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Cultura geek “fura a bolha” em João Pessoa e transforma shopping em ponto de encontro

Atualizada em 03/03/2026 às 01:45 Por Redação
No meio da praça de alimentação, entre vitrines e filas de sorvete, um grupo atravessa o corredor com capas, perucas coloridas e espadas de plástico. Há quem estranhe, há quem pare para filmar e há, principalmente, quem se aproxime. Em João Pessoa, a cena que antes seria lida como “esquisita” virou sinal de um fenômeno em expansão: a cultura geek deixou de circular apenas entre iniciados e passou a ocupar espaços centrais, literalmente, no coração dos shoppings e na agenda cultural da cidade.

O crescimento é visível tanto no número de eventos quanto na variedade de formatos. A capital paraibana viu iniciativas pioneiras ajudarem a construir público e, com o tempo, abrir caminho para novas convenções e feiras de cultura pop, quadrinhos, games e cosplay. O que se consolida agora é um mercado de encontros e experiências, com impacto social, econômico e simbólico: o “nerd” deixa de ser rótulo pejorativo e vira identidade compartilhada.

Um público que cresce — e uma cena que se organiza

O que antes era considerado nicho hoje reúne milhares de pessoas na Paraíba, segundo organizadores e participantes do setor. Em João Pessoa, eventos como o HQPB, citado como um dos pioneiros, ajudaram a formar base para o surgimento de outras iniciativas. Ao longo do tempo, convenções como Supercon e AnimaX ampliaram o alcance. Mais recentemente, projetos como Orgulho Nerd, Jampa Geek Games e Nerdeste passaram a ocupar espaços maiores, atrair novos públicos e fortalecer a percepção de que o segmento ganhou espaço “definitivo” na cena cultural local.

A diversidade de propostas também contribui: há encontros voltados a quadrinhos independentes, campeonatos de games, exposições temáticas, debates sobre cultura pop, experiências com realidade virtual e jogos de tabuleiro, além de concursos e apresentações de palco. Parte desse movimento, como relatam organizadores, acompanha uma tendência nacional impulsionada por eventos de grande porte no país e, no Nordeste, pela ascensão de festivais com estrutura maior e atrações de alcance regional.

O que é “evento geek” — em português claro

“Geek”, nesse contexto, funciona como guarda-chuva. Segundo o coordenador Mateus Duarte, do Jampa Geek Games, o termo reúne manifestações que vão de super-heróis a animações japonesas e ocidentais, séries, filmes, dança e K-pop, além de doramas (novelas coreanas). A escolha do nome, ele explica, não é detalhe: “nerd”, por muito tempo, foi usado de forma pejorativa, “geek” aparece como alternativa mais leve para definir um público que se reconhece por gostos culturais e não por estereótipos.

Entre os elementos mais visíveis está o cosplay, abreviação de “costume play”, a prática de se vestir como um personagem. Na prática, é performance, brincadeira e sociabilidade: uma forma de dizer “eu pertenço” sem precisar explicar muito.

Shopping como palco: a estratégia de “furar a bolha”

Um dos pontos centrais do crescimento em João Pessoa, na leitura do organizador, é a ocupação de shoppings como espaço de eventos. O modelo tem uma particularidade: quando é no shopping, o evento é gratuito, reforça Duarte, o que amplia o acesso e atrai quem não iria a uma convenção tradicional.

A gratuidade e o fluxo natural do centro comercial cumprem uma função quase pedagógica: aproximam curiosos, famílias e pessoas que “conhecem super-heróis”, mas não conhecem o universo de encontros geek. É o que ele chama de “furar a bolha”: transformar a curiosidade — às vezes o estranhamento — em porta de entrada.

O próprio coordenador relata um episódio emblemático em Campina Grande: lojistas reclamaram de baixo fluxo no shopping durante o evento. A solução foi simples e reveladora: reunir cosplayers e circular pelos corredores. O que era visto como fantasia virou estratégia de marketing espontâneo. Lojas chamaram os personagens para fotos e postagens, e a circulação passou a ser, em si, atração.

Regras do espaço público

Levar um evento geek para dentro de um shopping também tem desafios. A circulação é “livre” e o ambiente tem normas próprias: máscaras, acessórios e armas cenográficas (comuns em cosplays) precisam respeitar regras de segurança. Segundo Duarte, a comunidade costuma aceitar bem as limitações, mas sempre há a necessidade de orientar e delimitar.

Esse ponto ajuda a entender por que a presença em espaços convencionais (como um evento pago, com controle de entrada) é diferente da versão em shopping. No evento fechado, há mais controle. No gratuito, há mais alcance. Um modelo complementa o outro.

Quem frequenta eventos do gênero reconhece o roteiro clássico: concurso de K-pop, concurso de cosplay, estandes. O Jampa Geek Games, na fala do coordenador, tenta ir além do básico com uma preocupação operacional: preencher o tempo do público, evitar “ociosidade” e oferecer atividades com as quais diferentes grupos se identifiquem.

Daí surgem apostas como karaokê e show de talentos. O karaokê, ele lembra, já existia em eventos mais antigos na Paraíba, mas perdeu espaço. Retomá-lo seria, ao mesmo tempo, resgatar uma tradição e dar palco à geração mais nova, inclusive para quem não canta “bem”, mas quer participar sem vergonha. O show de talentos segue a mesma lógica: abrir espaço para habilidades fora do eixo “cantar e dançar”, estimulando expressão e pertencimento.

Por trás da curadoria, há um princípio que Duarte repete: o evento é “muito sobre o público e pouco sobre os organizadores”. É uma frase que resume o tipo de cultura que esses encontros produzem: menos espetáculo distante, mais comunidade.

Um sinal de amadurecimento de qualquer cena cultural é quando ela deixa de falar apenas com seu público tradicional. No relato do coordenador, o evento incorpora um espaço das dorameiras (fãs de séries coreanas) com produtos, álbuns, itens de coleção e atividades de foto com trajes temáticos.

O resultado é um público que escapa do estereótipo do “gamer adolescente”. Entra a família, entram fãs de música e dança, entram pessoas atraídas por novelas asiáticas, entram curiosos. É a cultura pop funcionando como idioma comum.

Economia criativa: estandes, artistas e a vitrine que faltava

Além do entretenimento, há uma camada econômica: estandes de vendas e, sobretudo, a presença de artistas e ilustradores, que ganham espaço para expor trabalho e acessar um público que não necessariamente os procuraria fora dali.

Mateus descreve João Pessoa (e o Nordeste) como um território de muita gente talentosa com pouco “palco”. No evento, artistas pagam para participar — e, segundo ele, o valor é baixo quando comparado a outras convenções — em troca de visibilidade num ambiente de grande circulação.

O coordenador relata que a conexão com ilustradores veio de forma espontânea: em uma reunião de um grande evento, sentou ao lado de um ilustrador conhecido como Antunes; dali, nasceu um grupo com vários artistas e o convite para a primeira edição do Jampa. A demanda, ele diz, hoje é maior do que o espaço disponível, um tipo de problema que, para a economia criativa, costuma ser sinal de vitalidade.

A alma do evento: equipe pequena, identidade forte, comunidade fiel

Há, por fim, um elemento que não aparece em planilhas: o vínculo. Duarte descreve a equipe como reduzida, “que dá muito pelo evento”, e atribui o sucesso a esse esforço coletivo. Ele próprio se define como “canivete suíço”: já foi de design a logística, de coordenação a apresentação.

O discurso é o de quem conhece o outro lado do balcão: a equipe teria vindo de eventos menores, muitas vezes gratuitos, até em escolas e cidades do interior, aprendendo na prática o que funciona — e o que não funciona — para quem está ali como público.

Em um trecho mais íntimo do relato, ele conta que um colega com depressão diz sentir alívio nos dias de evento. Não é uma declaração sobre cura, mas um indicador do tipo de pertencimento que esses encontros podem gerar: para alguns, o evento é lazer; para outros, é refúgio.


No fim, a consolidação da cultura geek em João Pessoa diz menos sobre moda e mais sobre ocupação: de espaços, de narrativas, de autoestima coletiva. Quando personagens caminham por um shopping e viram atração — e, ao mesmo tempo, ferramenta de trabalho para lojas e artistas —, há uma mudança cultural em andamento.

A pergunta que fica não é se a cena vai continuar, mas como ela vai crescer: com mais estrutura, mais inclusão, mais diálogo com escolas, com políticas culturais e com a economia criativa. Se antes era “coisa de nicho”, agora é parte do retrato urbano de uma capital que descobre, entre capas e controles, uma forma contemporânea de se reunir.

A próxima edição do Jampa Geek Games foi anunciado para acontecer em março, no Mangabeira Shopping, em três dias (13, 14 e 15), com entrada gratuita, programação com atrações musicais e atividades ao longo do evento.

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