Com quase 20 anos de Polícia Civil, Sileide afirmou que a atuação na pauta se tornou uma “paixão” desde o início da carreira, ainda no interior, ao atender mulheres vítimas mesmo fora de unidades especializadas. Ela contou que passou a trabalhar diretamente nas delegacias da mulher a partir de 2017 e, desde 2022, coordena as unidades especializadas espalhadas pelo estado.
“A violência nasce no machismo”, diz delegada
Sileide também destacou que a violência é “democrática”, atingindo mulheres de diferentes classes sociais, mas com impactos distintos conforme a realidade de cada vítima. Ela citou situações de maior vulnerabilidade, como mulheres em dependência econômica, mulheres com deficiência, indígenas, quilombolas e moradoras de periferias, que podem enfrentar obstáculos ainda maiores para romper o ciclo.
Por que muitas vítimas voltam? “É um processo complexo”
Ela listou fatores que dificultam a ruptura: dependência afetiva, dependência financeira, medo de ameaças, ausência de apoio familiar e pressão social para “manter a família”. “Não existe mulher que gosta de apanhar. Existe uma mulher sem condições de denunciar o agressor naquele momento”, pontuou.
Violência não é só física: Lei Maria da Penha prevê cinco formas
Entre exemplos citados, ela mencionou controle excessivo, vigilância constante, proibição de roupas e amizades como sinais de violência psicológica, além de casos de violência patrimonial, como destruição de objetos, retenção de salário e controle financeiro. Sobre violência sexual, destacou que ela também pode ocorrer dentro do relacionamento, inclusive no chamado estupro marital, quando há relação sem consentimento.
Quando chamar 190, 197 e como pedir medida protetiva
Ela explicou ainda que a medida protetiva de urgência pode ser solicitada na delegacia e encaminhada ao Judiciário, podendo determinar o afastamento do agressor do lar, proibição de contato e distância mínima. O descumprimento pode levar à prisão e configura crime específico.
Sileide também mencionou serviços de apoio como a Patrulha Maria da Penha e ferramentas para situações de risco, incluindo acompanhamento e mecanismos de proteção, além da possibilidade de encaminhamento para casa abrigo quando há risco iminente.
Feminicídio: “Não é o primeiro episódio de violência”
Sileide também citou o avanço legislativo com o chamado pacote antifeminicídio, que endureceu a punição e ampliou mecanismos de proteção, reforçando que a responsabilização penal é importante, mas não substitui ações preventivas e educativas.
Campanhas e Carnaval: importunação sexual é crime
Sileide alertou ainda que situações em que a vítima não tem condições de consentir podem configurar crimes mais graves, como estupro de vulnerável, dependendo do caso.
Ao encerrar o episódio, a delegada reforçou que a violência contra a mulher não é um “problema de mulheres”, mas de toda a sociedade, com impactos na família, na economia e na segurança pública. “Cada pequena atitude conta. O mar seria menor se faltasse uma gota”, afirmou, ao defender a participação de homens e mulheres no enfrentamento à violência.

