Durante anos, o lugar de Leila Bezerra diante das câmeras parecia estar definido: microfone na mão, ruas de João Pessoa como cenário e a cobertura policial como território profissional. Mas a trajetória que a levou até ali começou muito antes, ainda na infância, quando falar em público não era um obstáculo, mas uma espécie de vocação.
Hoje conhecida como “Xerife do Povo”, Leila construiu uma relação particular com a audiência. Mesmo depois de deixar a televisão aberta, continuou nas ruas, produzindo conteúdo e mantendo o contato direto com quem acompanha seu trabalho. A mudança de plataforma, segundo ela, não significou o fim da atividade jornalística. Significou uma nova maneira de exercê-la.
Em entrevista ao Em Ponto Podcast, do Portal Ponto PB, Leila revisitou a própria história, falou sobre a passagem pela televisão, a construção do apelido que se tornou sua marca, as dificuldades dos bastidores e os planos para o futuro.
Antes da “Xerife”, uma menina que gostava de falar
Era aquela aluna que se oferecia para apresentar os trabalhos, que não tinha receio de falar diante dos colegas e que encontrava facilidade em se expressar. Com o tempo, essa característica deixou de ser apenas uma marca pessoal e passou a funcionar como uma ferramenta profissional.
A primeira experiência de comunicação para um público maior veio pela internet. Inicialmente, porém, o conteúdo não tinha relação com polícia ou notícias. Leila compartilhava a rotina, exercícios físicos, treinos e aspectos de seu cotidiano.
Era um conteúdo de estilo de vida, produzido sem grandes pretensões. A audiência cresceu de maneira gradual e revelou algo que mais tarde seria fundamental em sua carreira: havia pessoas interessadas não apenas na informação, mas também na forma como ela se comunicava.
A televisão apareceu depois.
O convite que abriu a porta da televisão
A frase que ouviu funcionou como um empurrão: ela tinha “cara de TV”, embora ainda não trabalhasse na área.
Leila conta que carregava o sonho de atuar diante das câmeras, mas acreditava que a falta de formação em jornalismo poderia impedir a realização desse projeto. O argumento de que o mercado havia mudado e que vocação e capacidade também poderiam abrir caminhos acabou convencendo-a a tentar.
Surgiu então uma oportunidade na TV Norte, antiga TV Manaíra. Leila fez um teste para uma vaga de repórter e foi aprovada.
O início, naturalmente, trouxe insegurança. Mas havia também uma sensação de reconhecimento: estar diante da câmera parecia, de alguma maneira, ocupar um lugar que já lhe pertencia.
Depois, veio a passagem pela Arapuã. Foi nesse período que, segundo ela, ganhou maior liberdade para imprimir personalidade ao trabalho.
A orientação que recebeu foi simples: ser ela mesma.
Foi nesse ambiente que surgiu o nome que mudaria sua relação com o público.
Como nasceu a “Xerife do Povo”
Em determinado momento, o apresentador Bruce Duarte passou a chamá-la de “Xerife do Povo” no ar. O que poderia ser apenas uma brincadeira de televisão acabou rapidamente ultrapassando os limites do estúdio.
Nas ruas, as pessoas começaram a reproduzir o nome.
O apelido ganhou significado para Leila porque remetia, em sua interpretação, a uma figura de autoridade colocada a serviço da população. Mais do que uma identificação profissional, tornou-se uma espécie de compromisso.
Ela diz ter sentido inicialmente o peso da expressão. Afinal, “xerife” pressupõe autoridade, firmeza e responsabilidade.
A resposta veio do próprio público.
Pessoas passaram a abordá-la em espaços públicos, pedir fotografias e chamá-la pelo apelido. A identidade construída na televisão continuou existindo mesmo fora dela.
“Xerife do Povo” deixou de ser apenas um nome utilizado durante o programa e passou a representar uma persona reconhecida nas ruas.
Quando a televisão acabou, a rua continuou
Ela conta que recebeu a notícia de sua saída da Arapuã e precisou de alguns minutos para assimilar a mudança. O plano daquele dia era ir trabalhar normalmente. De repente, a rotina havia mudado.
A decisão seguinte foi continuar.
Em vez de voltar para casa, Leila foi para a rua. Com o próprio carro, o celular e as redes sociais, manteve a produção de conteúdo.
Segundo ela, naquele momento percebeu que não dependia necessariamente de uma emissora para continuar exercendo sua comunicação. A audiência construída nas redes sociais tornou-se uma espécie de ponte entre o trabalho que fazia na televisão e uma nova fase profissional.
Ela afirma que continua aberta a propostas de televisão e de outras plataformas, mas estabelece uma condição: qualquer novo projeto precisa ser compatível com a presença que construiu nas redes sociais.
A lógica, diz, precisa ser de equilíbrio — uma relação em que as duas partes ganhem.
O conflito entre televisão e redes
Nas redes sociais, Leila descreve a sensação de ter maior controle sobre o conteúdo e sobre a própria voz. Na televisão, a produção é coletiva: existem repórteres, produtores, editores, diretores e outros profissionais envolvidos até que uma reportagem chegue ao telespectador.
Essa estrutura, segundo ela, foi uma das primeiras descobertas dos bastidores.
Leila conta que também se surpreendeu com a competitividade existente no mercado televisivo. Esperava encontrar um ambiente em que todos ajudassem uns aos outros, mas percebeu que disputas e interesses fazem parte da dinâmica profissional.
A experiência, contudo, acabou sendo incorporada como aprendizado.
O peso de ser mulher na cobertura policial
Ela se considera uma das poucas mulheres com presença frequente nesse tipo de cobertura em sua realidade profissional e destaca o contato com policiais, advogados, moradores e comunidades.
Mais do que chegar a um local para registrar um fato, ela diz buscar compreender o contexto das comunidades onde trabalha.
A experiência, segundo Leila, também mudou sua relação com a notícia.
A central de polícia e as ruas passaram a fazer parte da rotina. Mas o contato constante com situações de vulnerabilidade mostrou que o jornalismo policial não se resume a prisões, ocorrências e números.
Por trás de cada registro existem pessoas.
Quando a notícia deixa de ser apenas notícia
Ela relata, por exemplo, uma incursão policial no Altiplano, em João Pessoa, quando se deparou com pessoas vivendo em condições precárias e insalubres.
O contraste chamou sua atenção. O bairro, conhecido por reunir áreas valorizadas da cidade, também apresentava, naquele cenário, uma realidade de extrema vulnerabilidade.
Ao retornar para sua casa, Leila conta que continuou pensando nas pessoas que havia encontrado.
Outra situação ocorreu durante uma cobertura em uma comunidade, quando uma operação policial terminou com prisões. Dentro de uma residência, ela encontrou crianças em um ambiente que descreveu como degradante, cercado por sujeira e condições insalubres.
A cena a fez chorar.
A experiência reforçou uma percepção que atravessa sua fala durante a entrevista: acompanhar diariamente situações de sofrimento não significa necessariamente se acostumar com elas.
Leila afirma que não quer perder essa sensibilidade.
Para ela, o desconforto diante da dor do outro pode ser justamente aquilo que impede que a notícia se transforme apenas em rotina.
A voz como instrumento de trabalho
Leila reconhece que não consegue solucionar todos os problemas apresentados pelas pessoas que a procuram. Não pode, por exemplo, resolver individualmente situações sociais com recursos próprios.
Mas possui uma ferramenta: a voz.
Ao levar uma reclamação para um espaço público, a demanda de um morador pode ganhar visibilidade. Um problema que antes estava restrito a uma rua ou comunidade passa a ser conhecido por mais pessoas.
É nessa possibilidade de amplificar demandas que ela encontra parte do sentido de seu trabalho.
A ideia também se aproxima de uma compreensão clássica do jornalismo: informar e dar visibilidade a questões de interesse público.
O público que atravessou a televisão e chegou às redes
Ela conta que pessoas mais velhas passaram a criar perfis nas redes sociais para continuar acompanhando seu trabalho.
Entre essas histórias está a de um seguidor chamado Silvio Matoso, citado durante a entrevista, que envia mensagens frequentes desejando força e dizendo: “Que Deus te abençoe, minha xerife”.
São relatos que ajudam a explicar por que a migração da televisão para as redes não representa, para Leila, simplesmente uma mudança tecnológica.
Existe uma audiência que atravessou a mudança de plataforma.
De um lado, uma geração que cresceu com o celular nas mãos. De outro, pessoas que precisaram aprender a utilizar uma nova ferramenta para continuar acompanhando alguém que já fazia parte de sua rotina diante da televisão.
O sonho que deixou de ser sonho
A experiência empresarial, segundo ela, também contribuiu para a formação profissional. Aprendeu a ouvir clientes, compreender necessidades e lidar com diferentes perfis de pessoas.
Há uma ironia produtiva nessa trajetória: a profissional que hoje fala diante das câmeras identifica na capacidade de ouvir uma das principais ferramentas da comunicação.
Uma reportagem de poucos minutos, lembra, pode esconder horas de trabalho.
Para chegar ao resultado final, é preciso ouvir, apurar, selecionar informações e transformar uma grande quantidade de dados em algo compreensível para o público.
A televisão mostrou esse processo por dentro. As redes sociais deram a ela a possibilidade de controlar uma parcela maior dele.
O preço da rotina
A rotina inclui longos períodos dentro do carro, deslocamentos constantes e espera por acontecimentos que podem surgir a qualquer momento. Para Leila, esse ritmo se tornou especialmente exigente diante das limitações físicas que relata enfrentar.
Ainda assim, ela considera que a televisão deixou um ensinamento central: insistir.
Cada negativa, diz, passou a funcionar como combustível para continuar tentando.
Foi essa disposição que apareceu justamente no momento mais delicado de sua trajetória recente: quando deixou a televisão.
Entre a independência e a responsabilidade
Ela quer preservar a independência que conquistou nas redes sociais e, ao mesmo tempo, manter aberta a possibilidade de retornar à televisão.
Mas há outro compromisso, ainda maior, presente em sua fala: não perder de vista o interesse público.
Leila afirma que deseja chegar ao futuro podendo olhar para sua trajetória e reconhecer que não se deixou conduzir por interesses externos à informação.
A declaração revela um dilema que acompanha parte do jornalismo contemporâneo: como conciliar independência, audiência, mercado, plataformas digitais e interesses econômicos sem perder a função pública da informação?
Não existe resposta simples.
No caso de Leila, a escolha anunciada é tentar manter a notícia no centro.
Um novo capítulo
A mudança de plataforma não apagou a personagem construída diante das câmeras. Ao contrário: ampliou a possibilidade de contato direto com a audiência e transformou o público em participante mais próximo de sua rotina profissional.
Agora, o desafio é sustentar essa relação.
Leila fala em honrar as pessoas que a acompanham, mas também em honrar a menina que, muitos anos atrás, sonhava em trabalhar diante das câmeras.
Há uma cena da entrevista que resume essa trajetória. Durante uma das primeiras coberturas, uma criança olhou para Leila e disse que sonhava em ser repórter.
Ela respondeu que, se aquele era seu sonho, deveria lutar por ele.
Naquele instante, Leila percebeu que não estava apenas cobrindo uma pauta. Estava diante de uma versão mais jovem de si mesma.
O sonho que um dia parecia distante agora existe no presente.
E, para ela, o próximo capítulo consiste justamente em descobrir até onde essa voz pode chegar — sem deixar para trás aquilo que, desde o começo, parece ter sido o motivo principal de sua escolha: falar, ouvir e ser ouvida.

