À frente da 6ª Companhia Independente da Polícia Militar, a tenente-coronel Viviane Vieira ocupa um lugar que, por muito tempo, pareceu reservado aos homens. Em 2023, ela se tornou a primeira mulher a comandar a unidade, responsável por uma área que abrange bairros como Intermares, Ponta de Campina, Jacaré, Renascer e Salinas Ribamar, até o fim de Cabedelo. À época, o próprio Governo da Paraíba destacou o feito como uma quebra de barreira dentro de uma estrutura historicamente masculina.
Mas a história de Viviane não cabe apenas no marco institucional de “primeira mulher”. Ela é, ao mesmo tempo, o retrato de uma oficial moldada na rua, de uma mãe que mede promoções também pelo impacto na rotina do filho, e de uma comandante que fala de feminicídio não como conceito de cartilha, mas como ferida cotidiana de um estado e de um país.
No podcast Em Ponto especial do Dia Internacional da Mulher Viviane não se limitou a falar como autoridade. Falou como mulher, cidadã e agente pública que conhece o peso de uma ocorrência antes mesmo de ela virar boletim.
O sonho começou cedo
A frase parece simples, mas ajuda a entender a espinha dorsal de sua trajetória. Em vez de romantizar a carreira, ela descreve a profissão como um espaço de entrega. Poderia ter sido saúde, educação ou segurança. O que importava era o contato com o público, a utilidade, a presença concreta na vida de alguém.
Só que esse caminho não foi aberto em terreno neutro. Há duas décadas, entrar numa corporação majoritariamente masculina significava conviver com olhares, comentários e desconfiança. E havia um detalhe que incomodava ainda mais quem preferia empurrar mulheres para funções secundárias: Viviane nunca escondeu que queria trabalhar na rua.
Ela conta que ouviu falas descredibilizantes, inclusive de colegas. Mas, em vez de responder tentando convencer os outros, transformou a ambição numa prova íntima: precisava provar a si mesma que chegaria onde sonhava. Entre os sonhos de cadete, um era claro — comandar uma unidade de área.
Chegou lá.
Cabedelo, a tal pesquisa e a adesão orgâniga
Viviane define a região como uma área “conflagrada”. O termo não é retórico. A cidade está inserida num contexto de reorganização violenta do crime, com disputas por território e avanço de facções. Ela cita isso de forma objetiva: há uma guerra em curso, e o Estado precisa barrar o domínio territorial imposto pelo crime.
Essa percepção dialoga com o calendário político recente do município. Cabedelo terá eleição suplementar em abril de 2026, e o TRE-PB já oficializou duas chapas aptas ao pleito, depois da definição do calendário e do encerramento do prazo de registros.
No meio desse ambiente politicamente sensível e socialmente tensionado, o nome da comandante apareceu, segundo relatado no podcast, em sondagens espontâneas e passou a ser lembrado por moradores como alternativa de representação. Ela diz ter recebido a notícia como reconhecimento de um trabalho de proximidade com a comunidade — e não como um projeto previamente calculado de poder.
O ponto central, contudo, não é o flerte entre segurança e política. É o motivo pelo qual isso acontece: a percepção popular de que, em muitos territórios, quem aparece, escuta e age passa a ocupar simbolicamente um espaço de liderança.
A comandante que fala em facção — e em feminicídio na mesma frase
Ela coloca lado a lado duas frentes: a guerra de facções e a violência contra a mulher.
Isso importa porque rompe uma hierarquia perversa, ainda comum no debate público, que trata feminicídio, estupro, violência doméstica e importunação como temas “sociais”, enquanto reserva à “segurança de verdade” o enfrentamento armado ao tráfico e às facções.
Viviane não compra essa separação.
Para ela, o avanço das facções é grave, mas também é grave o fato de mulheres seguirem sendo violentadas dentro de casa, no trabalho, na internet e nos relacionamentos. E o estado da Paraíba tem dados recentes que ajudam a dimensionar esse cenário. Em 2025, o governo estadual informou que o programa Antes que Aconteça já registrava quase 5 mil casos de violência contra a mulher, sendo 4.276 deles relativos à violência doméstica entre janeiro e agosto; no mesmo período, houve aumento de 33,33% nos registros de importunação sexual em relação ao ano anterior.
No fim de 2025, outra informação oficial reforçou a gravidade do quadro: 35 mulheres assassinadas na Paraíba naquele ano não tinham medidas protetivas, o que as deixava ainda mais expostas à ação de agressores, em geral companheiros ou ex-companheiros.
É nesse ponto que a entrevista deixa de ser apenas institucional e ganha densidade humana. Porque Viviane fala do tema também em primeira pessoa.
Quando a autoridade vira vítima
Esse trecho da conversa carrega um símbolo poderoso: uma oficial de alta patente, treinada para reagir em ambientes de crise, ainda assim precisou percorrer o caminho da vítima comum — registrar, guardar prints, reunir provas, transformar constrangimento em procedimento.
A experiência a aproximou ainda mais das mulheres que chegam fragilizadas ao sistema. E ela toca num ponto central: muitas vezes, a mulher sequer reconhece que está sendo vítima. A violência está tão banalizada que o sofrimento perde nome. A agressão psicológica vira “temperamento”. O controle patrimonial vira “ciúme”. A humilhação vira “coisa de casal”. O assédio vira “comentário”.
Viviane insiste que uma das missões dos agentes públicos é justamente dar nome ao abuso.
O problema não começa na delegacia
Na prática, ela descreve algo maior do que policiamento: uma disputa cultural.
Sua leitura é que determinados discursos públicos, quando legitimam desprezo, misoginia ou humilhação, abrem porteiras para que outras pessoas repitam a violência. O raciocínio é direto: quando figuras vistas como referência naturalizam agressões verbais e simbólicas, muita gente entende que recebeu uma autorização informal para fazer o mesmo.
Nessa perspectiva, liberdade de expressão deixa de ser escudo quando cruza a fronteira do crime. O que fere direito alheio, lembra ela, já não é opinião — é violência.
Um dos trechos fortes da entrevista é quando Viviane desmonta uma das crueldades mais repetidas em casos de violência doméstica: a ideia de que tudo depende de a mulher “ter coragem” e denunciar sozinha.
Ela não nega a importância dessa coragem. Ao contrário, a exalta. Mas lembra que, no momento da agressão, a mulher costuma estar com medo, emocionalmente destruída, financeiramente dependente, isolada e, muitas vezes, sem conseguir enxergar a gravidade da situação.
É nesse vazio que entra a rede de apoio.
Família, vizinhos, colegas, amigos e agentes públicos podem agir. E devem agir. Ela lembra que a denúncia pode ser feita mesmo por terceiros, inclusive sem identificação, porque a violência doméstica é tratada como crime de ação pública incondicionada. Isso significa, em termos práticos, que o sistema não deveria depender exclusivamente da vontade imediata da vítima para começar a agir.
Os canais existem: 190, 197 e 180 seguem como portas de entrada para denúncia e orientação. Além disso, a Paraíba consolidou em lei, no fim de 2025, o Programa Integrado Patrulha Maria da Penha, transformando a iniciativa em política pública permanente voltada ao acolhimento, monitoramento de medidas protetivas e articulação da rede de atendimento.
Em mensagem oficial ao Legislativo, o governo estadual afirmou ainda que, desde a implantação do programa, nenhuma mulher atendida pela Patrulha Maria da Penha foi perdida para o feminicídio.
Sua leitura é que determinados discursos públicos, quando legitimam desprezo, misoginia ou humilhação, abrem porteiras para que outras pessoas repitam a violência. O raciocínio é direto: quando figuras vistas como referência naturalizam agressões verbais e simbólicas, muita gente entende que recebeu uma autorização informal para fazer o mesmo.
Nessa perspectiva, liberdade de expressão deixa de ser escudo quando cruza a fronteira do crime. O que fere direito alheio, lembra ela, já não é opinião — é violência.
A rede de apoio que salva antes da manchete
Ela não nega a importância dessa coragem. Ao contrário, a exalta. Mas lembra que, no momento da agressão, a mulher costuma estar com medo, emocionalmente destruída, financeiramente dependente, isolada e, muitas vezes, sem conseguir enxergar a gravidade da situação.
É nesse vazio que entra a rede de apoio.
Família, vizinhos, colegas, amigos e agentes públicos podem agir. E devem agir. Ela lembra que a denúncia pode ser feita mesmo por terceiros, inclusive sem identificação, porque a violência doméstica é tratada como crime de ação pública incondicionada. Isso significa, em termos práticos, que o sistema não deveria depender exclusivamente da vontade imediata da vítima para começar a agir.
Os canais existem: 190, 197 e 180 seguem como portas de entrada para denúncia e orientação. Além disso, a Paraíba consolidou em lei, no fim de 2025, o Programa Integrado Patrulha Maria da Penha, transformando a iniciativa em política pública permanente voltada ao acolhimento, monitoramento de medidas protetivas e articulação da rede de atendimento.
Em mensagem oficial ao Legislativo, o governo estadual afirmou ainda que, desde a implantação do programa, nenhuma mulher atendida pela Patrulha Maria da Penha foi perdida para o feminicídio.
Os números e programas ajudam a medir a política pública. Mas a entrevista insiste em algo que estatística nenhuma substitui: o acolhimento no primeiro contato.
Viviane volta várias vezes a um sonho pessoal: um atendimento muito mais especializado e humano para mulheres no exato momento em que a violência acontece.
Maternidade: o comando também passa por casa
Quando recorda a chegada ao comando, em 2023, a primeira reação não foi comemoração. Foi cálculo doméstico. Pensou no filho. Em como reorganizar terapias, rotina e presença. Em como administrar a nova função sem desmontar a engrenagem íntima que sustenta a maternidade.
Ela revelou ser mãe atípica e fala do desafio de equilibrar a missão profissional com os cuidados diários. O relato desloca o foco da velha celebração protocolar da “mulher que venceu” para um ponto mais honesto: mulheres em cargo de chefia quase sempre continuam gerenciando jornadas múltiplas, invisíveis e exaustivas.
Nessa parte da conversa, a farda perde rigidez e dá lugar à mãe que se reconhece menos como protagonista e mais como quem gira em torno de outro ser em formação. O vocabulário muda: aparecem terapia, rotina, casa, motorista, professora, médica, animadora, cuidadora.
A comandante que chefia operações também precisa garantir que o filho esteja bem para poder seguir bem.
Moisés e a marca dos casos que não saem da memória
Viviane relembra a comoção que tomou conta da cidade, o cuidado dado pelas forças de segurança e pela rede de saúde, e o desfecho que hoje funciona como alívio em meio à brutalidade original: segundo ela, o menino está bem, cercado por uma família que acompanha seu crescimento.
Há, na memória de Moisés, um ponto de contato com a própria maternidade de Viviane. Pouco tempo depois, ela engravidaria do filho. Não é exagero dizer que a experiência parece ter adensado seu modo de enxergar infância, abandono e proteção.
Ela diz que ser mãe foi a maior revolução pessoal de sua vida. E, num tempo em que masculinidades violentas ainda custam vidas, formula seu projeto mais íntimo de transformação social não em termos grandiosos, mas domésticos: criar um homem digno, que respeite as mulheres e compreenda o limite entre o próprio direito e o direito do outro.
A barraca no carro
Ela conta que encontrou um homem em situação de rua e conversou com ele. Depois, narrando o episódio ao filho, ouviu uma pergunta simples: por que não comprar uma barraca para que ele tivesse um teto? Comprou. Desde então, carrega a barraca no carro, procurando reencontrá-lo.
A cena é pequena, mas diz muito.
Fala de uma comandante treinada para lidar com alta complexidade, mas tocada por uma solução infantil, direta e moralmente incontornável. E fala de um filho que, sem perceber, devolve à mãe a essência daquilo que ela diz ter escolhido aos 17 anos: servir.
O que Viviane deseja para Cabedelo
Quer famílias transitando sem medo. Quer facções contidas. Quer saneamento. Quer ruas em condições de receber policiamento. Quer moradia digna. Quer ônibus onde não há. Quer supermercado em bairro que não tem. Quer delegacia da mulher acolhendo bem todas as vítimas. Quer Conselho Tutelar funcionando onde precisa funcionar.
Em outras palavras: ela descreve segurança pública como algo inseparável de dignidade urbana.
É uma visão que desafia tanto o simplismo do discurso exclusivamente repressivo quanto a ingenuidade de achar que políticas sociais, sozinhas, resolvem territórios atravessados por violência armada. O que aparece ali é uma noção integrada de Estado: segurança, infraestrutura, acolhimento e presença institucional.
A coragem como mensagem final
Coragem para denunciar. Coragem para sair. Coragem para enfrentar a própria família quando ela minimiza a dor da mulher. Coragem para buscar ajuda. Coragem para romper o silêncio.
Não é uma coragem abstrata, heroica, cinematográfica. É a coragem cotidiana de quem precisa sobreviver ao ciclo da violência antes de qualquer discurso bonito no 8 de março.
Porque, no fim das contas, a fala da comandante expõe uma contradição que o país ainda não resolveu: mulheres continuam recebendo flores numa data simbólica enquanto seguem lutando, no dia seguinte, para permanecer vivas.
E talvez seja por isso que a entrevista com a tenente-coronel Viviane Vieira tenha força para além do cargo que ela ocupa. Ela não fala apenas do que a polícia faz. Ela fala do que a sociedade ainda tolera, do que o Estado ainda falha em impedir e do que as mulheres ainda precisam gritar para serem ouvidas.
Em Cabedelo, onde a rua cobra dureza e sensibilidade ao mesmo tempo, essa fala não é detalhe.
É aviso.
