Coordenadora estadual da iniciativa, Camila explicou que a violência doméstica não pode ser tratada apenas como um problema pontual ou individual. Segundo ela, trata-se de uma questão estrutural e cultural, reconhecida inclusive pela Organização das Nações Unidas (ONU), que aponta o ambiente doméstico como um dos espaços mais inseguros para muitas mulheres no mundo.
“Quando a violência se repete, é porque ela foi ensinada, tolerada ou silenciada. Por isso, o foco do Antes que Aconteça é prevenir, informar e conscientizar, para que esse ciclo seja interrompido antes que se transforme em tragédia”, afirmou.
Dentro dessa lógica, um dos pilares do programa é a Sala Lilás, espaço pensado para oferecer acolhimento humanizado a mulheres em situação de violência. Longe da atmosfera formal e, muitas vezes, intimidante das delegacias tradicionais, as salas funcionam como uma porta de entrada segura, com atendimento psicológico imediato, orientação social e encaminhamentos adequados. O ambiente também considera a presença dos filhos, com espaços e brinquedos para crianças que acompanham as mães no momento da denúncia.
Os números ajudam a dimensionar a importância da iniciativa. Entre março e novembro, as duas primeiras Salas Lilás, instaladas em João Pessoa e Campina Grande, realizaram quase 700 atendimentos. Para a coordenação do programa, o dado revela tanto a confiança das mulheres no serviço quanto a urgência de políticas públicas voltadas à prevenção.
Com orçamento já assegurado, o Governo da Paraíba prevê a implantação de 52 Salas Lilás em todo o estado, ampliando a rede de acolhimento de forma estratégica e descentralizada. A expansão depende agora apenas de etapas administrativas e processos de licitação.
Durante a entrevista, Camila Mariz também comentou os dados de feminicídio na Paraíba. Até 11 de novembro, foram registrados 35 casos, e nenhum deles envolvia vítimas com medida protetiva ativa. Para ela, o dado desmonta a ideia de que a maioria dos crimes ocorre após denúncias formais e reforça uma realidade silenciosa: muitas mulheres não conseguem denunciar, não se reconhecem como vítimas ou não encontram apoio suficiente para romper o ciclo de violência.
Outro eixo central do Antes que Aconteça é a educação. O programa vem sendo integrado à rede estadual de ensino, alcançando diretamente mais de 200 mil estudantes. A expectativa é que, de forma direta e indireta, as ações de conscientização cheguem a cerca de 1 milhão de paraibanos.
“Mudar essa realidade exige tempo e diálogo. É um trabalho de desconstrução de uma cultura machista que precisa começar cedo, dentro da escola, formando cidadãos mais conscientes e respeitosos”, destacou.
A atuação do programa se soma a outras políticas públicas e instituições da rede de proteção, como as 21 Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher existentes no estado, reforçando que o enfrentamento da violência doméstica é um compromisso coletivo.
Ao final, Camila também chamou atenção para um tema que ainda recebe pouca visibilidade: os órfãos do feminicídio. Segundo ela, embora existam políticas nacionais voltadas a esse público, é preciso ampliar o olhar e o cuidado com crianças e adolescentes que carregam marcas profundas da violência.
“O Antes que Aconteça não é apenas sobre reagir à violência, mas sobre mudar a forma como a sociedade se relaciona com as mulheres. Informação, educação e denúncia são caminhos essenciais para que a violência seja interrompida antes que aconteça”, concluiu.
Ao final, Camila também chamou atenção para um tema que ainda recebe pouca visibilidade: os órfãos do feminicídio. Segundo ela, embora existam políticas nacionais voltadas a esse público, é preciso ampliar o olhar e o cuidado com crianças e adolescentes que carregam marcas profundas da violência.
“O Antes que Aconteça não é apenas sobre reagir à violência, mas sobre mudar a forma como a sociedade se relaciona com as mulheres. Informação, educação e denúncia são caminhos essenciais para que a violência seja interrompida antes que aconteça”, concluiu.

