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Paraíba

A nova engenharia do golpe: como criminosos exploram pressa, confiança e tecnologia para enganar vítimas

Publicado em 02/08/2026 às 04:06 Por Redação
Foto: Portal Ponto PB
Foto: Portal Ponto PB

O golpe pode começar com uma mensagem aparentemente banal, um boleto que chega à caixa de e-mail, uma oferta boa demais para ser ignorada ou um pedido urgente de dinheiro enviado pelo número de alguém conhecido. Em alguns casos, a fraude nasce de uma conversa na internet; em outros, de uma oportunidade que parece imperdível. O que mudou, nos últimos anos, não foi a essência do estelionato, mas a maneira como ele chega até a vítima.

A criminalidade encontrou na tecnologia um terreno fértil para ampliar o alcance das fraudes. Com mais transações financeiras realizadas virtualmente, redes sociais presentes na rotina de milhões de pessoas e plataformas digitais mediando compras, hospedagens e deslocamentos, os golpes passaram a ocupar espaços cada vez mais próximos da vida cotidiana.

Para o delegado Ademir Fernandes, da Delegacia de Defraudações e Falsificações da Polícia Civil da Paraíba, a criminalidade tem demonstrado capacidade de adaptação diante das transformações sociais e tecnológicas. Em entrevista ao Em Ponto Podcast, do Portal Ponto PB, ele afirmou que os crimes de estelionato avançam rapidamente e que o ambiente cibernético oferece aos criminosos novas possibilidades de atuação.

A mudança também altera o trabalho de quem investiga. Se antes determinadas fraudes dependiam de uma abordagem presencial, hoje podem ser praticadas à distância, contra vítimas que sequer sabem onde está o responsável pelo golpe. O criminoso pode mudar de cidade, de estado, utilizar identidades falsas e operar por diferentes plataformas.

O resultado é uma espécie de corrida permanente entre a inovação tecnológica e a capacidade de prevenção e investigação.

Do bilhete premiado ao golpe digital

O bilhete premiado é um exemplo de que nem toda fraude precisa de tecnologia para continuar funcionando. Segundo Ademir Fernandes, trata-se de um dos golpes mais antigos ainda praticados.

A estratégia é conhecida: alguém aborda a vítima afirmando possuir um bilhete premiado, mas apresenta algum motivo para não conseguir resgatar o suposto prêmio. A promessa de vantagem financeira cria a oportunidade para que o criminoso convença a pessoa a entregar dinheiro.

O delegado relatou que, no início do ano, a Polícia Civil realizou uma prisão relacionada a um grupo que aplicava esse tipo de golpe. De acordo com ele, os integrantes seriam originários majoritariamente de uma mesma cidade do Rio Grande do Sul e se espalhariam pelo país, deslocando-se de um estado para outro, hospedando-se temporariamente e fazendo novas vítimas.

É uma modalidade antiga utilizando uma lógica que permanece atual: a promessa de vantagem.

A diferença é que, atualmente, o criminoso nem sempre precisa estar diante da vítima.

Fraudes envolvendo falsas plataformas de investimento, por exemplo, podem ser construídas inteiramente no ambiente digital. A pessoa recebe a proposta, deposita valores e, estimulada pela perspectiva de ganhos, continua investindo. O golpe pode permanecer invisível até o momento em que a vítima tenta retirar o dinheiro e descobre que não consegue.

É justamente essa capacidade de manter a fraude à distância que torna o ambiente virtual tão atraente para os estelionatários.

A emoção como ferramenta de manipulação

O golpe não depende apenas de tecnologia. Ele depende, sobretudo, de comportamento humano.

Na avaliação do delegado, ambição, solidariedade, confiança e pressa estão entre as emoções exploradas pelos criminosos.

Uma oferta com tempo limitado, por exemplo, cria a sensação de que a pessoa precisa decidir imediatamente. O relógio corre, o desconto parece desaparecer e a oportunidade é apresentada como algo que não voltará.

A urgência reduz o espaço para reflexão.

É nesse intervalo entre o impulso e a análise que o golpe pode prosperar.

“É muito melhor perder uma boa oferta do que perder muito dinheiro e se sentir enganado”, resumiu o delegado durante a entrevista.

A recomendação, portanto, parece simples, mas exige uma mudança de comportamento: parar antes de pagar, transferir, investir ou fornecer informações.

Em outras palavras, a racionalidade pode ser uma das primeiras barreiras contra a fraude.

Segundo Fernandes, muitas vezes uma pesquisa simples seria suficiente para levantar dúvidas sobre determinada oferta ou pessoa. O problema é que a emoção pode fazer com que a vítima deixe de realizar justamente essa checagem.

A regra apresentada por ele é direta: na dúvida, não faça o negócio.

O boleto pode esconder a fraude na última etapa

Entre os golpes que exigem atenção está a falsificação de boletos.

A dificuldade, segundo o delegado, está no fato de que um boleto fraudulento pode reproduzir diversos elementos do documento verdadeiro. Nome da empresa e identificação bancária podem parecer corretos e transmitir uma falsa sensação de segurança.

Por isso, um dos cuidados destacados durante a entrevista está em uma etapa que muitas vezes passa despercebida: a confirmação do destinatário final antes da conclusão do pagamento.

O consumidor pode conferir as informações apresentadas pelo sistema bancário no momento em que o pagamento é confirmado. Se o nome do destinatário não corresponde à empresa, pessoa ou instituição para a qual o pagamento deveria ser destinado, o alerta precisa ser imediato.

É um detalhe que pode parecer pequeno diante de um documento aparentemente legítimo, mas que pode revelar a fraude.

A orientação vale também para boletos que aparecem automaticamente em plataformas financeiras ou chegam por e-mail. O fato de uma cobrança estar disponível para pagamento não significa, por si só, que ela seja legítima.

Quando o número conhecido pede dinheiro

Outro golpe citado na conversa envolve contas de WhatsApp ou perfis de redes sociais utilizados para se passar por parentes, amigos ou pessoas próximas.

A fraude funciona justamente porque o criminoso se apropria de elementos que despertam confiança: nome, fotografia e identidade visual de alguém conhecido.

A mensagem pode chegar de um contato que, para a vítima, é identificado como mãe, filho, marido, esposa ou amigo.

O sinal de alerta aparece quando aquele contato começa a pedir algo que foge completamente do comportamento habitual — especialmente dinheiro, pagamentos ou transferências.

A recomendação é não continuar a conversa simplesmente acreditando que a pessoa do outro lado é quem afirma ser.

Uma chamada de vídeo ou de áudio pode ajudar a confirmar a identidade. Outra possibilidade mencionada durante a entrevista é estabelecer previamente um código familiar, uma espécie de palavra ou combinação que possa ser utilizada para confirmar situações excepcionais.

A lógica é simples: quanto mais previsível for o comportamento de uma família diante de um pedido financeiro inesperado, mais difícil será para o golpista explorar a surpresa.

A família também pode ser uma rede de proteção

A prevenção não depende exclusivamente de quem utiliza diariamente redes sociais e aplicativos bancários.

O delegado chama atenção para a importância de conversar sobre golpes dentro das próprias famílias, sobretudo com pessoas que tenham menos familiaridade com o ambiente digital.

Um acordo simples pode fazer diferença: se um filho realmente precisar de dinheiro, por exemplo, a família pode estabelecer previamente que o pedido será confirmado por uma ligação ou chamada de vídeo.

A prevenção, nesse caso, deixa de ser uma preocupação individual e passa a ser coletiva.

A informação compartilhada entre familiares pode impedir que uma pessoa mais vulnerável seja colocada diante de uma situação que não sabe como avaliar.

Plataformas digitais: a segurança diminui quando o negócio sai do ambiente oficial

O mesmo princípio vale para plataformas de hospedagem, transporte e comércio eletrônico.

A orientação apresentada pelo delegado é realizar todo o processo dentro da própria plataforma, evitando levar a negociação para aplicativos de mensagens ou pagamentos externos apenas porque alguém promete um preço menor ou alguma vantagem.

Segundo Fernandes, permanecer no ambiente oficial proporciona uma camada adicional de segurança, uma vez que existem mecanismos de cadastro e identificação dos usuários.

O problema aparece quando o próprio usuário aceita abandonar esses mecanismos.

No comércio eletrônico, por exemplo, criminosos podem copiar anúncios verdadeiros e criar ofertas falsas. A vítima acredita estar negociando com o vendedor original, mas acaba direcionada para outra pessoa.

O delegado relatou ainda que criminosos podem tentar dar maior visibilidade aos anúncios falsos para atrair mais usuários.

A lógica é parecida em serviços de transporte e hospedagem: quanto mais a negociação se afasta dos mecanismos oficiais da plataforma, maior tende a ser a exposição ao risco.

Nem a imagem de uma pessoa famosa pode ser tomada como prova

A evolução tecnológica acrescentou outro componente ao problema: os chamados deepfakes, conteúdos manipulados por inteligência artificial capazes de reproduzir aparência ou voz de pessoas reais.

Durante a entrevista, foi discutida a possibilidade de criminosos utilizarem imagens de médicos, influenciadores, artistas ou outras pessoas conhecidas para criar vídeos falsos e associá-los a produtos, serviços ou investimentos.

O fato de o anúncio trazer o rosto de alguém conhecido pode produzir uma sensação imediata de credibilidade.

Mas imagem não é prova de autenticidade.

A orientação do delegado é aplicar ao conteúdo digital o mesmo princípio utilizado em outros golpes: pesquisar antes de acreditar.

Uma busca independente pode ajudar a verificar se aquela pessoa realmente divulgou determinado produto ou serviço. Se a informação não puder ser confirmada, a recomendação permanece a mesma: não avançar na negociação.

O prejuízo não termina no dinheiro

Existe uma dimensão do estelionato que não aparece imediatamente no extrato bancário.

Durante a entrevista, Fernandes chamou atenção para os impactos psicológicos e familiares provocados pelas fraudes. O prejuízo pode ultrapassar o valor perdido e atingir a autoestima, as relações familiares e a saúde emocional da vítima.

A vergonha de ter sido enganado também pode fazer com que algumas pessoas deixem de procurar as autoridades.

O delegado considera esse constrangimento um problema relevante. Segundo ele, embora o estelionato não envolva necessariamente violência física, suas consequências sociais podem ser profundas.

Em determinadas situações, a vítima perde quantias que não possuía e passa a acumular dívidas. O impacto financeiro pode atingir toda a família.

É justamente por isso que, na avaliação do delegado, o estelionato não deve ser tratado como um crime de menor importância apenas porque não há uma agressão física durante sua execução.

O dano pode permanecer por muito tempo depois que a fraude termina.

A importância de registrar a ocorrência

Outro ponto destacado na conversa foi a necessidade de comunicar o crime às autoridades, mesmo quando a vítima acredita que o dinheiro não será recuperado.

A razão vai além da possibilidade de investigação individual.

Cada registro alimenta estatísticas que ajudam as forças de segurança a compreender onde, como e contra quem determinados crimes estão sendo praticados.

Segundo Fernandes, os dados permitem identificar regiões com maior concentração de ocorrências, modalidades mais frequentes e características das vítimas. Essas informações podem contribuir para direcionar o trabalho policial.

Por isso, deixar de registrar um prejuízo de menor valor também significa retirar aquela ocorrência das estatísticas oficiais.

Para o delegado, comunicar o crime é também uma forma de evitar que outras pessoas sejam vítimas da mesma prática.

Quando a Delegacia de Defraudações entra em cena

A Delegacia de Defraudações e Falsificações possui uma atuação especializada e, segundo Fernandes, trabalha especialmente com casos de maior repercussão ou com prejuízos superiores a 20 salários mínimos, conforme explicado na entrevista.

Ocorrências abaixo desse parâmetro são, em regra, encaminhadas às delegacias distritais ou municipais responsáveis.

A unidade especializada também atua na investigação de falsificações. O delegado explicou que o foco pode estar especialmente nos grupos responsáveis pela produção dos documentos falsos, enquanto situações envolvendo apenas o uso de documento falso podem ser encaminhadas a outras unidades, conforme o caso.

O uso ou a falsificação de documentos também pode configurar crime, conforme a situação concreta.

Para investigar um golpe, a polícia procura rastros diferentes

Investigar um homicídio ou um roubo pode envolver vestígios físicos perceptíveis: uma cena de crime, objetos, marcas, exames e outros elementos materiais.

Nos golpes digitais, o cenário é outro.

O crime pode acontecer a quilômetros de distância, por meio de um celular, computador ou plataforma digital. Isso não significa, porém, que não existam vestígios.

Ao contrário.

Segundo o delegado, as atividades realizadas no ambiente cibernético deixam rastros. O desafio é localizar, reunir e interpretar essas informações.

A Polícia Civil pode precisar solicitar dados a bancos, empresas e plataformas para reconstruir a movimentação realizada pelos criminosos. Fernandes reconhece, contudo, que ainda há necessidade de ampliar o número de policiais e fortalecer a estrutura tecnológica da unidade.

A própria transformação do crime impõe uma transformação da investigação.

O criminoso aprende novas formas de agir; a polícia precisa desenvolver novas maneiras de encontrá-lo.

Uma corrida em que a polícia tenta alcançar uma criminalidade que se reinventa

Para Fernandes, a evolução dos golpes cria um desafio permanente para o sistema de segurança pública.

O delegado observa que investimentos em investigação especializada podem produzir resultados importantes em determinadas áreas da criminalidade e defende que a Polícia Civil também precisa estar preparada para responder ao crescimento dos crimes praticados no ambiente virtual.

O cenário exige pessoal qualificado, estrutura e tecnologia.

A dificuldade é agravada pela complexidade das investigações. Um golpe pode envolver diferentes vítimas, contas bancárias, números de telefone, perfis digitais, empresas, plataformas e pessoas espalhadas por diferentes localidades.

A conexão entre essas informações pode ser justamente o elemento que permite identificar um padrão.

Por isso, quando várias vítimas de um mesmo golpe se apresentam às autoridades, a investigação pode ganhar força.

Segundo o delegado, pessoas que descobrem ter sido enganadas pela mesma organização devem procurar as autoridades e informar que existem outras vítimas.

O que para cada indivíduo parece ser um caso isolado pode, para a investigação, formar o desenho de uma operação muito maior.

A fraude também pode começar em um anúncio

O crescimento das plataformas digitais ampliou ainda mais as possibilidades de abordagem.

Um anúncio de produto, uma hospedagem, uma corrida ou uma oportunidade de investimento pode funcionar como porta de entrada para o golpe.

Em alguns casos, a fraude está no anúncio desde o início. Em outros, o criminoso tenta retirar a vítima do ambiente protegido da plataforma para conduzi-la a um canal onde o controle é menor.

A recomendação se repete: não abandonar a plataforma sem uma razão legítima e sem compreender o risco envolvido.

Uma proposta de preço menor pode parecer uma vantagem imediata, mas pode custar muito mais caso a transação termine em fraude.

É o velho princípio do “barato que sai caro” adaptado à economia digital.

A prevenção começa antes do prejuízo

Existe uma característica comum em boa parte dos golpes descritos pelo delegado: a vítima geralmente é estimulada a agir antes de pensar.

O cronômetro de uma promoção, a urgência de um parente, a promessa de lucro, o medo de perder uma oportunidade ou a confiança produzida pela imagem de uma pessoa conhecida são instrumentos diferentes para produzir o mesmo resultado: reduzir o tempo de reflexão.

É nesse ponto que a prevenção ganha importância.

Antes de pagar um boleto, transferir dinheiro, investir, comprar um produto, aceitar uma hospedagem ou seguir uma negociação para fora de uma plataforma, a recomendação é interromper o impulso e verificar as informações.

Quem está recebendo o dinheiro?

A pessoa é realmente quem afirma ser?

O anúncio é verdadeiro?

A oferta existe em outro canal oficial?

O destinatário do pagamento corresponde à empresa ou pessoa que deveria receber?

Há algum elemento estranho na negociação?

A proposta exige urgência?

A pessoa não consegue confirmar a identidade por uma ligação?

Perguntas simples podem interromper uma fraude antes que ela se concretize.

O golpe muda. A cautela precisa acompanhar

A história do estelionato é também a história da capacidade de adaptação do crime.

O bilhete premiado continua existindo, mas o golpista também pode estar escondido atrás de uma tela. A falsificação deixou de ser apenas uma questão de papel e passou a envolver identidades digitais, anúncios, perfis e conteúdos manipulados. A confiança em uma pessoa conhecida pode ser explorada por uma simples mensagem.

No ambiente digital, a sensação de familiaridade pode ser fabricada.

É por isso que a principal defesa, segundo o delegado Ademir Fernandes, não está apenas em equipamentos, aplicativos ou sistemas de segurança. Está também no comportamento do usuário.

Desconfiar, pesquisar, conferir e não agir sob pressão.

E, quando o golpe acontecer, procurar as autoridades e registrar a ocorrência.

Talvez a vítima não consiga recuperar imediatamente o dinheiro perdido. Mas o registro pode ajudar a polícia a identificar padrões, conectar vítimas, localizar criminosos e evitar novos casos.

Em uma realidade na qual o crime também se tornou digital, a prevenção começa justamente no momento em que alguém decide não clicar, não transferir e não acreditar imediatamente.

Às vezes, alguns segundos de racionalidade são suficientes para impedir um prejuízo que poderia durar anos.

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