silenciosa na maneira como aprendemos a olhar para a pobreza: acostumamo-nos com ela enquanto está viva. É preciso que alguma coisa terrível aconteça para que finalmente paremos diante dela.
Então paramos. Ligamos a câmera. Aproximamos o microfone. Perguntamos como foi, o que a criança comeu, quem estava em casa, de onde veio o alimento, quem viu, quem ouviu, quem suspeita de quem. Queremos saber de tudo. E há razões legítimas para perguntar. Noah morreu depois de ingerir uma substância tóxica e existe uma investigação que precisa descobrir como aquilo aconteceu. Jornalismo também existe para fazer perguntas difíceis, fiscalizar investigações e impedir que mortes sejam esquecidas. O problema começa quando a necessidade de informar já não parece suficiente e a dor precisa também render imagem, reação, suspense e audiência.
Nesta sexta-feira (18), soubemos que o exame toxicológico encontrou terbufós no organismo de Noah. A informação já era conhecida pela Polícia Civil e, segundo a delegada responsável pela investigação, vinha sendo mantida sob sigilo pela sensibilidade do caso. O resultado confirma a ingestão da substância, mas ainda não responde à pergunta que talvez seja a mais importante: como o veneno chegou até aquela criança? A polícia ainda investiga se houve uma circunstância acidental ou criminosa. Mesmo assim, antes que todas as respostas existissem, partes daquela história já haviam escapado das mãos de quem tinha a obrigação de protegê-las.
É estranho pensar em sigilo quando quase tudo já parece ter sido mostrado.
Sabemos onde Noah morava. Vimos a ocupação. Vimos sua fotografia. Vimos a polícia entrando. Vimos o desespero. Vimos o lugar onde a família se despedia. Vimos a mamadeira sendo recolhida. O menino tinha idade demais para morrer e idade de menos para decidir o quanto de sua vida poderia ser entregue à curiosidade pública. Talvez por isso, quando a vítima é uma criança, exista uma responsabilidade ainda maior sobre aquilo que escolhemos mostrar. Noah não podia consentir. Coube aos adultos decidir por ele. E nós, adultos, mostramos muito.
Existe também outra pergunta, talvez mais incômoda porque não produz imagens tão boas: o que aconteceu com aquela família depois?
No material tornado público até agora, há relatos de solidariedade entre moradores e referências a doações que costumam chegar à comunidade. Mas não há notícia de uma resposta estruturada que tenha transformado a realidade da família depois da morte de Noah. Isso não significa que nenhuma ajuda tenha existido. Significa apenas que, enquanto cada novo detalhe da investigação encontrou espaço para ser contado, pouco se soube sobre o que foi feito para que aquela mãe e aquelas crianças continuassem vivendo depois que enterraram o caçula.
É uma diferença que diz muito sobre aquilo que consideramos notícia. A morte interessa. A sobrevivência quase sempre interessa menos.
Queremos saber quem colocou o veneno, de onde ele veio, se estava no leite, se foi acidente, negligência ou crime. Precisamos saber. Mas talvez também devêssemos perguntar se aquelas crianças têm comida amanhã. Se aquela mãe recebeu acompanhamento depois de enterrar um filho. Se a família tem para onde ir. Se existe assistência social acompanhando aquelas pessoas. Se a mesma sociedade que assistiu ao pior dia de suas vidas pretende continuar olhando quando a tragédia perder a novidade. Porque a câmera vai embora. Ela sempre vai.
Em algum momento, a Polícia Civil concluirá o inquérito. Talvez exista um responsável. Talvez algumas perguntas permaneçam sem resposta. Haverá uma manchete, uma reportagem, uma última entrada ao vivo. Depois surgirá outro crime, outro corpo, outra mãe chorando, outra imagem “em primeira mão”. A televisão precisa continuar. O portal precisa atualizar. O jornal precisa fechar. Nós, jornalistas, vamos atrás da próxima história porque esse também é o nosso trabalho.
A família de Noah não terá a mesma possibilidade.
Quando as câmeras forem embora, seus irmãos continuarão crescendo naquela ocupação. A mãe continuará acordando em uma realidade na qual existem cinco filhos na memória e quatro diante dos olhos. A mamadeira desaparecerá das telas e continuará sendo peça de uma investigação. O rosto do menino deixará aos poucos as manchetes. A audiência encontrará outra coisa para assistir.
Talvez seja por isso que a morte de Noah exija de nós algo além da indignação que dura enquanto a reportagem está no ar. Exija que pensemos sobre o tipo de sociedade que olha com enorme interesse para a tragédia de quem vive à margem, mas quase nunca com a mesma intensidade para aquilo que existia antes dela. A pobreza não deveria precisar produzir um cadáver para ser enxergada.
Noah tinha uma vida antes de virar caso.
Sua mãe era mãe antes de virar entrevistada. Seus irmãos eram crianças antes de aparecerem como números na história. Aquela ocupação era casa antes de virar cenário. E talvez o mínimo que possamos fazer, depois de termos entrado tão profundamente na dor daquela família, seja não confundir o direito de contar uma história com o direito de possuir cada pedaço dela.
Nós já vimos o bastante. Agora, resta saber se continuaremos olhando quando não houver mais espetáculo.
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