E, quando arromba, pouco importa se a casa é simples ou se tem sobrenome tradicional pendurado na parede.
No último sábado, dia 24, João Pessoa assistiu a mais um desses arrombamentos. A médica e influenciadora Raphaella Brilhante procurou a polícia para registrar um boletim de ocorrência contra o próprio marido.
Nos vídeos anexados à denúncia, o agressor a agredindo.
Ele tem nome, sobrenome e árvore genealógica conhecida: João Lima, filho de Cicinho Lima, neto de Pinto do Acordeon. Uma família tradicional na música, na política e no imaginário paraibano. Tradicional, mas não imune.
E talvez aí esteja a primeira lição incômoda: a violência contra a mulher é democrática.
Ela circula livremente entre bairros, cores, idades e diplomas. Não pede CPF nem consulta extrato bancário. Ela apenas acontece e, quase sempre, se alimenta de uma estrutura que a gente finge não ver.
E quando alguém questiona frases que objetificam, diminuem ou coisificam mulheres, às vezes vem o rótulo pronto: mimimi, lacração, exagero.
O exagero, no entanto, costuma chegar depois, em forma de tapa, empurrão, soco ou silêncio.
A Polícia Civil pediu a prisão. A Justiça acatou. Ela foi cumprida.
João Lima compareceu à Delegacia da Mulher. Entrou pela porta dos fundos.
Chegou acompanhado do pai, de advogados, de um aparato que não costuma acompanhar todos os acusados do mesmo crime. Foi encaminhado ao Presídio do Roger, onde não existem camarotes, apenas celas. Todos vestem o mesmo figurino: o da privação de liberdade.
A violência contra a mulher não é espetáculo e a lei tem que valer para todos. Sem portas alternativas.
Porque agressão não tem sobrenome. E justiça não pode ter camarote.
