O alvo da divergência velada é o projeto da Ponte do Futuro, a maior obra de infraestrutura rodoviária em execução pelo Governo do Estado.
Há cerca de uma semana, em uma publicação que destacava o avanço das obras do complexo viário, o vereador licenciado e atual superintendente executivo de mobilidade urbana da capital (Semob-JP), Marcílio do HBE, deixou um registro curto em uma de suas contas pessoais no Instagram.
Sem citar nomes, o superintendente escreveu: "E ainda tem gente que diz que não fazia. Pensamento medíocre."
A efemeridade das redes sociais fez com que a postagem não gerasse alarde imediato na web. No entanto, para bom entendedor de bastidores, a declaração foi lida como um recado com endereço protocolado.
O termo "medíocre", vindo de um integrante do primeiro escalão da gestão municipal da capital, soou pesado para o ecossistema de alianças, o que pode ter revelado um tom "azedo" para duas lideranças que caminham no mesmo bloco.
Para interlocutores que acompanham a política da Paraíba, a fala de Marcílio pode ter tido destino certo: o ex-prefeito e pré-candidato ao governo do estado, Cícero Lucena (MDB).
Semanas atrás, durante uma entrevista concedida a uma emissora de rádio, Cícero adotou uma postura surpreendentemente cética em relação à Ponte do Futuro. Na ocasião, ele minimizou o impacto imediato do projeto e questionou publicamente a real necessidade de um investimento daquela magnitude no momento, sugerindo que o estado possuía outras prioridades, inclusive citando que a ponte não levaria água pra ninguém.
Como Cícero foi a única voz de peso dentro do próprio arco de alianças a se posicionar publicamente de forma contrária à viabilidade da obra, a associação do comentário de Marcílio ao ex-prefeito tornou-se inevitável nos bastidores.
O que é a Ponte do Futuro?
O motivo de o tema ser tão sensível reside na magnitude do projeto. O Complexo Rodoviário Ponte do Futuro é a principal vitrine de investimentos do Governo do Estado da Paraíba, com orçamento estimado em R$ 465,5 milhões.
A obra tem como meta principal reconfigurar toda a logística de transporte da Região Metropolitana, eliminando gargalos históricos de tráfego e extinguindo a dependência do sistema de balsas para a travessia de veículos pesados.
O complexo terá duas grandes estruturas sobre a água. A maior delas, ligando Cabedelo a Santa Rita, terá 2.156 metros de extensão sobre o Rio Paraíba. A segunda ponte, sobre o Rio da Guia (em Lucena), terá 420 metros. As pistas contarão com 7,2 metros de largura, acostamento de 2,5 metros, calçadão para pedestres e uma ciclovia bidirecional de 2,5 metros.
O projeto inclui a pavimentação de 11,2 km da rodovia PB-011 (ligando Forte Velho a Lucena) e melhorias na PB-025 até o entroncamento com a BR-101. Está em construção um viaduto de 40 metros sobre a linha férrea, projetado para eliminar o cruzamento em nível com os trens urbanos (VLT) e evitar retenções no fluxo. Estimativas do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-PB) apontam que o complexo retirará cerca de 500 caminhões de carga por dia de dentro das avenidas urbanas de João Pessoa, desviando o fluxo logístico do Porto de Cabedelo diretamente para as rodovias federais.
Com as frentes de serviço avançando na colocação de estacas e terraplenagem, a obra segue seu cronograma técnico. Se no canteiro de obras o ritmo é ditado pelas máquinas, nos bastidores políticos o termômetro agora passa a medir a intensidade desse ruído digital, avaliando se o descontentamento silencioso pode evoluir para um distanciamento definitivo na composição das chapas.
