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Na ponte entre governo e povo, Thiago Diniz aposta na participação como ferramenta de gestão

Atualizada em 20/04/2026 às 14:01 Por Redação
Em uma democracia que, muitas vezes, se resume ao ato de votar, a ideia de que o cidadão deve participar ativamente das decisões públicas ainda enfrenta resistência, e desinformação. Mas, nos bastidores da gestão municipal e estadual, iniciativas de participação popular têm buscado encurtar a distância entre governo e sociedade, transformando demandas cotidianas em políticas públicas concretas.

A experiência recente de João Pessoa ilustra esse movimento. À frente de ações voltadas à escuta ativa da população por quase cinco anos, o gestor público Thiago Diniz defende que a democracia não se encerra nas urnas. “O voto é o ponto de partida. A partir dele, é preciso acompanhar, cobrar e participar”, afirma.


A ponte entre o cidadão e o poder público


A lógica da participação popular parte de um princípio simples: ouvir para planejar. Na prática, no entanto, essa escuta exige estrutura, articulação e, sobretudo, disposição política.

Durante sua atuação na área, Diniz descreve o papel como o de um intermediador entre o desejo da população e os limites administrativos do Estado. “Existe aquilo que a população sonha, o que é possível tramitar e o que o orçamento permite executar. O desafio é equilibrar essas três dimensões”, explica.

João Pessoa está dividida em 14 regiões, com 65 bairros e mais de 170 comunidades, um mosaico urbano que exige capilaridade na gestão. Para dar conta dessa diversidade, foram realizadas plenárias e encontros comunitários, além da criação de programas que levavam o poder público diretamente às comunidades.

Um dos exemplos citados é a construção da Praça de Iemanjá, fruto de diálogo de Thiago com representantes de religiões de matriz africana. O projeto, segundo o gestor, nasceu de uma demanda coletiva e percorreu um processo participativo até sua execução.


Ouvir, diagnosticar, agir


A escuta da população, porém, não é apenas simbólica. Ela funciona como ferramenta de diagnóstico. Thiago Diniz compara o processo ao trabalho de um médico: antes de prescrever soluções, é preciso entender os sintomas.

“Você ouve dores muito concretas: a mãe que precisa de creche, o morador que quer a rua pavimentada, o paciente que aguarda atendimento. A partir disso, você busca caminhos dentro da máquina pública”, relata.

Essa dinâmica, segundo ele, proporciona um aprendizado direto sobre as desigualdades urbanas e as prioridades reais da população, muitas vezes distantes da agenda institucional.


Os gargalos persistentes


Apesar dos avanços, a escuta também revela problemas crônicos. Entre as principais queixas da população, três áreas se destacam: saúde, mobilidade urbana e serviços básicos.

Na saúde, o desafio vai além da infraestrutura. Embora reformas em unidades tenham sido realizadas, persistem problemas como longas filas para exames e cirurgias, além da falta de medicamentos e profissionais em determinados períodos.

Na mobilidade urbana, o crescimento acelerado da cidade tem pressionado a infraestrutura existente. O risco, segundo o gestor, é perder uma das principais características de João Pessoa: o deslocamento relativamente rápido. “A cidade não pode seguir o caminho de grandes centros onde o cidadão leva horas para chegar em casa”, afirma.

Ele defende a implementação de um plano integrado de mobilidade, que contemple transporte público eficiente, ciclovias e melhores condições para pedestres.

Já na zeladoria urbana, que inclui coleta de lixo, manutenção e pequenos reparos, o problema é a inconsistência. Demandas que antes eram resolvidas em poucos dias passaram a demorar mais, gerando insatisfação. “É o básico que precisa funcionar sem depender de cobrança constante”, diz.


Da experiência na capital ao reconhecimento internacional


Durante a administração de Thiago, a política de participação popular em João Pessoa também ganhou visibilidade fora do país. Projetos desenvolvidos na capital paraibana foram apresentados em fóruns internacionais e chegaram a figurar entre iniciativas de destaque em avaliações globais.

Segundo Diniz, o diferencial está na combinação entre escuta e execução. “Não basta ouvir. É preciso dar retorno, transformar a demanda em ação concreta”, afirma.

A experiência chamou a atenção de representantes de outros países, que buscaram conhecer o modelo adotado na cidade para adaptá-lo a suas realidades.


Participação além das urnas


Se há um consenso entre especialistas e gestores, é que a participação popular ainda está aquém do seu potencial. Parte disso se deve à descrença na política, alimentada por episódios de corrupção e pela percepção de ineficiência do poder público.

Para Diniz, essa visão precisa ser enfrentada com informação e engajamento. “Assim como em qualquer profissão, há bons e maus profissionais na política. Mas existem gestores comprometidos, e eles precisam ser acompanhados e cobrados.”

Ele reforça que a Constituição brasileira estabelece que o poder emana do povo, não apenas no momento do voto, mas ao longo de todo o mandato dos representantes eleitos.


O desafio de transformar cultura política


Estimular a participação popular passa, portanto, por uma mudança cultural. Envolve incentivar a presença em reuniões comunitárias, o uso de canais institucionais e até mesmo a atuação nas redes sociais como forma de pressão legítima.

“Não dá para ser apenas espectador. O cidadão precisa ser protagonista da sua própria história e da sua comunidade”, afirma.


Entre avanços e limites


A experiência de João Pessoa mostra que a participação popular pode, de fato, influenciar a gestão pública e gerar resultados concretos. Mas também evidencia que ouvir a população é apenas parte do caminho.

O desafio maior está em garantir que essa escuta se traduza em políticas eficazes, com continuidade e capacidade de resposta. Em um cenário de demandas crescentes e recursos limitados, a participação deixa de ser apenas um ideal democrático, e passa a ser uma ferramenta estratégica de gestão.

No fim das contas, a pergunta que permanece é simples, mas decisiva: até que ponto o cidadão está disposto a sair da posição de eleitor para assumir o papel de agente ativo da democracia?

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