Durante a Semana dos Animais, tema que vem ganhando visibilidade no Brasil, o médico veterinário e sanitarista Paulo Wbiratan chama atenção para um conceito que tem orientado políticas públicas no mundo inteiro: a chamada “saúde única”. Segundo ele, cuidar dos animais não é apenas uma questão de afeto, mas uma estratégia essencial de saúde pública. Ele foi o entrevistado desta quinta-feira (19) do Em Ponto Podcast.
“Quando a gente fala em saúde, não pode separar o animal do ser humano e do ambiente. É um ciclo”, afirma.
A ideia de que humanos, animais e meio ambiente formam um sistema interligado não é nova, mas ganhou força nos últimos anos, especialmente após pandemias e surtos de doenças emergentes.
De acordo com dados citados pelo especialista com base na Organização Mundial da Saúde, cerca de 60% das doenças que afetam humanos têm origem animal. Entre as doenças mais recentes, esse número chega a 75%.
São as chamadas zoonoses, enfermidades transmitidas entre animais e pessoas.
Na prática, isso significa que surtos podem começar longe dos grandes centros urbanos, muitas vezes em ambientes onde há desequilíbrio entre natureza e ocupação humana.
“Se eu cuido da saúde do animal, automaticamente estou cuidando da saúde da população”, resume o veterinário.
Quando o problema começa no ambiente
Casos recentes, como o aparecimento de jacarés em praias e ataques de animais silvestres, ilustram esse cenário.
“Quando o habitat é invadido, o animal não desaparece. Ele se desloca para sobreviver”, explica.
Esse deslocamento aumenta o risco de contato com humanos — e, consequentemente, de transmissão de doenças.
O perigo silencioso das zoonoses
Casos recentes na Paraíba, envolvendo ataques de animais silvestres como saguis e raposas, reforçam o alerta.
A orientação é clara: qualquer mordida ou arranhão de animal desconhecido deve ser tratado como urgência.
- Lavar o local com água corrente imediatamente
- Procurar atendimento médico o mais rápido possível
- Iniciar protocolo antirrábico, se indicado
Os invisíveis das cidades: animais de tração e riscos ocultos
Em pesquisas realizadas na Paraíba, o veterinário identificou que 88% desses animais apresentavam algum tipo de parasita. Em estudos mais amplos, também foram detectados agentes como brucelose — uma doença com impacto direto na saúde humana e na cadeia produtiva.
Esses animais, que circulam por diferentes áreas urbanas, funcionam como “sentinelas sanitárias”.
“Quando eles aparecem contaminados, é um sinal de alerta de que o agente está circulando naquele ambiente”, explica.
Se a saúde animal é estratégica, o bem-estar também é um indicador essencial. Um dos conceitos mais utilizados na área é o das “cinco liberdades”, que definem as condições mínimas para uma vida digna:
“Não é só agressão física. Deixar sem água, sem comida ou em ambiente inadequado também é violência”, afirma.
Entre as formas de maus-tratos, o abandono é uma das mais frequentes — e com consequências severas.
Um animal doméstico, que poderia viver entre 12 e 20 anos, tem sua expectativa de vida reduzida para cerca de 2 a 4 anos quando passa a viver nas ruas.
Além do sofrimento individual, o problema se torna coletivo:
Embora o Brasil possua legislação e campanhas — como a vacinação antirrábica gratuita — ainda há lacunas na implementação de políticas públicas voltadas ao bem-estar animal.
Nesse cenário, a participação da população é fundamental.
Esses animais, que circulam por diferentes áreas urbanas, funcionam como “sentinelas sanitárias”.
“Quando eles aparecem contaminados, é um sinal de alerta de que o agente está circulando naquele ambiente”, explica.
Bem-estar animal: as cinco liberdades
- Livre de fome e sede
- Livre de dor e doenças
- Livre de medo e estresse
- Livre para expressar comportamento natural
- Livre em um ambiente adequado
“Não é só agressão física. Deixar sem água, sem comida ou em ambiente inadequado também é violência”, afirma.
Abandono: o crime mais comum — e mais silencioso
Um animal doméstico, que poderia viver entre 12 e 20 anos, tem sua expectativa de vida reduzida para cerca de 2 a 4 anos quando passa a viver nas ruas.
Além do sofrimento individual, o problema se torna coletivo:
- Aumento de doenças
- Proliferação de parasitas
- Riscos à saúde pública
Informação e denúncia: pilares das políticas públicas
Nesse cenário, a participação da população é fundamental.
Casos de maus-tratos devem ser denunciados à polícia, sempre com registros que comprovem a situação.
“Não basta suspeitar. É preciso registrar, filmar, denunciar. Só assim a lei pode agir”, orienta.
Protetores independentes: uma rede que sustenta o sistema
Organizados em ONGs ou de forma independente, eles resgatam, tratam e encaminham animais para adoção — muitas vezes com recursos próprios ou doações.
“Eles fazem um trabalho social e de saúde pública ao mesmo tempo”, afirma o veterinário.
Um problema coletivo, uma solução compartilhada
A relação entre humanos e outras espécies deixou de ser apenas afetiva — tornou-se estratégica para a sobrevivência coletiva.
“Os animais sentem dor como nós. E quando a gente protege eles, está protegendo toda a sociedade”, conclui.
Em um mundo cada vez mais urbano e conectado, a saúde deixa de ser individual e passa a ser compartilhada. E, nesse cenário, os animais deixam de ser coadjuvantes para ocupar um papel central — como parte essencial de um sistema que, quando falha, afeta a todos.

