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Muito além do pet: por que a saúde dos animais é peça-chave para a saúde humana

Atualizada em 20/03/2026 às 21:19 Por Redação
Foto: Ponto PB
Foto: Ponto PB


Em um país onde cães e gatos ocupam cada vez mais espaço dentro de casa, ainda é comum reduzir o papel da medicina veterinária ao cuidado de animais de estimação. Mas essa visão limitada esconde um ponto crucial: a saúde animal está diretamente ligada à saúde humana e ambiental. E ignorar essa conexão pode custar caro, inclusive em vidas.

Durante a Semana dos Animais, tema que vem ganhando visibilidade no Brasil, o médico veterinário e sanitarista Paulo Wbiratan chama atenção para um conceito que tem orientado políticas públicas no mundo inteiro: a chamada “saúde única”. Segundo ele, cuidar dos animais não é apenas uma questão de afeto, mas uma estratégia essencial de saúde pública. Ele foi o entrevistado desta quinta-feira (19) do Em Ponto Podcast.

“Quando a gente fala em saúde, não pode separar o animal do ser humano e do ambiente. É um ciclo”, afirma.

A ideia de que humanos, animais e meio ambiente formam um sistema interligado não é nova, mas ganhou força nos últimos anos, especialmente após pandemias e surtos de doenças emergentes.

De acordo com dados citados pelo especialista com base na Organização Mundial da Saúde, cerca de 60% das doenças que afetam humanos têm origem animal. Entre as doenças mais recentes, esse número chega a 75%.

São as chamadas zoonoses, enfermidades transmitidas entre animais e pessoas.

Na prática, isso significa que surtos podem começar longe dos grandes centros urbanos, muitas vezes em ambientes onde há desequilíbrio entre natureza e ocupação humana.

“Se eu cuido da saúde do animal, automaticamente estou cuidando da saúde da população”, resume o veterinário.


Quando o problema começa no ambiente


O avanço desordenado das cidades é um dos fatores que mais contribuem para esse desequilíbrio. Em regiões litorâneas como a Grande João Pessoa, onde ainda há fragmentos de Mata Atlântica, a ocupação urbana tem empurrado animais silvestres para áreas habitadas.

Casos recentes, como o aparecimento de jacarés em praias e ataques de animais silvestres, ilustram esse cenário.

“Quando o habitat é invadido, o animal não desaparece. Ele se desloca para sobreviver”, explica.

Esse deslocamento aumenta o risco de contato com humanos — e, consequentemente, de transmissão de doenças.


O perigo silencioso das zoonoses


Entre as doenças mais preocupantes está a raiva, considerada uma das mais letais do mundo. Segundo o especialista, há registro de pouquíssimos sobreviventes após o desenvolvimento da doença.

Casos recentes na Paraíba, envolvendo ataques de animais silvestres como saguis e raposas, reforçam o alerta.

A orientação é clara: qualquer mordida ou arranhão de animal desconhecido deve ser tratado como urgência.

  • Lavar o local com água corrente imediatamente

  • Procurar atendimento médico o mais rápido possível

  • Iniciar protocolo antirrábico, se indicado

“O ideal é buscar atendimento em até 72 horas. Quanto antes, melhor”, destaca.


Os invisíveis das cidades: animais de tração e riscos ocultos


Outro ponto pouco discutido envolve os chamados animais de tração, como cavalos, burros e jumentos utilizados em carroças.

Em pesquisas realizadas na Paraíba, o veterinário identificou que 88% desses animais apresentavam algum tipo de parasita. Em estudos mais amplos, também foram detectados agentes como brucelose — uma doença com impacto direto na saúde humana e na cadeia produtiva.

Esses animais, que circulam por diferentes áreas urbanas, funcionam como “sentinelas sanitárias”.

“Quando eles aparecem contaminados, é um sinal de alerta de que o agente está circulando naquele ambiente”, explica.


Bem-estar animal: as cinco liberdades


Se a saúde animal é estratégica, o bem-estar também é um indicador essencial. Um dos conceitos mais utilizados na área é o das “cinco liberdades”, que definem as condições mínimas para uma vida digna:

  • Livre de fome e sede

  • Livre de dor e doenças

  • Livre de medo e estresse

  • Livre para expressar comportamento natural

  • Livre em um ambiente adequado

O descumprimento dessas condições caracteriza maus-tratos — que, no Brasil, são crime.

“Não é só agressão física. Deixar sem água, sem comida ou em ambiente inadequado também é violência”, afirma.


Abandono: o crime mais comum — e mais silencioso


Entre as formas de maus-tratos, o abandono é uma das mais frequentes — e com consequências severas.

Um animal doméstico, que poderia viver entre 12 e 20 anos, tem sua expectativa de vida reduzida para cerca de 2 a 4 anos quando passa a viver nas ruas.

Além do sofrimento individual, o problema se torna coletivo:

  • Aumento de doenças

  • Proliferação de parasitas

  • Riscos à saúde pública

“Você abandona um ser vivo que não sabe mais sobreviver sozinho. Ele entra em um ciclo muito mais adverso”, diz o especialista.


Informação e denúncia: pilares das políticas públicas


Embora o Brasil possua legislação e campanhas — como a vacinação antirrábica gratuita — ainda há lacunas na implementação de políticas públicas voltadas ao bem-estar animal.

Nesse cenário, a participação da população é fundamental.

Casos de maus-tratos devem ser denunciados à polícia, sempre com registros que comprovem a situação.

“Não basta suspeitar. É preciso registrar, filmar, denunciar. Só assim a lei pode agir”, orienta.


Protetores independentes: uma rede que sustenta o sistema


Na ausência de estrutura pública suficiente, um grupo tem desempenhado papel essencial: os protetores de animais.

Organizados em ONGs ou de forma independente, eles resgatam, tratam e encaminham animais para adoção — muitas vezes com recursos próprios ou doações.

“Eles fazem um trabalho social e de saúde pública ao mesmo tempo”, afirma o veterinário.


Um problema coletivo, uma solução compartilhada


Ao final, a mensagem é direta: cuidar dos animais é cuidar de si mesmo.

A relação entre humanos e outras espécies deixou de ser apenas afetiva — tornou-se estratégica para a sobrevivência coletiva.

“Os animais sentem dor como nós. E quando a gente protege eles, está protegendo toda a sociedade”, conclui.

Em um mundo cada vez mais urbano e conectado, a saúde deixa de ser individual e passa a ser compartilhada. E, nesse cenário, os animais deixam de ser coadjuvantes para ocupar um papel central — como parte essencial de um sistema que, quando falha, afeta a todos.

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