Em setembro, fachadas ganham luz amarela. Laços aparecem em uniformes. Empresas distribuem mensagens sobre a importância da vida. Perfis nas redes sociais adotam a cor da campanha. Palestras, cartões e frases motivacionais entram no calendário.
Então chega outubro.
As luzes mudam de cor, as postagens dão lugar a outro tema e a vida continua para quem atravessa ansiedade, esgotamento, luto, dificuldades financeiras, dependência de apostas, conflitos familiares, solidão ou qualquer outra forma de sofrimento emocional.
É justamente nesse intervalo entre a campanha e a vida real que a psicóloga **Jéssica Raquel** enxerga uma das principais contradições do Setembro Amarelo.
“A saúde mental tem que ser lembrada todos os dias, todos os meses, o ano todo”, afirma.
A frase parece simples, mas toca no centro de um debate cada vez mais atual: a popularização do discurso sobre saúde mental foi acompanhada, em muitos ambientes, de uma simplificação do próprio sofrimento.
Se de um lado nunca se falou tanto sobre ansiedade, depressão, terapia, gatilhos, burnout e autocuidado, de outro o vocabulário da psicologia passou a disputar espaço com frases prontas, diagnósticos feitos em vídeos de poucos segundos, campanhas corporativas sem continuidade e a ideia de que estar mentalmente saudável significa estar feliz, motivado e produtivo o tempo inteiro.
Não significa.
A Organização Mundial da Saúde estima que mais de **720 mil pessoas morram por suicídio a cada ano no mundo**. Em 2021, dado global mais recente consolidado pela organização, o suicídio foi a terceira principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos. A própria OMS ressalta que não existe uma causa única: fatores sociais, econômicos, culturais, psicológicos, biológicos e ambientais podem se combinar ao longo da vida.
É por isso que a campanha de prevenção não pode ser reduzida a um slogan.
Uma campanha que precisa sobreviver a setembro
A origem da fita amarela remonta aos Estados Unidos, nos anos 1990. Após a morte por suicídio do adolescente Mike Emme, conhecido por restaurar um Mustang amarelo, familiares e amigos distribuíram cartões acompanhados de fitas da mesma cor incentivando jovens em sofrimento a procurar ajuda. A simbologia atravessou fronteiras e passou a ser associada à prevenção.
No Brasil, o Setembro Amarelo ganhou projeção nacional a partir da década passada. O dia **10 de setembro** é reconhecido internacionalmente como Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. Para 2024 a 2026, a OMS adotou como eixo mundial a proposta de **“mudar a narrativa sobre o suicídio”**, estimulando conversas abertas, redução do estigma e, sobretudo, mudanças estruturais.
A expressão “mudança estrutural” é importante.
Porque prevenção não se resume a convencer alguém em sofrimento a pensar positivamente. Envolve acesso a serviços de saúde, condições adequadas de trabalho, vínculos sociais, proteção de crianças e adolescentes, combate ao estigma, redução de riscos e capacidade de perceber que alguma coisa mudou.
Jéssica chama atenção justamente para essas mudanças.
Nem sempre o sofrimento corresponde à imagem popular de alguém constantemente triste, chorando ou isolado.
“Tem muita gente que sorri, faz piada, está ali do seu lado e você não imagina o sofrimento que aquela pessoa está passando”, diz.
Por isso, tentar estabelecer um perfil único pode produzir o efeito contrário ao desejado.
Mais importante do que procurar uma caricatura da tristeza é perceber alterações persistentes no comportamento de alguém que conhecemos: uma pessoa que deixa de participar de atividades que faziam parte de sua rotina, passa a se afastar, apresenta alterações importantes de sono, perde interesse pelo trabalho ou pelas relações, demonstra desesperança ou parece não conseguir mais administrar tarefas que anteriormente realizava.
Nenhum desses comportamentos, isoladamente, permite fazer diagnóstico.
Eles podem, no entanto, justificar uma aproximação.
E essa aproximação começa menos pelo conselho e mais pela escuta.
O problema de querer consertar imediatamente a dor do outro
Há uma espécie de reflexo social diante do sofrimento: alguém diz que está mal e quem escuta tenta imediatamente provar que existem motivos para que aquela pessoa fique bem.
“Você tem saúde.”
“Pense positivo.”
“Tem gente passando por coisa pior.”
“Anime-se.”
“A vida é linda.”
Nem sempre funciona.
Às vezes, piora.
“A gente não precisa estar feliz 100% do tempo”, diz Jéssica.
Para a psicóloga, transformar felicidade em obrigação pode criar uma segunda camada de sofrimento. A pessoa não apenas está triste, cansada ou angustiada: passa também a considerar que deveria sentir algo diferente.
É o paradoxo da chamada positividade excessiva.
Tristeza, frustração, raiva, medo e luto não são falhas no sistema emocional humano. São emoções.
A questão clínica aparece quando intensidade, duração e consequências começam a comprometer significativamente a vida da pessoa — algo que exige avaliação individual e não cabe em um post de rede social.
Ao longo da entrevista, Jéssica recorre a uma expressão para explicar a importância de reconhecer emoções desconfortáveis: em determinadas situações, a raiva, por exemplo, pode indicar que um limite foi atravessado.
É nesse ponto que saúde mental deixa de ser apenas o debate sobre doenças e passa a envolver a capacidade de estabelecer limites.
Dizer não é um deles.
O peso de dizer sim para tudo
Dizer “não” parece uma ação elementar até chegar o momento de praticá-la.
No emprego, aceitar mais uma demanda pode parecer mais simples do que desagradar o chefe. Dentro da família, assumir mais uma responsabilidade pode evitar um conflito. Entre amigos, comparecer a um compromisso sem vontade pode parecer preferível a ter que explicar uma ausência.
Um “sim” não desejado dificilmente representa um problema isolado.
A repetição é que pode construir uma rotina de sobrecarga.
“Você começa a se sobrecarregar em vários âmbitos da vida”, afirma Jéssica.
Para algumas pessoas, o limite só se torna visível depois de ser ultrapassado.
É a funcionária que percebe tarde demais que assumiu permanentemente tarefas que não eram suas. A pessoa para quem todos telefonam quando alguma coisa dá errado. A mãe que se transformou na administradora invisível de cada detalhe doméstico. O profissional que responde mensagens a qualquer hora porque acostumou os demais à própria disponibilidade.
A dificuldade de dizer não pode ter histórias e origens diferentes. Não existe uma explicação universal.
Mas reconhecer o próprio limite, diz a psicóloga, faz parte do processo de autoconhecimento.
E autoconhecimento, ela ressalta, tampouco funciona como escudo contra todas as dores.
“O autoconhecimento não evita o sofrimento. O sofrimento vai ser inevitável em algum momento da nossa vida.”
Conhecer-se ajuda, segundo ela, a compreender desejos, padrões, limites e escolhas.
Não elimina a condição humana.
A romantização da mulher que “dá conta de tudo”
Poucas imagens foram tão celebradas nas últimas décadas quanto a da pessoa multitarefa.
No caso das mulheres, a celebração pode esconder uma armadilha adicional.
Trabalho, filhos, estudos, organização da casa, cuidados com familiares, vida afetiva, autocuidado e administração da rotina muitas vezes aparecem reunidos sob um elogio aparentemente positivo: “guerreira”.
Para Jéssica, que concentra parte do trabalho clínico no atendimento de mulheres, existe uma linha delicada entre reconhecer capacidade e romantizar sobrecarga.
“Romantiza-se demais a mulher fazendo tudo”, afirma.
A cobrança também pode partir da própria pessoa.
Depois de cumprir nove de dez tarefas, a atenção fica concentrada na única que não foi realizada.
“Não consegue olhar para o copo meio cheio, olha para o que faltou”, resume.
A discussão não significa afirmar que toda mulher viva a mesma rotina nem que homens não experimentem sobrecarga. O ponto é observar como expectativas sociais podem distribuir de maneira desigual responsabilidades domésticas, emocionais e familiares.
Do outro lado, a própria construção tradicional da masculinidade pode produzir outra barreira.
Homens educados sob ideias como “homem não chora”, “tem que aguentar” ou “precisa resolver sozinho” podem encontrar dificuldade adicional para reconhecer vulnerabilidade e pedir ajuda.
Problemas financeiros aparecem nessa equação de maneira particularmente sensível.
Dívidas não atingem apenas o orçamento. Podem afetar sono, relações, autoestima, trabalho e percepção de futuro.
E, nos últimos anos, um novo elemento ganhou escala nesse cenário.
Então chega outubro.
As luzes mudam de cor, as postagens dão lugar a outro tema e a vida continua para quem atravessa ansiedade, esgotamento, luto, dificuldades financeiras, dependência de apostas, conflitos familiares, solidão ou qualquer outra forma de sofrimento emocional.
É justamente nesse intervalo entre a campanha e a vida real que a psicóloga **Jéssica Raquel** enxerga uma das principais contradições do Setembro Amarelo.
“A saúde mental tem que ser lembrada todos os dias, todos os meses, o ano todo”, afirma.
A frase parece simples, mas toca no centro de um debate cada vez mais atual: a popularização do discurso sobre saúde mental foi acompanhada, em muitos ambientes, de uma simplificação do próprio sofrimento.
Se de um lado nunca se falou tanto sobre ansiedade, depressão, terapia, gatilhos, burnout e autocuidado, de outro o vocabulário da psicologia passou a disputar espaço com frases prontas, diagnósticos feitos em vídeos de poucos segundos, campanhas corporativas sem continuidade e a ideia de que estar mentalmente saudável significa estar feliz, motivado e produtivo o tempo inteiro.
Não significa.
A Organização Mundial da Saúde estima que mais de **720 mil pessoas morram por suicídio a cada ano no mundo**. Em 2021, dado global mais recente consolidado pela organização, o suicídio foi a terceira principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos. A própria OMS ressalta que não existe uma causa única: fatores sociais, econômicos, culturais, psicológicos, biológicos e ambientais podem se combinar ao longo da vida.
É por isso que a campanha de prevenção não pode ser reduzida a um slogan.
Uma campanha que precisa sobreviver a setembro
A origem da fita amarela remonta aos Estados Unidos, nos anos 1990. Após a morte por suicídio do adolescente Mike Emme, conhecido por restaurar um Mustang amarelo, familiares e amigos distribuíram cartões acompanhados de fitas da mesma cor incentivando jovens em sofrimento a procurar ajuda. A simbologia atravessou fronteiras e passou a ser associada à prevenção.
No Brasil, o Setembro Amarelo ganhou projeção nacional a partir da década passada. O dia **10 de setembro** é reconhecido internacionalmente como Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. Para 2024 a 2026, a OMS adotou como eixo mundial a proposta de **“mudar a narrativa sobre o suicídio”**, estimulando conversas abertas, redução do estigma e, sobretudo, mudanças estruturais.
A expressão “mudança estrutural” é importante.
Porque prevenção não se resume a convencer alguém em sofrimento a pensar positivamente. Envolve acesso a serviços de saúde, condições adequadas de trabalho, vínculos sociais, proteção de crianças e adolescentes, combate ao estigma, redução de riscos e capacidade de perceber que alguma coisa mudou.
Jéssica chama atenção justamente para essas mudanças.
Nem sempre o sofrimento corresponde à imagem popular de alguém constantemente triste, chorando ou isolado.
“Tem muita gente que sorri, faz piada, está ali do seu lado e você não imagina o sofrimento que aquela pessoa está passando”, diz.
Por isso, tentar estabelecer um perfil único pode produzir o efeito contrário ao desejado.
Mais importante do que procurar uma caricatura da tristeza é perceber alterações persistentes no comportamento de alguém que conhecemos: uma pessoa que deixa de participar de atividades que faziam parte de sua rotina, passa a se afastar, apresenta alterações importantes de sono, perde interesse pelo trabalho ou pelas relações, demonstra desesperança ou parece não conseguir mais administrar tarefas que anteriormente realizava.
Nenhum desses comportamentos, isoladamente, permite fazer diagnóstico.
Eles podem, no entanto, justificar uma aproximação.
E essa aproximação começa menos pelo conselho e mais pela escuta.
O problema de querer consertar imediatamente a dor do outro
Há uma espécie de reflexo social diante do sofrimento: alguém diz que está mal e quem escuta tenta imediatamente provar que existem motivos para que aquela pessoa fique bem.
“Você tem saúde.”
“Pense positivo.”
“Tem gente passando por coisa pior.”
“Anime-se.”
“A vida é linda.”
Nem sempre funciona.
Às vezes, piora.
“A gente não precisa estar feliz 100% do tempo”, diz Jéssica.
Para a psicóloga, transformar felicidade em obrigação pode criar uma segunda camada de sofrimento. A pessoa não apenas está triste, cansada ou angustiada: passa também a considerar que deveria sentir algo diferente.
É o paradoxo da chamada positividade excessiva.
Tristeza, frustração, raiva, medo e luto não são falhas no sistema emocional humano. São emoções.
A questão clínica aparece quando intensidade, duração e consequências começam a comprometer significativamente a vida da pessoa — algo que exige avaliação individual e não cabe em um post de rede social.
Ao longo da entrevista, Jéssica recorre a uma expressão para explicar a importância de reconhecer emoções desconfortáveis: em determinadas situações, a raiva, por exemplo, pode indicar que um limite foi atravessado.
É nesse ponto que saúde mental deixa de ser apenas o debate sobre doenças e passa a envolver a capacidade de estabelecer limites.
Dizer não é um deles.
O peso de dizer sim para tudo
Dizer “não” parece uma ação elementar até chegar o momento de praticá-la.
No emprego, aceitar mais uma demanda pode parecer mais simples do que desagradar o chefe. Dentro da família, assumir mais uma responsabilidade pode evitar um conflito. Entre amigos, comparecer a um compromisso sem vontade pode parecer preferível a ter que explicar uma ausência.
Um “sim” não desejado dificilmente representa um problema isolado.
A repetição é que pode construir uma rotina de sobrecarga.
“Você começa a se sobrecarregar em vários âmbitos da vida”, afirma Jéssica.
Para algumas pessoas, o limite só se torna visível depois de ser ultrapassado.
É a funcionária que percebe tarde demais que assumiu permanentemente tarefas que não eram suas. A pessoa para quem todos telefonam quando alguma coisa dá errado. A mãe que se transformou na administradora invisível de cada detalhe doméstico. O profissional que responde mensagens a qualquer hora porque acostumou os demais à própria disponibilidade.
A dificuldade de dizer não pode ter histórias e origens diferentes. Não existe uma explicação universal.
Mas reconhecer o próprio limite, diz a psicóloga, faz parte do processo de autoconhecimento.
E autoconhecimento, ela ressalta, tampouco funciona como escudo contra todas as dores.
“O autoconhecimento não evita o sofrimento. O sofrimento vai ser inevitável em algum momento da nossa vida.”
Conhecer-se ajuda, segundo ela, a compreender desejos, padrões, limites e escolhas.
Não elimina a condição humana.
A romantização da mulher que “dá conta de tudo”
Poucas imagens foram tão celebradas nas últimas décadas quanto a da pessoa multitarefa.
No caso das mulheres, a celebração pode esconder uma armadilha adicional.
Trabalho, filhos, estudos, organização da casa, cuidados com familiares, vida afetiva, autocuidado e administração da rotina muitas vezes aparecem reunidos sob um elogio aparentemente positivo: “guerreira”.
Para Jéssica, que concentra parte do trabalho clínico no atendimento de mulheres, existe uma linha delicada entre reconhecer capacidade e romantizar sobrecarga.
“Romantiza-se demais a mulher fazendo tudo”, afirma.
A cobrança também pode partir da própria pessoa.
Depois de cumprir nove de dez tarefas, a atenção fica concentrada na única que não foi realizada.
“Não consegue olhar para o copo meio cheio, olha para o que faltou”, resume.
A discussão não significa afirmar que toda mulher viva a mesma rotina nem que homens não experimentem sobrecarga. O ponto é observar como expectativas sociais podem distribuir de maneira desigual responsabilidades domésticas, emocionais e familiares.
Do outro lado, a própria construção tradicional da masculinidade pode produzir outra barreira.
Homens educados sob ideias como “homem não chora”, “tem que aguentar” ou “precisa resolver sozinho” podem encontrar dificuldade adicional para reconhecer vulnerabilidade e pedir ajuda.
Problemas financeiros aparecem nessa equação de maneira particularmente sensível.
Dívidas não atingem apenas o orçamento. Podem afetar sono, relações, autoestima, trabalho e percepção de futuro.
E, nos últimos anos, um novo elemento ganhou escala nesse cenário.
Quando a promessa de ganhar vira fonte de sofrimento
As apostas esportivas e jogos online transformaram o telefone celular em uma plataforma permanente de aposta.
Não é necessário deslocamento, horário específico ou sequer interromper a rotina. O jogo está disponível no bolso.
A lógica descrita por Jéssica começa na recompensa.
Uma vitória produz prazer. Depois vem outra aposta. Quando surge a perda, pode aparecer a tentativa de recuperar rapidamente o dinheiro perdido. E, para uma parcela das pessoas, o comportamento deixa progressivamente o terreno do entretenimento.
“Quando você pensa que não está envolvido, já está imerso”, diz a psicóloga.
O Ministério da Saúde intensificou esse alerta em 2026. O governo federal passou a tratar explicitamente os danos das apostas online como questão de saúde pública e lançou uma campanha nacional sobre o tema. O transtorno do jogo é reconhecido internacionalmente como transtorno de comportamento aditivo, e sinais de alerta incluem dificuldade de reduzir ou interromper as apostas, gasto superior ao planejado e impactos no sono, humor, relações, trabalho e orçamento.
Há ainda um componente social importante: a aposta pode ser apresentada, equivocadamente, como caminho para resolver dificuldades financeiras.
A lógica é especialmente perigosa quando perder dinheiro faz com que a pessoa aposte novamente na tentativa de recuperar o prejuízo.
Em agosto deste ano, o SUS passou a disponibilizar capacidade para até **100 mil teleatendimentos mensais** voltados a pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas, incluindo suporte para familiares. O acesso pode começar pelo Meu SUS Digital. Existe também uma plataforma federal de autoexclusão que permite solicitar o bloqueio das contas em casas de apostas autorizadas.
Para Jéssica, entretanto, tecnologia e tratamento precisam vir acompanhados de algo que nenhum aplicativo substitui completamente: uma rede de apoio.
“Rede de apoio não é apenas dizer: ‘que bom que você está aqui’. É enfrentar a situação junto.”
O amarelo na fachada e a saúde mental dentro da empresa
É no ambiente profissional que a contradição entre discurso e prática se torna especialmente visível.
Uma empresa pode publicar uma mensagem sobre saúde mental pela manhã e manter, à tarde, uma cultura baseada em jornadas excessivas, metas incompatíveis, humilhação, falta de autonomia ou disponibilidade permanente.
Pode entregar um brinde.
Pode realizar uma palestra.
Pode iluminar a fachada.
Nada disso substitui organização saudável do trabalho.
Jéssica chama atenção para campanhas feitas sem orientação técnica, nas quais frases ou objetos são escolhidos porque parecem combinar com a estética da campanha, sem reflexão sobre como podem ser recebidos por uma pessoa em sofrimento.
“Frase bonita por frase bonita, todo mundo fala”, observa.
O contexto jurídico brasileiro tornou esse debate ainda mais concreto em 2026.
A nova redação da **Norma Regulamentadora nº 1, a NR-1**, entrou em vigor em 26 de maio e incluiu expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento de riscos ocupacionais. Isso leva a discussão para elementos da própria organização laboral — e não apenas para a capacidade individual do trabalhador de suportá-los.
A aplicação punitiva dessa parte da norma, porém, vive atualmente uma situação jurídica particular. Em agosto, o Supremo Tribunal Federal confirmou decisão que suspendeu temporariamente multas e outras sanções relacionadas a esses dispositivos enquanto ocorre uma tentativa de conciliação para esclarecer critérios de fiscalização. As diretrizes gerais permanecem válidas, segundo o próprio STF.
A discussão, portanto, ultrapassou o terreno da campanha institucional.
Saúde mental no trabalho passou a significar também identificar de que maneira o trabalho é organizado.
Para Jéssica, algumas respostas podem ser mais simples do que parecem: permitir que um trabalhador consiga comparecer a uma consulta ou sessão de terapia, observar sobrecargas, estabelecer pausas adequadas, criar espaços reais de descanso e tratar funcionários como indivíduos — não apenas como unidades de produtividade.
Isso exige continuidade.
Especialmente depois que setembro termina.
Quando o corpo parece dizer que alguma coisa não vai bem
O sofrimento emocional também pode aparecer acompanhado por manifestações físicas.
Alterações de sono, tensão, desconfortos gastrointestinais e mudanças percebidas no próprio corpo podem ocorrer em contextos de estresse, por exemplo.
Mas existe uma cautela importante.
Sintoma físico não deve ser automaticamente classificado como “psicológico”.
Jéssica relata situações em que pacientes percorrem investigações médicas até perceberem que fatores emocionais podem participar do quadro. Isso não significa dispensar a avaliação clínica: manifestações físicas precisam ser adequadamente investigadas justamente porque podem ter inúmeras causas.
A mente e o corpo não funcionam em compartimentos independentes.
Por isso, cuidado em saúde mental e cuidado com a saúde física frequentemente precisam conversar.
Crianças e adolescentes: a rotina pode ser uma pista
Se reconhecer o próprio sofrimento é difícil para adultos, a tarefa ganha outra dimensão durante a infância e a adolescência.
A adolescência, lembra Jéssica, já constitui por si só uma fase de transformações profundas.
Identidade, pertencimento, corpo, relações, sexualidade, expectativas e autonomia estão em construção.
Isso torna inadequado tratar toda mudança comportamental como sintoma.
Ao mesmo tempo, mudanças persistentes merecem atenção.
Para os pais, Jéssica sugere observar sobretudo aquilo que conhecem melhor: **a rotina do próprio filho**.
Se um adolescente que habitualmente participava das refeições deixa de aparecer; se os horários de sono mudam radicalmente; se abandona atividades das quais gostava; se o rendimento ou a sociabilidade se alteram de forma expressiva, a pergunta não precisa começar com uma acusação.
Pode começar com presença.
A internet acrescentou uma camada à questão.
O quarto deixou há muito tempo de ser sinônimo de isolamento do mundo exterior. Uma criança aparentemente sozinha em casa pode estar simultaneamente conectada a dezenas ou centenas de pessoas.
Há benefícios evidentes nessa conectividade, mas também riscos.
Além de exposição a criminosos e contatos inadequados, existe o universo da comparação permanente.
Se adultos já se sentem pressionados pela sucessão de viagens, corpos, casas, relacionamentos e carreiras aparentemente perfeitos exibidos nas redes, crianças e adolescentes precisam interpretar esse conteúdo enquanto ainda constroem referências sobre si próprios.
Por isso, acompanhamento parental não significa apenas controlar tempo de tela.
Significa conhecer a vida digital dos filhos, conversar sobre o que encontram nela e construir confiança suficiente para que um problema possa ser relatado.
O diagnóstico de 30 segundos
A popularização do debate sobre saúde mental trouxe ganhos importantes.
Mais pessoas reconhecem a possibilidade de procurar um psicólogo. Palavras antes restritas aos consultórios entraram nas conversas comuns. O estigma não desapareceu, mas existe hoje mais espaço para falar sobre terapia.
A mesma popularização criou distorções.
“Se você tiver cinco desses sinais, você tem TDAH.”
“Se faz essas quatro coisas, você é narcisista.”
“Isso é um gatilho.”
“Tenho TOC porque gosto das coisas organizadas.”
Conteúdos desse tipo se espalham porque oferecem respostas simples para experiências complexas.
Para Jéssica, o perigo começa quando listas genéricas passam a ser usadas como diagnóstico.
“Qualquer pessoa pode se identificar com vários itens. Isso não significa que tenha aquele transtorno.”
Alguém que já está angustiado pode passar de vídeo em vídeo tentando encontrar uma explicação definitiva para o que sente.
Um conteúdo aponta para um diagnóstico. O seguinte aponta para outro.
A busca pela resposta pode se transformar em nova fonte de ansiedade.
Diagnóstico em saúde mental depende de avaliação profissional, contexto, história, duração, intensidade dos sintomas e impacto funcional. Identificar-se com uma publicação pode ser motivo para buscar orientação — não uma confirmação de doença.
Em João Pessoa, centenas de notificações por ano
O debate ganha dimensão ainda mais concreta quando aproximado da realidade local.
No último boletim municipal consolidado localizado sobre o tema, publicado pela Vigilância Epidemiológica de João Pessoa em setembro de 2025, a Capital registrou **5.606 notificações de lesões autoprovocadas intencionalmente e 449 mortes por suicídio entre 2014 e 2024**.
Somente em 2024 foram mais de **680 notificações de violência autoprovocada e 48 óbitos**. Entre janeiro e julho de 2025, haviam sido contabilizadas mais de 630 notificações e 18 mortes. Os números podem sofrer atualizações nos sistemas oficiais.
O dado ajuda a dimensionar por que prevenção não pode se resumir a uma campanha anual.
Também mostra por que a resposta não pertence exclusivamente aos consultórios de psicologia ou psiquiatria.
Ela passa pela família.
Pela escola.
Pelo trabalho.
Pelos serviços públicos.
Pela maneira como a imprensa aborda o tema.
E pela capacidade de uma sociedade de produzir condições para que pedir ajuda seja possível antes de uma crise.
A porta de entrada pode estar no bairro
Um dos obstáculos recorrentes à terapia é financeiro.
Jéssica reconhece que atendimento particular não está ao alcance de todos e lembra a existência da rede pública.
No SUS, o cuidado em saúde mental faz parte da **Rede de Atenção Psicossocial, a RAPS**.
Em muitos casos, a busca pode começar na própria Unidade Básica de Saúde ou Unidade de Saúde da Família. A equipe realiza acolhimento e avaliação e, conforme a necessidade, o usuário pode continuar acompanhado na atenção primária ou ser direcionado para serviços especializados, como os Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS.
Não é necessário saber previamente qual serviço resolve cada problema.
Essa organização da rede existe justamente para que o usuário seja orientado durante o percurso.
Quando alguém apresenta sofrimento intenso ou pensamentos de morte, entretanto, a lógica é de urgência.
O Ministério da Saúde orienta procurar uma **UPA** ou acionar o **SAMU pelo 192** em situações de ideação suicida que demandem atendimento imediato.
O **Centro de Valorização da Vida, o CVV**, atende gratuitamente pelo número **188**, 24 horas por dia, oferecendo escuta e apoio emocional. O serviço é importante, mas não substitui assistência médica de emergência quando existe risco imediato.
Escutar não é ter todas as respostas
Talvez uma das ideias mais importantes da conversa com Jéssica seja também uma das mais difíceis de praticar.
Ajudar alguém não significa necessariamente saber o que dizer.
Às vezes, significa não transformar a dor daquela pessoa em uma comparação com a própria vida.
Quando alguém procura um amigo, é comum que receba respostas construídas a partir da experiência de quem escuta: “eu faria assim”, “isso aconteceu comigo”, “você deveria pensar dessa maneira”.
Mas duas pessoas podem atravessar situações semelhantes e experimentá-las de formas completamente diferentes.
A psicoterapia, explica Jéssica, oferece justamente um espaço para organizar aquilo que, internamente, parece um emaranhado.
Ela usa uma imagem simples: uma bola de lã enrolada.
A pessoa chega com os fios misturados. O trabalho não consiste simplesmente em pegar a lã e devolvê-la com uma resposta pronta.
Consiste em começar a desenrolá-la.
Aos poucos.
Depois que as luzes amarelas se apagam
Talvez o maior desafio do Setembro Amarelo seja sobreviver ao calendário.
A campanha cumpre uma função importante ao colocar um assunto historicamente cercado de silêncio no debate público.
O problema começa quando a adesão à cor substitui a adesão à causa.
Uma empresa comprometida com saúde mental precisa olhar para seu ambiente de trabalho em dezembro.
Uma família precisa observar mudanças de comportamento em março.
Uma escola precisa discutir proteção e acolhimento em junho.
Uma pessoa endividada pelas apostas precisa conseguir atendimento em janeiro.
Uma criança exposta a riscos digitais precisa ter com quem conversar todos os dias.
E alguém em sofrimento não deveria precisar esperar setembro para ouvir que pedir ajuda é possível.
Para Jéssica, cuidar da saúde mental passa por compreender que sofrimento não é vergonha, que alegria não pode ser permanente, que limites precisam existir e que autoconhecimento não transforma ninguém em alguém imune à dor.
Transforma, quando possível, em alguém mais capaz de reconhecer o que está acontecendo consigo.
O amarelo, nesse sentido, talvez funcione melhor quando deixa de ser apenas uma cor.
E passa a ser um lembrete.
Não de que é preciso sorrir.
Mas de que é preciso olhar, escutar e cuidar — também quando setembro acabar.
As apostas esportivas e jogos online transformaram o telefone celular em uma plataforma permanente de aposta.
Não é necessário deslocamento, horário específico ou sequer interromper a rotina. O jogo está disponível no bolso.
A lógica descrita por Jéssica começa na recompensa.
Uma vitória produz prazer. Depois vem outra aposta. Quando surge a perda, pode aparecer a tentativa de recuperar rapidamente o dinheiro perdido. E, para uma parcela das pessoas, o comportamento deixa progressivamente o terreno do entretenimento.
“Quando você pensa que não está envolvido, já está imerso”, diz a psicóloga.
O Ministério da Saúde intensificou esse alerta em 2026. O governo federal passou a tratar explicitamente os danos das apostas online como questão de saúde pública e lançou uma campanha nacional sobre o tema. O transtorno do jogo é reconhecido internacionalmente como transtorno de comportamento aditivo, e sinais de alerta incluem dificuldade de reduzir ou interromper as apostas, gasto superior ao planejado e impactos no sono, humor, relações, trabalho e orçamento.
Há ainda um componente social importante: a aposta pode ser apresentada, equivocadamente, como caminho para resolver dificuldades financeiras.
A lógica é especialmente perigosa quando perder dinheiro faz com que a pessoa aposte novamente na tentativa de recuperar o prejuízo.
Em agosto deste ano, o SUS passou a disponibilizar capacidade para até **100 mil teleatendimentos mensais** voltados a pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas, incluindo suporte para familiares. O acesso pode começar pelo Meu SUS Digital. Existe também uma plataforma federal de autoexclusão que permite solicitar o bloqueio das contas em casas de apostas autorizadas.
Para Jéssica, entretanto, tecnologia e tratamento precisam vir acompanhados de algo que nenhum aplicativo substitui completamente: uma rede de apoio.
“Rede de apoio não é apenas dizer: ‘que bom que você está aqui’. É enfrentar a situação junto.”
O amarelo na fachada e a saúde mental dentro da empresa
É no ambiente profissional que a contradição entre discurso e prática se torna especialmente visível.
Uma empresa pode publicar uma mensagem sobre saúde mental pela manhã e manter, à tarde, uma cultura baseada em jornadas excessivas, metas incompatíveis, humilhação, falta de autonomia ou disponibilidade permanente.
Pode entregar um brinde.
Pode realizar uma palestra.
Pode iluminar a fachada.
Nada disso substitui organização saudável do trabalho.
Jéssica chama atenção para campanhas feitas sem orientação técnica, nas quais frases ou objetos são escolhidos porque parecem combinar com a estética da campanha, sem reflexão sobre como podem ser recebidos por uma pessoa em sofrimento.
“Frase bonita por frase bonita, todo mundo fala”, observa.
O contexto jurídico brasileiro tornou esse debate ainda mais concreto em 2026.
A nova redação da **Norma Regulamentadora nº 1, a NR-1**, entrou em vigor em 26 de maio e incluiu expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento de riscos ocupacionais. Isso leva a discussão para elementos da própria organização laboral — e não apenas para a capacidade individual do trabalhador de suportá-los.
A aplicação punitiva dessa parte da norma, porém, vive atualmente uma situação jurídica particular. Em agosto, o Supremo Tribunal Federal confirmou decisão que suspendeu temporariamente multas e outras sanções relacionadas a esses dispositivos enquanto ocorre uma tentativa de conciliação para esclarecer critérios de fiscalização. As diretrizes gerais permanecem válidas, segundo o próprio STF.
A discussão, portanto, ultrapassou o terreno da campanha institucional.
Saúde mental no trabalho passou a significar também identificar de que maneira o trabalho é organizado.
Para Jéssica, algumas respostas podem ser mais simples do que parecem: permitir que um trabalhador consiga comparecer a uma consulta ou sessão de terapia, observar sobrecargas, estabelecer pausas adequadas, criar espaços reais de descanso e tratar funcionários como indivíduos — não apenas como unidades de produtividade.
Isso exige continuidade.
Especialmente depois que setembro termina.
Quando o corpo parece dizer que alguma coisa não vai bem
O sofrimento emocional também pode aparecer acompanhado por manifestações físicas.
Alterações de sono, tensão, desconfortos gastrointestinais e mudanças percebidas no próprio corpo podem ocorrer em contextos de estresse, por exemplo.
Mas existe uma cautela importante.
Sintoma físico não deve ser automaticamente classificado como “psicológico”.
Jéssica relata situações em que pacientes percorrem investigações médicas até perceberem que fatores emocionais podem participar do quadro. Isso não significa dispensar a avaliação clínica: manifestações físicas precisam ser adequadamente investigadas justamente porque podem ter inúmeras causas.
A mente e o corpo não funcionam em compartimentos independentes.
Por isso, cuidado em saúde mental e cuidado com a saúde física frequentemente precisam conversar.
Crianças e adolescentes: a rotina pode ser uma pista
Se reconhecer o próprio sofrimento é difícil para adultos, a tarefa ganha outra dimensão durante a infância e a adolescência.
A adolescência, lembra Jéssica, já constitui por si só uma fase de transformações profundas.
Identidade, pertencimento, corpo, relações, sexualidade, expectativas e autonomia estão em construção.
Isso torna inadequado tratar toda mudança comportamental como sintoma.
Ao mesmo tempo, mudanças persistentes merecem atenção.
Para os pais, Jéssica sugere observar sobretudo aquilo que conhecem melhor: **a rotina do próprio filho**.
Se um adolescente que habitualmente participava das refeições deixa de aparecer; se os horários de sono mudam radicalmente; se abandona atividades das quais gostava; se o rendimento ou a sociabilidade se alteram de forma expressiva, a pergunta não precisa começar com uma acusação.
Pode começar com presença.
A internet acrescentou uma camada à questão.
O quarto deixou há muito tempo de ser sinônimo de isolamento do mundo exterior. Uma criança aparentemente sozinha em casa pode estar simultaneamente conectada a dezenas ou centenas de pessoas.
Há benefícios evidentes nessa conectividade, mas também riscos.
Além de exposição a criminosos e contatos inadequados, existe o universo da comparação permanente.
Se adultos já se sentem pressionados pela sucessão de viagens, corpos, casas, relacionamentos e carreiras aparentemente perfeitos exibidos nas redes, crianças e adolescentes precisam interpretar esse conteúdo enquanto ainda constroem referências sobre si próprios.
Por isso, acompanhamento parental não significa apenas controlar tempo de tela.
Significa conhecer a vida digital dos filhos, conversar sobre o que encontram nela e construir confiança suficiente para que um problema possa ser relatado.
O diagnóstico de 30 segundos
A popularização do debate sobre saúde mental trouxe ganhos importantes.
Mais pessoas reconhecem a possibilidade de procurar um psicólogo. Palavras antes restritas aos consultórios entraram nas conversas comuns. O estigma não desapareceu, mas existe hoje mais espaço para falar sobre terapia.
A mesma popularização criou distorções.
“Se você tiver cinco desses sinais, você tem TDAH.”
“Se faz essas quatro coisas, você é narcisista.”
“Isso é um gatilho.”
“Tenho TOC porque gosto das coisas organizadas.”
Conteúdos desse tipo se espalham porque oferecem respostas simples para experiências complexas.
Para Jéssica, o perigo começa quando listas genéricas passam a ser usadas como diagnóstico.
“Qualquer pessoa pode se identificar com vários itens. Isso não significa que tenha aquele transtorno.”
Alguém que já está angustiado pode passar de vídeo em vídeo tentando encontrar uma explicação definitiva para o que sente.
Um conteúdo aponta para um diagnóstico. O seguinte aponta para outro.
A busca pela resposta pode se transformar em nova fonte de ansiedade.
Diagnóstico em saúde mental depende de avaliação profissional, contexto, história, duração, intensidade dos sintomas e impacto funcional. Identificar-se com uma publicação pode ser motivo para buscar orientação — não uma confirmação de doença.
Em João Pessoa, centenas de notificações por ano
O debate ganha dimensão ainda mais concreta quando aproximado da realidade local.
No último boletim municipal consolidado localizado sobre o tema, publicado pela Vigilância Epidemiológica de João Pessoa em setembro de 2025, a Capital registrou **5.606 notificações de lesões autoprovocadas intencionalmente e 449 mortes por suicídio entre 2014 e 2024**.
Somente em 2024 foram mais de **680 notificações de violência autoprovocada e 48 óbitos**. Entre janeiro e julho de 2025, haviam sido contabilizadas mais de 630 notificações e 18 mortes. Os números podem sofrer atualizações nos sistemas oficiais.
O dado ajuda a dimensionar por que prevenção não pode se resumir a uma campanha anual.
Também mostra por que a resposta não pertence exclusivamente aos consultórios de psicologia ou psiquiatria.
Ela passa pela família.
Pela escola.
Pelo trabalho.
Pelos serviços públicos.
Pela maneira como a imprensa aborda o tema.
E pela capacidade de uma sociedade de produzir condições para que pedir ajuda seja possível antes de uma crise.
A porta de entrada pode estar no bairro
Um dos obstáculos recorrentes à terapia é financeiro.
Jéssica reconhece que atendimento particular não está ao alcance de todos e lembra a existência da rede pública.
No SUS, o cuidado em saúde mental faz parte da **Rede de Atenção Psicossocial, a RAPS**.
Em muitos casos, a busca pode começar na própria Unidade Básica de Saúde ou Unidade de Saúde da Família. A equipe realiza acolhimento e avaliação e, conforme a necessidade, o usuário pode continuar acompanhado na atenção primária ou ser direcionado para serviços especializados, como os Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS.
Não é necessário saber previamente qual serviço resolve cada problema.
Essa organização da rede existe justamente para que o usuário seja orientado durante o percurso.
Quando alguém apresenta sofrimento intenso ou pensamentos de morte, entretanto, a lógica é de urgência.
O Ministério da Saúde orienta procurar uma **UPA** ou acionar o **SAMU pelo 192** em situações de ideação suicida que demandem atendimento imediato.
O **Centro de Valorização da Vida, o CVV**, atende gratuitamente pelo número **188**, 24 horas por dia, oferecendo escuta e apoio emocional. O serviço é importante, mas não substitui assistência médica de emergência quando existe risco imediato.
Escutar não é ter todas as respostas
Talvez uma das ideias mais importantes da conversa com Jéssica seja também uma das mais difíceis de praticar.
Ajudar alguém não significa necessariamente saber o que dizer.
Às vezes, significa não transformar a dor daquela pessoa em uma comparação com a própria vida.
Quando alguém procura um amigo, é comum que receba respostas construídas a partir da experiência de quem escuta: “eu faria assim”, “isso aconteceu comigo”, “você deveria pensar dessa maneira”.
Mas duas pessoas podem atravessar situações semelhantes e experimentá-las de formas completamente diferentes.
A psicoterapia, explica Jéssica, oferece justamente um espaço para organizar aquilo que, internamente, parece um emaranhado.
Ela usa uma imagem simples: uma bola de lã enrolada.
A pessoa chega com os fios misturados. O trabalho não consiste simplesmente em pegar a lã e devolvê-la com uma resposta pronta.
Consiste em começar a desenrolá-la.
Aos poucos.
Depois que as luzes amarelas se apagam
Talvez o maior desafio do Setembro Amarelo seja sobreviver ao calendário.
A campanha cumpre uma função importante ao colocar um assunto historicamente cercado de silêncio no debate público.
O problema começa quando a adesão à cor substitui a adesão à causa.
Uma empresa comprometida com saúde mental precisa olhar para seu ambiente de trabalho em dezembro.
Uma família precisa observar mudanças de comportamento em março.
Uma escola precisa discutir proteção e acolhimento em junho.
Uma pessoa endividada pelas apostas precisa conseguir atendimento em janeiro.
Uma criança exposta a riscos digitais precisa ter com quem conversar todos os dias.
E alguém em sofrimento não deveria precisar esperar setembro para ouvir que pedir ajuda é possível.
Para Jéssica, cuidar da saúde mental passa por compreender que sofrimento não é vergonha, que alegria não pode ser permanente, que limites precisam existir e que autoconhecimento não transforma ninguém em alguém imune à dor.
Transforma, quando possível, em alguém mais capaz de reconhecer o que está acontecendo consigo.
O amarelo, nesse sentido, talvez funcione melhor quando deixa de ser apenas uma cor.
E passa a ser um lembrete.
Não de que é preciso sorrir.
Mas de que é preciso olhar, escutar e cuidar — também quando setembro acabar.

