João Pessoa ・ Sabado ・ 18 de abril de 2026 ・ 26º C

Dólar R$ 4,99 ・ Euro R$ 5,88

Vídeos

Coordenadora das Delegacias da Mulher enfatiza que combate ao feminicídio é dever de todos: “Sejamos a gota d’água”

Atualizada em 03/02/2026 às 18:26 Por Redação
Foto: Portal Ponto PB
Foto: Portal Ponto PB
A delegada Sileide Azevedo, coordenadora das Delegacias da Mulher da Paraíba, defendeu que o enfrentamento à violência contra a mulher depende de uma mobilização coletiva e passa por informação, acolhimento e denúncia. A fala foi feita durante participação no podcast Em Ponto, do Portal Ponto PB, em que ela detalhou como funciona o ciclo da violência, os tipos de agressão previstos na Lei Maria da Penha e os caminhos para pedir ajuda. O episódio foi ao ar nesta quinta-feira (29) e pode ser conferido na íntegra no final da reportagem.

Com quase 20 anos de Polícia Civil, Sileide afirmou que a atuação na pauta se tornou uma “paixão” desde o início da carreira, ainda no interior, ao atender mulheres vítimas mesmo fora de unidades especializadas. Ela contou que passou a trabalhar diretamente nas delegacias da mulher a partir de 2017 e, desde 2022, coordena as unidades especializadas espalhadas pelo estado.

“A violência nasce no machismo”, diz delegada


Segundo a delegada, a violência contra a mulher tem raiz no machismo e na ideia de que a mulher é “posse” do homem. Ela afirmou que o desafio é romper uma estrutura que, muitas vezes, é transgeracional, repassada dentro de lares onde crianças crescem presenciando agressões e normalizando comportamentos abusivos.

Sileide também destacou que a violência é “democrática”, atingindo mulheres de diferentes classes sociais, mas com impactos distintos conforme a realidade de cada vítima. Ela citou situações de maior vulnerabilidade, como mulheres em dependência econômica, mulheres com deficiência, indígenas, quilombolas e moradoras de periferias, que podem enfrentar obstáculos ainda maiores para romper o ciclo.

Por que muitas vítimas voltam? “É um processo complexo”


Ao comentar julgamentos comuns nas redes sociais — como a pergunta “por que ela voltou?” — a delegada reforçou que a violência doméstica não pode ser tratada de forma simplista. Ela explicou o funcionamento do ciclo da violência, que envolve fases de tensão, episódio de agressão e a chamada “lua de mel”, quando o agressor pede perdão, promete mudar e retoma um comportamento afetuoso — até que o ciclo recomece, geralmente em intervalos menores.

Ela listou fatores que dificultam a ruptura: dependência afetiva, dependência financeira, medo de ameaças, ausência de apoio familiar e pressão social para “manter a família”. “Não existe mulher que gosta de apanhar. Existe uma mulher sem condições de denunciar o agressor naquele momento”, pontuou.

Violência não é só física: Lei Maria da Penha prevê cinco formas


Sileide alertou que muitas vítimas não se reconhecem como vítimas porque associam violência apenas à agressão física. Ela explicou que a Lei Maria da Penha prevê cinco formas de violência: moral, patrimonial, sexual, psicológica e física.

Entre exemplos citados, ela mencionou controle excessivo, vigilância constante, proibição de roupas e amizades como sinais de violência psicológica, além de casos de violência patrimonial, como destruição de objetos, retenção de salário e controle financeiro. Sobre violência sexual, destacou que ela também pode ocorrer dentro do relacionamento, inclusive no chamado estupro marital, quando há relação sem consentimento.

Quando chamar 190, 197 e como pedir medida protetiva


A delegada orientou que, em situações de violência em curso, a recomendação é acionar o 190 para que a Polícia Militar intervenha e, se necessário, efetue prisão em flagrante. Para denúncias que podem ser feitas por terceiros, ela citou o 197, canal da Polícia Civil com garantia de anonimato, que permite o início de diligências e abordagem preventiva.

Ela explicou ainda que a medida protetiva de urgência pode ser solicitada na delegacia e encaminhada ao Judiciário, podendo determinar o afastamento do agressor do lar, proibição de contato e distância mínima. O descumprimento pode levar à prisão e configura crime específico.

Sileide também mencionou serviços de apoio como a Patrulha Maria da Penha e ferramentas para situações de risco, incluindo acompanhamento e mecanismos de proteção, além da possibilidade de encaminhamento para casa abrigo quando há risco iminente.

Feminicídio: “Não é o primeiro episódio de violência”


Ao abordar o feminicídio, a delegada destacou que ele é o ápice de uma escalada e geralmente é precedido por outras violências. Ela ressaltou a importância da denúncia para interromper esse processo e afirmou que medidas protetivas são instrumentos relevantes para reduzir riscos.

Sileide também citou o avanço legislativo com o chamado pacote antifeminicídio, que endureceu a punição e ampliou mecanismos de proteção, reforçando que a responsabilização penal é importante, mas não substitui ações preventivas e educativas.

Campanhas e Carnaval: importunação sexual é crime


Com a proximidade do Carnaval, a delegada lembrou que atos como beijo forçado, “passar a mão” e abordagens sem consentimento configuram importunação sexual, crime inserido no Código Penal em 2018. Ela orientou que, em ambientes de festa, a vítima deve buscar apoio imediato, acionar policiais presentes e evitar que o agressor se misture à multidão.

Sileide alertou ainda que situações em que a vítima não tem condições de consentir podem configurar crimes mais graves, como estupro de vulnerável, dependendo do caso.

“Sejamos a gota d’água”, diz delegada em mensagem final


Ao encerrar o episódio, a delegada reforçou que a violência contra a mulher não é um “problema de mulheres”, mas de toda a sociedade, com impactos na família, na economia e na segurança pública. “Cada pequena atitude conta. O mar seria menor se faltasse uma gota”, afirmou, ao defender a participação de homens e mulheres no enfrentamento à violência.


Banner

Relacionadas