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Brasil

Fãs de K-pop colocam Lula em clipes com IA e criam nova trend no X durante 2º turno

Publicado em 11/10/2026 às 01:20 Por Redação
Foto: Reprodução/ Instagram
Foto: Reprodução/ Instagram
Uma nova trend criada por usuários das redes sociais passou a misturar K-pop, inteligência artificial e a disputa presidencial de 2026. Nos últimos dias, montagens começaram a circular no X, antigo Twitter, colocando o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dentro de videoclipes de grupos e artistas sul-coreanos.

Nas edições, o rosto de Lula aparece inserido digitalmente em cenas originalmente protagonizadas por idols de K-pop. A brincadeira se espalhou entre diferentes perfis e passou a integrar uma mobilização mais ampla de apoiadores do presidente nas redes sociais durante o segundo turno.

A movimentação ocorre em um momento no qual grupos de fãs de artistas como BTS e BLACKPINK, além de fandoms brasileiros, organizam ações digitais de apoio a Lula. Reportagem da Folha de S.Paulo identificou uma mobilização denominada “Fandoms com Lula”, reunindo mais de mil fã-clubes em ações voluntárias nas redes. 

Lula vai parar em clipes, novelas e filmes

O K-pop é apenas uma parte da nova onda de montagens.

No X, usuários também passaram a inserir o presidente em cenas de novelas, séries, filmes, videoclipes e outros conteúdos conhecidos da cultura pop, geralmente com intenção humorística ou de mobilização política.

A dinâmica se apoia na lógica dos memes: utilizar uma referência facilmente reconhecível pelo público e alterar o contexto para criar humor, identificação ou transmitir uma mensagem.

Com ferramentas de inteligência artificial cada vez mais acessíveis, parte dessas edições deixou de depender apenas de montagens tradicionais. Agora é possível modificar rostos, expressões, movimentos e até vozes com poucos comandos.

Afinal, o que é K-pop?

K-pop é a abreviação de Korean pop, ou pop coreano, denominação utilizada para a indústria musical popular desenvolvida principalmente na Coreia do Sul.

O gênero mistura diferentes estilos — como pop, hip-hop, música eletrônica e R&B — e ficou conhecido mundialmente também pela importância dada às coreografias, aos videoclipes e à construção visual dos artistas.

Grupos como BTS, BLACKPINK, Stray Kids, TWICE e SEVENTEEN ajudaram a ampliar o alcance internacional do gênero.

O K-pop também possui uma característica importante para entender a trend política brasileira: seus fandoms são fortemente organizados na internet.

Fãs costumam se mobilizar para divulgar músicas, impulsionar hashtags, realizar mutirões de votação em premiações e organizar campanhas sociais. Esse modelo de organização digital passou a ser utilizado também por alguns grupos em mobilizações políticas.

O que é deepfake?

Parte das montagens que circulam pode ser enquadrada tecnicamente como deepfake, dependendo do grau de realismo e da forma como foi produzida.

O Tribunal Superior Eleitoral define deepfake como conteúdo sintético criado ou manipulado por inteligência artificial ou tecnologia equivalente, com grau de realismo ou verossimilhança, capaz de criar, reproduzir ou alterar a imagem, a voz ou a manifestação de uma pessoa. 

Na prática, uma ferramenta pode, por exemplo, pegar o rosto de Lula e aplicá-lo sobre o corpo de um cantor em um videoclipe, ajustando automaticamente expressões e movimentos para que a montagem acompanhe a cena original.

Nem toda edição com IA, porém, tem intenção de enganar. Há conteúdos claramente humorísticos, absurdos ou satíricos.

O problema surge principalmente quando a manipulação parece verdadeira e leva o público a acreditar que determinada pessoa falou ou fez algo que nunca aconteceu.

IA já ganhou espaço na campanha de 2026

O fenômeno não está restrito aos memes produzidos por apoiadores.

Um levantamento do projeto VigIA, da Agência Lupa, identificou 554 vídeos e imagens classificados como deepfakes durante a campanha para o primeiro turno. Lula foi a pessoa mais retratada nesse tipo de material, aparecendo em 379 publicações. Flávio Bolsonaro apareceu em 190. 

No caso de Lula, 39% das publicações analisadas tinham caráter de humor ou sátira, enquanto 34% buscavam atacar a candidatura.

O levantamento mostra como a inteligência artificial passou a fazer parte tanto da propaganda e da militância digital quanto da produção de desinformação.

TSE estabelece limites para uso de IA

A Justiça Eleitoral estabeleceu regras específicas para conteúdos produzidos ou modificados por inteligência artificial.

Quando utilizados em propaganda eleitoral, materiais sintéticos precisam ser identificados de forma explícita como manipulados por IA. O TSE também veda deepfakes utilizados como propaganda eleitoral nos casos previstos pela resolução. 

Para as Eleições 2026, existe ainda uma restrição adicional: nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores à votação não podem ser publicados ou republicados novos conteúdos sintéticos que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas, mesmo que estejam identificados como produzidos com IA. 

Por isso, uma montagem evidentemente humorística feita por um usuário comum e uma propaganda eleitoral manipulada para parecer verdadeira podem receber tratamentos jurídicos diferentes. O contexto, a finalidade e o grau de realismo são elementos considerados pela Justiça Eleitoral. 

Segundo turno aumenta disputa pelas redes

A trend aparece em meio à reorganização das estratégias digitais para o segundo turno da eleição presidencial, que será realizado em 25 de outubro. Lula disputa a Presidência contra Flávio Bolsonaro (PL). 

No primeiro turno, Flávio terminou na frente, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 45,16%. Nenhum dos dois alcançou a maioria absoluta necessária para encerrar a disputa em 4 de outubro. 

Após o resultado, a campanha de Lula intensificou a atuação nas redes e passou a reunir políticos e influenciadores com maior experiência em comunicação digital para discutir a estratégia do segundo turno. 

É importante fazer uma distinção: embora a força digital de Flávio tenha sido apontada como uma vantagem de comunicação durante boa parte da campanha, análises sobre o resultado do primeiro turno também destacaram outros fatores, como abstenção e migração de voto útil. Portanto, não há base para atribuir o resultado das urnas exclusivamente às redes sociais. 

Lula cresce no engajamento depois do primeiro turno

Os números das plataformas também indicam uma mudança desde a primeira votação.

Durante setembro, Flávio Bolsonaro liderou o engajamento em redes sociais na maior parte dos dias analisados. Depois do primeiro turno, Lula aumentou significativamente as interações e ultrapassou o adversário em determinados levantamentos.

Em 7 de outubro, publicações de Lula somaram 9,9 milhões de interações, segundo levantamento divulgado pela Folha. Um dos vídeos do presidente chegou a 26,9 milhões de visualizações. 

Esse crescimento coincide com uma mudança na linguagem utilizada pela campanha, incluindo vídeos verticais, gravações em formato de selfie e maior participação de grupos organizados de apoiadores. 

Fandoms entram na disputa digital

A participação dos fãs de K-pop representa uma vertente menos institucional dessa movimentação.

Os conteúdos são produzidos e compartilhados por usuários que adaptam linguagens próprias dos fandoms — memes, fancams, montagens e referências a idols — ao debate eleitoral.

A mobilização identificada entre fã-clubes de BTS, BLACKPINK e outros artistas é descrita pelos participantes como voluntária e independente. Segundo a Folha, os grupos têm promovido hashtags, cartilhas e publicações coordenadas para ampliar o alcance de mensagens favoráveis a Lula. 

As montagens que colocam o presidente dentro de videoclipes de K-pop são, assim, uma das manifestações de uma disputa eleitoral que também passou a ser travada através de memes, cultura pop e inteligência artificial.

Com duas semanas restantes até o segundo turno, a circulação desses conteúdos também reforça o desafio para o eleitor: distinguir rapidamente uma sátira evidente de uma manipulação criada para parecer verdadeira.

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