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O único que ficou: por que Júnior Pires rompeu a lógica do PSB em João Pessoa

Atualizada em 30/03/2026 às 22:34 Por Redação
Foto: Portal Ponto PB
Foto: Portal Ponto PB

A rotina de fiscalizações, denúncias e orientação ao consumidor pode parecer distante das articulações eleitorais. Mas, na Paraíba de 2026, gestão e política caminham lado a lado. À frente do Procon da capital, Júnior Pires vive atualmente um dos momentos mais delicados de sua trajetória pública: equilibrar a atuação técnica com uma decisão política que o colocou no centro de um racha entre aliados.

Advogado com cerca de 14 anos de carreira, ele construiu sua atuação no direito do consumidor e chegou à gestão municipal ainda durante a aliança entre o governador João Azevêdo e o prefeito Cícero Lucena. Indicado pelo PSB, partido ao qual é filiado, assumiu inicialmente a secretaria executiva do Procon, antes de se tornar titular da pasta.

O cenário, no entanto, mudou com a aproximação das eleições de 2026.


O racha e a escolha


O governador João Azevêdo (PSB), pré-candidato ao Senado, abraçou o projeto do nome do vice-governador Lucas Ribeiro (Progressistas) ao governo. Já Cícero rompeu com o Progressistas, filiou-se ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e lançou sua própria pré-candidatura, com apoio do senador Veneziano Vital do Rêgo.

A mudança provocou uma saída em série de aliados do governador da gestão municipal. Zezinho Botafogo (Esportes) e Thiago Diniz (Participação Popular) deixaram seus cargos e aderiram ao projeto de Lucas Ribeiro.

Júnior Pires fez o oposto. Permaneceu no cargo e, semanas depois, declarou apoio público a Cícero — contrariando a orientação predominante do Partido Socialista Brasileiro.

“Lealdade e gratidão se paga com lealdade e gratidão”, afirmou, ao justificar o movimento. Segundo ele, o apoio se ancora na relação construída dentro da gestão municipal e no respaldo recebido para atuar com autonomia no Procon.

Vale lembrar que o vice de Cícero, Léo Bezerra, também é do PSB e segue nesse dilema.


Entre a política e a gestão


A decisão não ocorre em um vácuo. Ela se conecta diretamente à forma como o secretário enxerga sua atuação à frente do órgão.

Responsável por uma das áreas mais sensíveis da administração, Pires defende que a proteção ao consumidor exige independência — inclusive política. “Nunca recebi uma ligação para aliviar fiscalização. Pelo contrário, sempre houve incentivo para avançar”, afirmou.

Esse contexto ajuda a explicar por que, mesmo sendo quadro do PSB, ele optou por manter-se alinhado ao prefeito.

Ao mesmo tempo, o secretário tenta sustentar uma posição de equilíbrio: permanece no partido, declara apoio ao governador para o Senado, mas diverge na disputa estadual. “Não saí de lugar nenhum”, resume.


Os desafios na ponta: o que mais incomoda o consumidor


Enquanto o cenário político se acirra, a rotina no Procon segue marcada por demandas recorrentes. Segundo o próprio órgão, os principais problemas enfrentados pelos consumidores em João Pessoa estão nos serviços de telefonia e internet, seguidos por concessionárias de água, energia e instituições financeiras.

São conflitos que envolvem cobranças, contratos e interrupções de serviço — relações contínuas que levam o consumidor a buscar o órgão com mais frequência.

Já o setor de combustíveis, embora esteja no centro das discussões públicas, aparece menos nos rankings formais. “É uma questão coletiva. Impacta todo mundo, mas nem sempre vira uma reclamação individual”, explica.


É justamente nos combustíveis que a atuação do Procon tem ganhado maior visibilidade — e enfrentado mais resistência.

Pires relata dificuldades para obter informações de distribuidoras e episódios de obstrução durante fiscalizações. Em uma das operações, o órgão precisou acionar a Polícia Federal para garantir acesso a dados sobre reajustes.

Além da complexidade técnica, há o peso político e econômico do setor. “É um segmento muito organizado, com forte articulação. Isso torna a fiscalização mais difícil”, afirma.

A exposição dessas ações nas redes sociais pessoais do secretário abriu uma nova frente de conflito: ações judiciais levaram à suspensão das publicações, sob argumento de violação de princípios administrativos.

Para ele, a medida limita o direito à informação. “O consumidor precisa saber o que está acontecendo. Isso também é proteção”, defende.


Educar para reduzir conflitos


Se a fiscalização atua no presente, a aposta para o futuro está na educação. O programa “Procon vai às aulas”, criado ainda na primeira gestão municipal, já alcançou cerca de 20 mil estudantes da rede pública.

A iniciativa oferece noções de direito do consumidor, educação financeira e empreendedorismo, além de uma bolsa auxílio para os participantes.

“A ideia é formar um consumidor consciente, que saiba seus direitos e deveres. Isso reduz conflitos lá na frente”, explica.

O crescimento da adesão — que hoje supera o número de vagas — indica, segundo o secretário, uma mudança de percepção sobre o papel do consumidor.

Outra frente da gestão é a digitalização dos serviços. O uso de tablets substituiu processos em papel, e o atendimento passou a ser oferecido também por canais digitais, como WhatsApp e aplicativos.

A medida busca ampliar o acesso e dar mais transparência ao acompanhamento das demandas.


A exposição do trabalho, no entanto, tem um custo. Pires afirma que ele e sua equipe enfrentam ameaças constantes, inclusive de morte, o que impacta a rotina pessoal.

“Não é fácil. A gente precisa mudar hábitos, evitar exposição. Mas é uma escolha que eu fiz”, diz.

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