João Pessoa ・ Sabado ・ 18 de abril de 2026 ・ 26º C

Dólar R$ 4,99 ・ Euro R$ 5,88

Vídeos

Animais exóticos: o crescimento de um mercado que exige responsabilidade e informação

Atualizada em 09/04/2026 às 21:28 Por Redação
Foto: Ponto PB
Foto: Ponto PB

O sapo cururu chamado Chico, tratado como membro da família em uma casa no interior da Paraíba, poderia parecer uma exceção curiosa. Mas não é. Histórias como essa ajudam a revelar uma transformação silenciosa: o Brasil, e também cidades como João Pessoa, começam a ampliar o conceito de pet.

Por trás desse movimento, está um campo ainda pouco compreendido fora dos círculos técnicos: a medicina veterinária voltada a animais silvestres e não convencionais. E, com ela, um debate que vai muito além da curiosidade, envolve saúde pública, legislação ambiental e mudanças culturais.

“É uma vida como qualquer outra”, resume o médico veterinário Gabriel Medeiros, especializado em animais exóticos, ao explicar por que atendeu um sapo de estimação durante uma viagem a Guarabira. “Se é importante para a pessoa, é importante para mim também.”


Uma profissão entre o estigma e a ciência


A expansão do cuidado com animais exóticos acontece, paradoxalmente, em meio à desvalorização histórica da própria medicina veterinária. Segundo Medeiros, ainda persiste a ideia de que o veterinário “cuida apenas de bichos”, como se estivesse distante da saúde humana.

Na prática, ocorre o contrário. O conceito de “saúde única”, cada vez mais difundido, integra saúde animal, humana e ambiental. “Não dá para separar. Um surto de doença, por exemplo, envolve fatores humanos, ambientais e animais ao mesmo tempo”, explica.

Esse entendimento tem implicações diretas no cotidiano. Doenças como a esporotricose (transmitida por gatos) ou acidentes com animais peçonhentos exigem conhecimento que, muitas vezes, está mais presente na rotina veterinária do que na medicina tradicional.

Ainda assim, a percepção social avança lentamente. “Falta tratar a medicina veterinária como medicina”, afirma o especialista.


O crescimento de um nicho — e seus limites


Se antes eram raros, os atendimentos a animais exóticos começam a ganhar espaço. Em João Pessoa, a demanda ainda é considerada “nichada”, mas em expansão.

O motivo não é apenas o aumento de tutores, mas também a circulação de informação. Redes sociais e relatos de atendimento têm contribuído para que donos de aves, répteis e pequenos mamíferos procurem assistência especializada.

Casos que antes passariam despercebidos, como uma calopsita doente ou uma galinha de estimação, agora chegam às clínicas.

Mas o crescimento do setor esbarra em desafios estruturais. A formação acadêmica ainda dedica pouco tempo ao tema, e o acesso a criatórios legalizados é limitado em algumas regiões. Em muitos casos, animais chegam de outros estados.


Legalidade: a linha que separa cuidado e crime


A popularização dos pets exóticos traz um ponto sensível: o risco de alimentar o tráfico de animais silvestres, uma das atividades ilegais mais lucrativas do país.

O alerta é direto. “Tão ruim quanto o traficante é quem compra sabendo que o animal é ilegal”, diz o veterinário.

A recomendação é clara: adquirir apenas animais de criatórios autorizados, com documentação, identificação e histórico de saúde. Além de garantir o bem-estar do animal, isso ajuda a enfraquecer redes ilegais.

O contraste é brutal. Em operações de combate ao tráfico, não é incomum encontrar dezenas de aves comprimidas em caixas ou animais mutilados para enganar compradores. “É chocante”, relata.


Humanizar ou respeitar?


Outro dilema frequente entre tutores é o limite entre cuidado e projeção humana sobre o animal.

A resposta, segundo especialistas, não é simples. “Depende”, diz Medeiros. Humanizar não é necessariamente prejudicial, mas pode se tornar um problema quando ignora as necessidades biológicas da espécie.

Um exemplo prático: cães não precisam de banhos excessivos, pois possuem óleos naturais que protegem a pele. Já répteis, como serpentes, exigem controle rigoroso de temperatura e alimentação.

“O melhor ato de amor é entender o que o animal precisa”, resume.


Medo, mitos e desinformação


Poucos animais carregam tantos estigmas quanto serpentes e aranhas. Culturalmente associadas ao perigo, são frequentemente mortas por medo, mesmo quando não representam ameaça.

Na realidade, ataques são raros e, em geral, defensivos. “A maioria dos acidentes acontece quando alguém tenta manipular o animal ou pisa nele sem perceber”, explica.

A orientação, nesses casos, é simples: manter distância e acionar órgãos ambientais.

O dado que costuma surpreender ajuda a relativizar o medo: o animal que mais mata no mundo não é uma cobra, mas o mosquito, vetor de doenças como dengue e malária.


O impacto invisível das pequenas ações


Se por um lado há medo excessivo de alguns animais, por outro há aproximações perigosas com outros, especialmente os considerados “fofos”, como saguis e capivaras.

Alimentar esses animais, prática comum em áreas urbanas e turísticas, pode causar uma cadeia de problemas: alteração de comportamento, agressividade, doenças e até morte.

“Você está condicionando o animal e prejudicando a saúde dele”, alerta o veterinário.

O mesmo vale para o descarte inadequado de lixo. No litoral, por exemplo, sacolas plásticas são frequentemente confundidas com alimento por tartarugas marinhas, levando à ingestão e morte.


Entre a cidade e a natureza


A presença crescente de animais silvestres em áreas urbanas, como capivaras atravessando avenidas ou jacarés em praias, evidencia outro fenômeno: a sobreposição entre cidade e habitat natural.

Esse contato aumenta riscos para ambos os lados. Animais podem sofrer atropelamentos ou ataques, enquanto humanos se expõem a acidentes e doenças.

Além disso, a introdução de espécies domésticas em ambientes naturais, como gatos abandonados, pode causar desequilíbrios ecológicos significativos, com impacto direto na fauna.


Um novo olhar sobre os “não fofos”


No fim das contas, a discussão sobre animais exóticos passa por uma mudança de percepção.

A chamada “fofofauna”, cães, gatos e animais tradicionalmente vistos como dóceis, ainda domina o imaginário afetivo. Mas há um universo de espécies que, embora menos carismáticas aos olhos humanos, desempenham papéis essenciais nos ecossistemas.

“Não é porque ele é feio para você que a vida dele vale menos”, diz Medeiros.


O futuro: informação como ferramenta


A tendência é de crescimento, tanto da procura por animais não convencionais quanto da demanda por atendimento especializado. Mas o avanço sustentável desse setor depende de três pilares: informação, legalidade e respeito.

Isso inclui desde escolhas conscientes na aquisição de pets até atitudes simples no dia a dia, como não alimentar animais silvestres ou descartar corretamente o lixo.

No centro desse processo, está a educação.

Porque, entre o medo e o fascínio, o que define a relação com os animais, sejam eles um cachorro, uma serpente ou um sapo chamado Chico, ainda é, sobretudo, o conhecimento.

Banner

Relacionadas