>No coração de João Pessoa, existe um bairro onde diferentes tempos da cidade parecem se encontrar. Entre casarões antigos, ruas que atravessaram gerações, áreas verdes e uma das fontes mais conhecidas da capital paraibana, o Tambiá preserva parte importante da memória de João Pessoa.
>Considerado um dos bairros que remontam aos primeiros períodos da formação da cidade, o Tambiá atravessou séculos de transformações urbanas e sociais. Sua história está relacionada ao período colonial, à ocupação de áreas próximas ao núcleo original da cidade e à presença de famílias de maior poder econômico que, ao longo do tempo, passaram a ocupar a região.
>Para entender essa trajetória, o Portal Ponto PB entrevistou a historiadora Loyvia Almeida, que explicou como o bairro se tornou um dos espaços que ajudam a compreender as diferentes fases da formação histórica da capital paraibana.
Tambiá e os primeiros séculos de João Pessoa
>A história do Tambiá se confunde com a própria expansão de João Pessoa. A cidade foi fundada em 1585, às margens do Rio Sanhauá, e seu crescimento inicial ocorreu a partir da região que hoje corresponde ao Centro Histórico.>Ao longo do período colonial, a ocupação urbana foi se expandindo para outras áreas. O Tambiá está entre os espaços que mantêm essa relação com os primeiros séculos da cidade.
>Segundo a historiadora Loyvia Almeida, entrevistada pelo Portal Ponto PB, o bairro carrega características que ajudam a compreender como João Pessoa foi se desenvolvendo para além de seu núcleo inicial.
>A permanência do Tambiá ao longo dos séculos faz com que o bairro seja, atualmente, uma espécie de registro vivo de diferentes momentos da capital.
O bairro que virou endereço da elite
>Uma das marcas da história do Tambiá está relacionada à ocupação da área por famílias pertencentes às camadas mais abastadas da sociedade pessoense.>Com o desenvolvimento da cidade, o bairro passou a receber residências de famílias de maior poder econômico. Essa presença deixou marcas na paisagem urbana e arquitetônica que ainda podem ser percebidas atualmente.
>Parte dos antigos imóveis existentes na região possui importância histórica e arquitetônica e alguns são protegidos pelo patrimônio cultural.
>Os casarões ajudam a contar uma história que vai além de seus moradores. Eles também revelam como a cidade se organizava socialmente e como determinados espaços se transformaram em áreas valorizadas pela elite local.
>Para Loyvia Almeida, essa arquitetura é uma das evidências de que o Tambiá não pode ser observado apenas como um bairro contemporâneo. As construções preservadas são vestígios de diferentes períodos da história de João Pessoa.
Uma fonte que atravessa a história
>Mas a memória do Tambiá não está apenas nas paredes dos casarões.>Em meio à área verde do bairro está um dos espaços mais conhecidos da capital: o Parque Zoobotânico Arruda Câmara, popularmente chamado de Bica.
>A área abriga a Fonte de Tambiá, cuja história é anterior à criação do parque e está associada a uma antiga tradição indígena.
>O Parque Arruda Câmara foi inaugurado em 1922 e, atualmente, ocupa uma área de aproximadamente 26 hectares, reunindo elementos de natureza, lazer, educação ambiental e memória da cidade. A própria Prefeitura de João Pessoa destaca a fonte como uma das referências históricas que deram origem ao nome popular “Bica”.
>É justamente nesse ponto que a história documentada do bairro encontra uma das narrativas mais antigas transmitidas pela tradição popular.
A lenda indígena de Tambiá e Aipré
>Uma antiga lenda indígena está associada à origem do nome Tambiá e à fonte localizada no atual parque.>A narrativa conta a história de Tambiá, um guerreiro indígena que teria sido capturado após um conflito entre grupos rivais.
>Ferido, ele teria sido levado para a aldeia inimiga. Lá, teria conhecido Aipré, filha do cacique, que, segundo a lenda, teria sido destinada a ele como sua “esposa da morte”.
>A narrativa, porém, toma outro rumo.
>Aipré teria se apaixonado pelo guerreiro. Tambiá, entretanto, não teria sobrevivido aos ferimentos.
>Segundo a tradição, o sofrimento de Aipré teria sido tão intenso que suas lágrimas deram origem à nascente que passou a ser conhecida como Fonte de Tambiá.
>A história é transmitida como lenda indígena, e não como um registro histórico comprovado. Ainda assim, a narrativa se incorporou à memória cultural da cidade e permanece relacionada à identidade do bairro.
>O número de cinquenta luas aparece em versões da lenda como o período durante o qual Aipré teria chorado pela morte de Tambiá.
A Bica antes do parque
>Muito antes de o local se tornar um parque zoobotânico, a fonte já fazia parte da história da cidade.>A nascente teve importância para o abastecimento de água de João Pessoa em diferentes momentos, especialmente quando a infraestrutura urbana ainda era bastante limitada.
>A relação entre a fonte e a ocupação da região ajuda a explicar por que a água se tornou um elemento tão presente na memória do Tambiá.
>Hoje, quem visita o Parque Arruda Câmara encontra uma área de lazer e preservação ambiental. Mas, por trás da vegetação e dos espaços destinados ao público, existe uma história que remonta aos primeiros séculos da capital.
O Tambiá que permanece
>O bairro mudou. João Pessoa mudou. As formas de ocupação urbana também se transformaram.>Mas parte da memória permanece.
>Ela está nos casarões, nas fachadas antigas, nas ruas, na área verde e na própria Fonte de Tambiá.
>Para a historiadora Loyvia Almeida, o bairro representa uma das camadas da história de João Pessoa que ainda podem ser percebidas no cotidiano da cidade.
>A presença desses elementos faz do Tambiá um lugar onde passado e presente convivem de maneira particular.
>Mais de quatro séculos depois da fundação de João Pessoa, o bairro continua testemunhando as transformações da capital.
>E talvez seja justamente essa permanência que faça do Tambiá um dos lugares mais importantes para entender que a história de uma cidade não está apenas nos livros.
>Ela também pode estar em uma casa antiga, em uma rua, em uma árvore ou no caminho da água que continua correndo.
