O crescimento é visível tanto no número de eventos quanto na variedade de formatos. A capital paraibana viu iniciativas pioneiras ajudarem a construir público e, com o tempo, abrir caminho para novas convenções e feiras de cultura pop, quadrinhos, games e cosplay. O que se consolida agora é um mercado de encontros e experiências, com impacto social, econômico e simbólico: o “nerd” deixa de ser rótulo pejorativo e vira identidade compartilhada.
A diversidade de propostas também contribui: há encontros voltados a quadrinhos independentes, campeonatos de games, exposições temáticas, debates sobre cultura pop, experiências com realidade virtual e jogos de tabuleiro, além de concursos e apresentações de palco. Parte desse movimento, como relatam organizadores, acompanha uma tendência nacional impulsionada por eventos de grande porte no país e, no Nordeste, pela ascensão de festivais com estrutura maior e atrações de alcance regional.
Entre os elementos mais visíveis está o cosplay, abreviação de “costume play”, a prática de se vestir como um personagem. Na prática, é performance, brincadeira e sociabilidade: uma forma de dizer “eu pertenço” sem precisar explicar muito.
A gratuidade e o fluxo natural do centro comercial cumprem uma função quase pedagógica: aproximam curiosos, famílias e pessoas que “conhecem super-heróis”, mas não conhecem o universo de encontros geek. É o que ele chama de “furar a bolha”: transformar a curiosidade — às vezes o estranhamento — em porta de entrada.
O próprio coordenador relata um episódio emblemático em Campina Grande: lojistas reclamaram de baixo fluxo no shopping durante o evento. A solução foi simples e reveladora: reunir cosplayers e circular pelos corredores. O que era visto como fantasia virou estratégia de marketing espontâneo. Lojas chamaram os personagens para fotos e postagens, e a circulação passou a ser, em si, atração.
Esse ponto ajuda a entender por que a presença em espaços convencionais (como um evento pago, com controle de entrada) é diferente da versão em shopping. No evento fechado, há mais controle. No gratuito, há mais alcance. Um modelo complementa o outro.
Daí surgem apostas como karaokê e show de talentos. O karaokê, ele lembra, já existia em eventos mais antigos na Paraíba, mas perdeu espaço. Retomá-lo seria, ao mesmo tempo, resgatar uma tradição e dar palco à geração mais nova, inclusive para quem não canta “bem”, mas quer participar sem vergonha. O show de talentos segue a mesma lógica: abrir espaço para habilidades fora do eixo “cantar e dançar”, estimulando expressão e pertencimento.
Por trás da curadoria, há um princípio que Duarte repete: o evento é “muito sobre o público e pouco sobre os organizadores”. É uma frase que resume o tipo de cultura que esses encontros produzem: menos espetáculo distante, mais comunidade.
O resultado é um público que escapa do estereótipo do “gamer adolescente”. Entra a família, entram fãs de música e dança, entram pessoas atraídas por novelas asiáticas, entram curiosos. É a cultura pop funcionando como idioma comum.
Mateus descreve João Pessoa (e o Nordeste) como um território de muita gente talentosa com pouco “palco”. No evento, artistas pagam para participar — e, segundo ele, o valor é baixo quando comparado a outras convenções — em troca de visibilidade num ambiente de grande circulação.
O coordenador relata que a conexão com ilustradores veio de forma espontânea: em uma reunião de um grande evento, sentou ao lado de um ilustrador conhecido como Antunes; dali, nasceu um grupo com vários artistas e o convite para a primeira edição do Jampa. A demanda, ele diz, hoje é maior do que o espaço disponível, um tipo de problema que, para a economia criativa, costuma ser sinal de vitalidade.
O discurso é o de quem conhece o outro lado do balcão: a equipe teria vindo de eventos menores, muitas vezes gratuitos, até em escolas e cidades do interior, aprendendo na prática o que funciona — e o que não funciona — para quem está ali como público.
Em um trecho mais íntimo do relato, ele conta que um colega com depressão diz sentir alívio nos dias de evento. Não é uma declaração sobre cura, mas um indicador do tipo de pertencimento que esses encontros podem gerar: para alguns, o evento é lazer; para outros, é refúgio.
A pergunta que fica não é se a cena vai continuar, mas como ela vai crescer: com mais estrutura, mais inclusão, mais diálogo com escolas, com políticas culturais e com a economia criativa. Se antes era “coisa de nicho”, agora é parte do retrato urbano de uma capital que descobre, entre capas e controles, uma forma contemporânea de se reunir.
