Cotidiano
O louco entre nós, na história
Publicado em 27/09/2026 às 07:00 Por Lucas Rodrigues
Essa pergunta ficou na minha cabeça desde que uma mulher foi presa por depredar a proteção de vidro da estátua de Iemanjá, na orla de João Pessoa. Ouvi colegas resumirem o caso com um “ela é doida”, li coisas parecidas nas redes sociais e vi a própria mulher, cercada por câmeras na porta de uma delegacia, oferecer uma explicação: “Eu tenho transtorno de bipolaridade”. Disse que deveria tomar medicamento, mas não toma. Falou em “doideira”, em pensamentos que “vão loucos”, em revolta. Sorriu, fez coração com as mãos. Em poucos minutos, estava pronta uma narrativa fácil de consumir: a bipolar que surtou e quebrou uma estátua.
Eu também tenho transtorno bipolar. Talvez por isso aquela entrevista tenha me atravessado de um jeito diferente. Não sei se há um diagnóstico médico que confirme o que aquela mulher declarou. Também não sei o que aconteceu dentro da cabeça dela naquela madrugada. Autoridades afirmaram que ela aparentava estar em surto e sua condição de saúde ainda faz parte das circunstâncias que precisam ser esclarecidas. Não posso diagnosticá-la pela televisão nem retirar dela um diagnóstico que talvez exista. O que posso observar é o que aconteceu depois que a palavra “bipolar” saiu da boca dela e caiu no mundo.
“Transtorno bipolar é uma camada de pau”, escreveu alguém nas redes sociais. É assim que uma doença vira piada. Não de uma vez, mas aos poucos. Bipolar é o namorado que estava feliz pela manhã e irritado à noite. A amiga que mudou de opinião. O chefe difícil. A pessoa que gritou, chorou ou fez alguma coisa absurda. A palavra vai deixando de ser diagnóstico para virar adjetivo, xingamento, meme. E quando uma palavra passa a explicar qualquer comportamento, ela deixa de explicar justamente aquilo que deveria.
Só que algumas pessoas precisam continuar vivendo dentro dela. Eu preciso. Há anos aprendo a reconhecer em mim coisas que os outros podem simplesmente chamar de exagero. Preciso observar mudanças, desconfiar de determinados impulsos, respeitar limites, tomar medicamento e entender quando alguma coisa começa a escapar do lugar. Também preciso conviver com pessoas que vão embora porque “não sabem lidar comigo”. Já ouvi isso mais vezes do que gostaria. É uma frase curiosa para quem recebe, porque quem diz que não sabe lidar pode simplesmente ir embora. Eu não posso. Eu lido com essa merda todos os dias.
E talvez seja essa a parte que a piada nunca alcança. Para quem chama alguém de “bipolar” porque mudou de humor, a palavra dura alguns segundos e desaparece. Para quem tem o diagnóstico, ela continua depois da conversa. Está no tratamento, no medo de uma crise, nas relações, nas explicações constrangedoras e naquele exercício cansativo de tentar descobrir se o que você está sentindo pertence simplesmente à vida ou se alguma coisa dentro de você está começando a mudar. Principalmente, está no esforço de não deixar que um diagnóstico ocupe todo o espaço onde deveria existir uma pessoa.
Mas até onde uma doença explica alguém?
A mulher presa havia praticado um ato concreto. Uma pedra foi lançada contra a proteção de um monumento religioso. Quando perguntada sobre o que a estátua tinha a ver com os problemas familiares que dizia enfrentar, respondeu: nada. Depois falou sobre bipolaridade. Até agora, não sabemos qual papel uma eventual condição psiquiátrica teve naquele episódio. Também não podemos afirmar que ela esteja deliberadamente usando um transtorno para escapar das consequências. Fazer isso seria repetir o mesmo erro que me incomoda: escolher a explicação mais confortável antes de conhecer a pessoa inteira.
Porque diagnóstico não deveria ser sentença nem salvo-conduto. Ter transtorno bipolar não me torna incapaz de errar, assim como cada erro meu não pode ser transformado automaticamente em sintoma. Posso ser egoísta, injusto, impaciente, tomar decisões ruins e me arrepender delas sem que exista uma crise por trás. Em outros momentos, a doença pesa e precisa ser reconhecida como doença. Essas duas coisas podem existir ao mesmo tempo. Meu diagnóstico explica partes de mim. Não me explica inteiro.
Talvez seja isso que esqueçamos quando saúde mental deixa de ser campanha e ganha um rosto inconveniente. É fácil publicar que precisamos falar sobre o assunto. É fácil compartilhar uma frase sobre acolhimento, colocar uma fita amarela e dizer que pedir ajuda é um ato de coragem. Mas e quando a pessoa com transtorno incomoda? Quando erra? Quando fala demais, desaparece, se fecha ou exige uma paciência que não cabe numa postagem bonita? A empatia funciona muito bem enquanto é abstrata. Quando ganha corpo, contradição e comportamento, muitas vezes recebe outro nome: “doideira”.
Então me responda: por que o bipolar é sempre o louco da história?
Talvez porque seja mais fácil. Se é louco, não precisamos compreender. Se é bipolar, encontramos uma gaveta onde colocar tudo aquilo que não conseguimos explicar. Depois alguém escreve que bipolaridade se resolve com uma surra e outras pessoas riem. Para quem escreveu, foram dez segundos de humor. Para quem lê carregando aquele diagnóstico, sobra a sensação de ter sua doença reduzida mais uma vez a descontrole, violência ou defeito de caráter.
É isso que dói. As pessoas conhecem a crise, mas raramente enxergam o trabalho necessário para evitá-la. Não veem o esforço empregado justamente nos dias em que nada acontece. Não veem tratamento, autocontrole, culpa, medo, reconstrução. E enquanto alguns de nós passamos anos tentando mostrar que somos maiores do que um diagnóstico, basta um episódio público para a velha caricatura voltar inteira: “ela é doida”.
A estátua de Iemanjá terá seu vidro substituído. A investigação seguirá seu caminho e deverá esclarecer o que puder sobre aquela madrugada. A mulher responderá pelo que as autoridades entenderem que lhe cabe e espero que também tenha acesso ao cuidado de saúde de que diz precisar. Mas as palavras lançadas depois da pedra não serão recolhidas pela perícia. Continuarão no grupo de mensagens, na redação, nos comentários e na próxima piada sobre alguém “bipolar”. E alguém que recebeu esse diagnóstico vai ouvir tudo isso e calcular, mais uma vez, quanto de si pode revelar antes de começar a ser enxergado apenas através dele.
Eu faço essa conta. Não quero que tenham medo de mim, que cada mudança no meu rosto seja tratada como prenúncio de uma crise ou que meus erros sejam automaticamente entregues ao transtorno. Também não quero ser exemplo de superação. Quero algo muito menos grandioso: ser uma pessoa que tem uma doença, e não uma doença tentando convencer os outros de que também é uma pessoa.
A pedra lançada naquela madrugada quebrou um vidro. A palavra lançada depois atravessou muita gente que ninguém viu. Eu fui uma delas.
E você, quando ouvir alguém dizer novamente “ele é bipolar” como quem diz “ele é louco”, vai rir junto ou vai lembrar que existe alguém do outro lado dessa piada?
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