Paraíba
Marcélia Cartaxo: A força do Sertão que imortalizou Macabéa e deu alma a Pacarrete
Atualizada em 09/03/2026 às 16:03 Por Lucas Santos
O grande ponto de inflexão de sua vida ocorreu quando, aos 22 anos, ela foi escolhida pela cineasta Suzana Amaral para dar vida a Macabéa, a protagonista de A Hora da Estrela, adaptação da obra-prima de Clarice Lispector. Aquele não foi apenas um papel de destaque; foi o momento em que Marcélia se apresentou ao mundo e mergulhou no universo de uma datilógrafa alagoana perdida no labirinto de São Paulo. A importância de Macabéa na cultura brasileira é imensa, pois ela personifica a "estrangeira" dentro do seu próprio país: a mulher nordestina, pobre, semianalfabeta e socialmente nula. Marcélia, com sua economia de gestos, transformou a fragilidade de Macabéa em uma forma de resistência silenciosa, forçando o público a encarar de frente a desumanização cotidiana. A relação da atriz com a personagem transcendeu o set; ao conquistar o Urso de Prata no Festival de Berlim em 1986, ela provou que uma mulher vinda do sertão possuía a complexidade necessária para traduzir a angústia de ser invisível, emprestando a Clarice Lispector a carne e o sangue que fizeram daquela dor algo universal.
No entanto, Marcélia não se deixou aprisionar pela imagem da "eterna Macabéa". Décadas depois, ela reafirmou sua genialidade ao protagonizar Pacarrete, de Allan Deberton, em uma interpretação tão visceral que se tornou um segundo marco definitivo em sua carreira. Se em Macabéa ela era o silêncio e o desamparo, em Pacarrete ela encarna a explosão, a excentricidade e a amargura de uma bailarina clássica que insiste em manter viva a sua arte em uma Russas, no Ceará, que a rejeita. Pacarrete é uma personagem que transborda a dor do delírio e a revolta de quem não encontra lugar para o seu talento em uma sociedade provinciana e hostil. Marcélia, novamente, habita as contradições do ser humano: se Macabéa era o grito contido, Pacarrete é o grito ensurdecedor, e em ambas as atuações a atriz demonstra a sua capacidade rara de ser, ao mesmo tempo, frágil e monumental.
Essa conexão com personagens que buscam o seu lugar e enfrentam a indiferença é o eco de toda a trajetória de Marcélia enquanto mulher nordestina. Assim como suas personagens, ela enfrentou o choque cultural e a marginalização, usando a arte como forma de afirmação. A diferença crucial é que, enquanto Macabéa foi engolida pela estrutura e Pacarrete foi isolada pelo sistema, Marcélia as transformou em luz. Ao longo de décadas, ela construiu uma carreira marcada pela integridade e pela recusa em se curvar aos padrões superficiais do mercado. Marcélia tornou-se um exemplo de mulher e de artista por sua capacidade de manter-se fiel a si mesma, escolhendo caminhos que privilegiassem a ética, a política e a denúncia social.
Hoje, Marcélia Cartaxo é respeitada não apenas por seus prêmios ou pela técnica que domina, mas porque ela personifica a ideia de que ser uma mulher sertaneja não é um ponto de partida para o silêncio, mas o combustível para uma voz que jamais poderá ser calada. Ela utiliza o seu talento como uma ferramenta de cidadania e um espelho da resiliência de quem não aceita ser definido pelas limitações impostas pela origem. Ao eternizar Macabéa e dar vida à inesquecível Pacarrete, a atriz não apenas prestou homenagem a figuras marginalizadas, mas garantiu que suas histórias fossem respeitadas e sentidas, provando, em última análise, que a grandeza não reside na fama, mas na coragem de ser autêntica e na persistência de lutar, através da arte, pela dignidade daqueles que a história tentou esquecer.
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