Um vídeo publicado nas redes sociais reacendeu nesta semana o debate sobre os engarrafamentos em João Pessoa. No desabafo, um motorista argumenta que o crescimento da frota não é o único motivo para a lentidão nas vias e aponta também um problema de comportamento: a resistência de parte dos condutores em liberar a faixa da esquerda, especialmente em corredores de maior velocidade como a BR-230.
Segundo ele, mesmo quando a via está livre à frente, alguns motoristas permanecem na faixa da esquerda em velocidades menores e não facilitam a passagem de quem pretende circular mais próximo do limite regulamentado.
O vídeo ganhou repercussão e dividiu opiniões. Enquanto alguns usuários concordaram que a ocupação inadequada da faixa da esquerda prejudica a fluidez, outros lembraram que a velocidade máxima da via continua valendo para todos e que abrir passagem não significa autorizar excesso de velocidade.
O que diz o Código de Trânsito?
Nesse ponto, o Código de Trânsito Brasileiro é claro.
Quando uma pista possui várias faixas no mesmo sentido, as faixas da direita são destinadas, em regra, aos veículos mais lentos e de maior porte, enquanto as da esquerda são destinadas às ultrapassagens e aos veículos de maior velocidade.
O artigo 30 estabelece ainda que, ao perceber que outro motorista deseja ultrapassar, quem estiver na faixa da esquerda deve deslocar-se para a faixa da direita, sem acelerar.
Isso vale mesmo que o motorista da frente esteja trafegando no limite máximo permitido.
A regra, porém, não significa que o veículo que deseja ultrapassar possa exceder a velocidade regulamentada. São duas obrigações diferentes: facilitar a ultrapassagem e respeitar o limite da via.
Nem toda a BR-230 tem limite de 80 km/h
Outro ponto que exige atenção é o limite de velocidade.
Embora existam trechos da BR-230 na Região Metropolitana com limite de 80 km/h, não é correto afirmar que toda a rodovia dentro de João Pessoa tenha essa velocidade máxima.
Em abril de 2026, sete novos radares começaram a operar em trechos da BR-230 na Grande João Pessoa, com velocidades regulamentadas que variam entre 50 km/h e 80 km/h, conforme o ponto da rodovia.
Por isso, o motorista deve seguir sempre a sinalização existente em cada trecho.
Frota de João Pessoa cresceu quase 50% em dez anos
O problema levantado no vídeo ocorre dentro de um cenário mais amplo de crescimento acelerado da quantidade de veículos.
João Pessoa terminou 2025 com cerca de 504,5 mil veículos registrados. Dez anos antes, eram aproximadamente 355 mil.
Isso representa um crescimento de quase 50% na frota em uma década.
A expansão foi muito superior ao crescimento populacional no mesmo intervalo e aumentou a pressão sobre corredores que não tiveram ampliação física equivalente.
Dados mais recentes da Senatran continuam sendo atualizados mensalmente em 2026 e mostram que o município permanece com uma frota superior a meio milhão de veículos registrados.
Manaíra, Altiplano e corredores para a orla sentem pressão
Na malha urbana, alguns dos congestionamentos mais frequentes aparecem nos corredores que ligam bairros residenciais e comerciais à orla e ao Centro.
Entre os pontos constantemente citados estão:
- Avenida Flávio Ribeiro Coutinho, o Retão de Manaíra;
- Avenida João Maurício;
- Avenida Ruy Carneiro;
- Avenida Epitácio Pessoa;
- acessos ao Altiplano;
- Avenida Beira Rio;
- corredores de Bancários, Mangabeira e Zona Sul.
Levantamentos sobre mobilidade na capital apontam Epitácio Pessoa, João Maurício e Ruy Carneiro entre os corredores com congestionamentos recorrentes nos horários de maior movimento.
No Altiplano, a própria Semob-JP promoveu alterações de circulação em vias internas neste ano com o objetivo declarado de melhorar segurança e fluidez, após demandas de moradores.
BR-230 tornou-se um dos principais gargalos
A BR-230 merece atenção especial porque funciona, na prática, também como uma avenida metropolitana.
Ela recebe simultaneamente veículos em viagens interestaduais, deslocamentos entre João Pessoa, Cabedelo e Bayeux e trajetos internos entre diferentes bairros da capital.
Em setembro, episódios envolvendo chuva e acidentes voltaram a produzir congestionamentos extensos no trecho João Pessoa–Cabedelo. Reportagens registraram filas desde as primeiras horas do dia e reclamações recorrentes de usuários.
A situação mostra como qualquer ocorrência em uma das faixas pode rapidamente produzir reflexos em vários bairros.
Obras também interferem na circulação
Além da quantidade de carros e do comportamento dos motoristas, João Pessoa atravessa um período com diversas intervenções viárias.
Na Avenida Epitácio Pessoa, por exemplo, a Prefeitura iniciou neste mês uma extensão da rede de drenagem nas proximidades do viaduto da BR-230.
Para reduzir o impacto, os serviços são executados por etapas e principalmente entre 20h e 5h, evitando o bloqueio simultâneo de todas as faixas.
Na Zona Sul, obras também ocorreram recentemente na ligação entre Mangabeira e Valentina, por causa da implantação da nova ponte sobre o Rio Cuiá.
Bancários e Mangabeira também recebem intervenções de drenagem que podem provocar alterações temporárias de circulação.
Trânsito municipal, estadual e federal se mistura na capital
Uma característica de João Pessoa é que o motorista pode passar por vias sob diferentes responsabilidades durante um mesmo deslocamento.
A Semob-JP administra a maior parte das vias municipais e atua no planejamento, fiscalização, semáforos e operação do trânsito urbano.
A BR-230, por outro lado, é uma rodovia federal. A infraestrutura é de responsabilidade do DNIT e a fiscalização rodoviária é realizada pela Polícia Rodoviária Federal.
Há ainda rodovias estaduais e acessos metropolitanos administrados pelo Estado, especialmente nas conexões com municípios vizinhos.
Na prática, porém, todas essas estruturas fazem parte do mesmo sistema diário de deslocamentos da população.
Problema não é apenas quantidade de carros
Especialistas em mobilidade já apontam que a infraestrutura viária da capital não conseguiu crescer no mesmo ritmo da frota.
Com mais de meio milhão de veículos registrados, aumentar indefinidamente a quantidade de faixas também não é uma solução simples.
O funcionamento do trânsito depende de uma combinação de fatores: transporte coletivo, engenharia de tráfego, fiscalização, horários de deslocamento, acidentes, obras, semáforos e também comportamento dos motoristas.
É exatamente nesse último ponto que o vídeo viral toca.
Manter-se indevidamente na faixa da esquerda, mudanças bruscas de faixa, falta de sinalização com seta, redução de velocidade para observar acidentes, estacionamento irregular e bloqueio de cruzamentos podem diminuir ainda mais a capacidade de uma via já saturada.
Abrir passagem não significa apoiar excesso de velocidade
A discussão nas redes também revelou uma confusão comum.
Um motorista pode pensar: “Estou a 80 km/h, que é o limite, então não preciso sair da esquerda”.
Pelo CTB, essa interpretação não é a mais adequada.
Se outro veículo demonstra intenção de ultrapassar, quem ocupa a esquerda deve permitir a passagem quando houver condições seguras.
Se o veículo de trás ultrapassar o limite de velocidade, essa eventual infração será responsabilidade dele e poderá ser registrada pela fiscalização.
Ou seja: não cabe ao motorista da frente utilizar o próprio veículo para controlar a velocidade de quem vem atrás.
Da mesma forma, o motorista que pede passagem não ganha autorização para dirigir acima do limite, pressionar o veículo da frente ou realizar manobras perigosas.
Debate expõe um trânsito cada vez mais pressionado
O vídeo não resolve sozinho a discussão sobre os congestionamentos em João Pessoa, mas acrescenta um componente frequentemente deixado em segundo plano.
A cidade tem mais veículos, bairros que cresceram rapidamente, corredores operando próximos da capacidade e obras que interferem temporariamente no fluxo.
Ao mesmo tempo, as regras de circulação e a forma como cada motorista utiliza as faixas também têm impacto na fluidez.
Entre infraestrutura, aumento da frota e comportamento ao volante, o trânsito de João Pessoa se tornou um problema que dificilmente terá uma única causa — ou uma única solução.

