A presença de Flávio Bolsonaro na convenção do Partido Liberal (PL), realizada neste domingo (2), em João Pessoa, apresentou diferenças visuais e musicais em relação ao evento anterior do grupo na Paraíba, realizado neste ano com a participação do senador e pré-candidato à Presidência da República. Desta vez, elementos associados à cultura nordestina ganharam espaço na comunicação do ato, incluindo o uso de chapéu de couro e vestimentas inspiradas no vaqueiro e no sertão.
A mudança pode ser percebida tanto na estética utilizada por Flávio Bolsonaro e pelo candidato ao Senado Marcelo Queiroga quanto na trilha sonora e nos jingles apresentados durante a convenção que oficializou Efraim Filho como candidato ao Governo da Paraíba e Nayana Pontes como candidata a vice-governadora.
No primeiro evento, a comunicação chamou atenção pela utilização de um funk como jingle e pela participação de Flávio em uma dança que ganhou repercussão nas redes sociais. A performance chegou a ser associada, nas redes e em comentários políticos, ao estilo de aparições públicas do presidente argentino Javier Milei.
A estratégia das chamadas "dancinhas" de Flávio já vinha sendo utilizada nacionalmente em sua pré-campanha. Em março, reportagem da Folha de S.Paulo registrou a adoção do chamado "Funk do 01" e apontou que especialistas em marketing político avaliavam o recurso como uma tentativa de criar identificação com determinados públicos.
Em julho, Flávio voltou a aparecer dançando ao som de funk em um evento do PL no Rio de Janeiro, após críticas recebidas pelas performances anteriores.
Da dança aos símbolos do sertão
Na convenção deste domingo, a imagem apresentada foi diferente.
Em um dos registros do evento, Flávio Bolsonaro aparece ao lado de Marcelo Queiroga utilizando elementos visuais associados ao sertão nordestino, especialmente o chapéu de couro.
O recurso também apareceu acompanhado por uma mudança na identidade musical do evento. Os jingles utilizados na convenção e nas apresentações relacionadas a Efraim Filho, Marcelo Queiroga e Flávio Bolsonaro passaram a incorporar referências mais próximas da sonoridade e do imaginário regional.
Não é possível afirmar, apenas a partir da mudança estética, qual foi a motivação interna da equipe de campanha. O que se observa é que a comunicação apresentada na Paraíba passou a utilizar referências diretamente reconhecíveis pelo público nordestino.
A escolha ocorre em uma região que tem peso relevante nas eleições presidenciais e que historicamente possui uma identidade cultural própria, com manifestações musicais, religiosas, visuais e simbólicas bastante marcadas.
Uma comunicação mais próxima do Nordeste?
A diferença entre os dois momentos chama atenção justamente pela mudança dos códigos utilizados para apresentar o candidato.
De um lado, o primeiro evento apostou em funk, dança e linguagem típica das redes sociais. De outro, a convenção do PL incorporou chapéu de couro, referências sertanejas e elementos musicais associados ao Nordeste.
A leitura possível é de uma comunicação que busca dialogar com referências culturais locais. Em vez de apresentar apenas uma estética nacional de campanha, o segundo evento utiliza símbolos que remetem diretamente à identidade regional.
Isso não significa, por si só, que tenha havido uma mudança na posição política do candidato. A diferença está principalmente na forma de apresentação e nos elementos utilizados para estabelecer comunicação com o público.
A estratégia de aproximar a imagem de um político de símbolos culturais regionais não é inédita na política brasileira. A própria construção da imagem pública de artistas e personagens nacionais já utilizou esse caminho para associar identidade, território e pertencimento.
No caso do Nordeste, poucos símbolos são tão imediatamente reconhecíveis quanto o chapéu de couro e o traje do vaqueiro.
Afinal, que roupa é essa?
E aqui existe uma curiosidade importante: embora a imagem seja frequentemente chamada simplesmente de "roupa de cangaceiro", a indumentária de couro tem uma história que vai além do cangaço.
O conjunto tradicional do vaqueiro nordestino é formado por peças como gibão, guarda-peito ou peitoral, perneiras, luvas e chapéu, geralmente confeccionadas em couro. A Fundação Joaquim Nabuco explica que essa vestimenta tinha uma função prática: proteger o vaqueiro dos galhos e espinhos da caatinga durante o trabalho com o gado.
O gibão é a peça semelhante a um casaco de couro usada sobre o tronco. Já as perneiras protegem as pernas. O conjunto pode incluir ainda o guarda-peito ou peitoral, luvas e botas ou alpercatas.
O chapéu também possui uma relação direta com a atividade do vaqueiro. O Museu de Folclore Edison Carneiro mantém em seu acervo exemplares de chapéu de vaqueiro de couro, assim como gibões e perneiras provenientes do Nordeste.
Por que o chapéu de couro virou símbolo do Nordeste?
A associação acontece porque o couro esteve diretamente ligado à vida sertaneja e ao trabalho do vaqueiro. Na caatinga, a proteção contra espinhos, galhos e condições do ambiente tornou esse tipo de vestimenta uma ferramenta de trabalho.
Com o tempo, a imagem do vaqueiro e a estética do cangaço passaram a se cruzar no imaginário popular. O chapéu de couro de aba levantada, especialmente associado à imagem de Lampião e dos cangaceiros, tornou-se uma das representações visuais mais conhecidas do sertão.
A Fundação Joaquim Nabuco observa que o chapéu, o gibão e outras peças de couro são características da figura do vaqueiro nordestino, enquanto também reconhece a presença marcante da estética utilizada por cangaceiros como Lampião e Maria Bonita no imaginário cultural da região.
A associação foi reforçada ao longo do século XX por manifestações da cultura popular. Luiz Gonzaga, por exemplo, incorporou à própria imagem pública elementos do vaqueiro e do cangaceiro, incluindo o chapéu de couro e o gibão, ajudando a consolidar essa estética como representação nacional de sua origem nordestina.
Por isso, quando um político aparece em um palanque usando chapéu de couro, gibão ou outras peças associadas ao sertão, a referência visual vai além da roupa. Ela remete a uma cadeia de símbolos que envolve vaqueiro, caatinga, sertão, cangaço, música nordestina e identidade regional.
Na convenção do PL em João Pessoa, essa foi uma das mudanças mais perceptíveis na apresentação de Flávio Bolsonaro em comparação com o primeiro momento político do ano na Paraíba: menos dança e funk como elemento central e mais referências visuais e musicais diretamente associadas ao Nordeste.
