A experiência recente de João Pessoa ilustra esse movimento. À frente de ações voltadas à escuta ativa da população por quase cinco anos, o gestor público Thiago Diniz defende que a democracia não se encerra nas urnas. “O voto é o ponto de partida. A partir dele, é preciso acompanhar, cobrar e participar”, afirma.
A ponte entre o cidadão e o poder público
Durante sua atuação na área, Diniz descreve o papel como o de um intermediador entre o desejo da população e os limites administrativos do Estado. “Existe aquilo que a população sonha, o que é possível tramitar e o que o orçamento permite executar. O desafio é equilibrar essas três dimensões”, explica.
João Pessoa está dividida em 14 regiões, com 65 bairros e mais de 170 comunidades, um mosaico urbano que exige capilaridade na gestão. Para dar conta dessa diversidade, foram realizadas plenárias e encontros comunitários, além da criação de programas que levavam o poder público diretamente às comunidades.
Um dos exemplos citados é a construção da Praça de Iemanjá, fruto de diálogo de Thiago com representantes de religiões de matriz africana. O projeto, segundo o gestor, nasceu de uma demanda coletiva e percorreu um processo participativo até sua execução.
Ouvir, diagnosticar, agir
“Você ouve dores muito concretas: a mãe que precisa de creche, o morador que quer a rua pavimentada, o paciente que aguarda atendimento. A partir disso, você busca caminhos dentro da máquina pública”, relata.
Essa dinâmica, segundo ele, proporciona um aprendizado direto sobre as desigualdades urbanas e as prioridades reais da população, muitas vezes distantes da agenda institucional.
Os gargalos persistentes
Na saúde, o desafio vai além da infraestrutura. Embora reformas em unidades tenham sido realizadas, persistem problemas como longas filas para exames e cirurgias, além da falta de medicamentos e profissionais em determinados períodos.
Na mobilidade urbana, o crescimento acelerado da cidade tem pressionado a infraestrutura existente. O risco, segundo o gestor, é perder uma das principais características de João Pessoa: o deslocamento relativamente rápido. “A cidade não pode seguir o caminho de grandes centros onde o cidadão leva horas para chegar em casa”, afirma.
Ele defende a implementação de um plano integrado de mobilidade, que contemple transporte público eficiente, ciclovias e melhores condições para pedestres.
Já na zeladoria urbana, que inclui coleta de lixo, manutenção e pequenos reparos, o problema é a inconsistência. Demandas que antes eram resolvidas em poucos dias passaram a demorar mais, gerando insatisfação. “É o básico que precisa funcionar sem depender de cobrança constante”, diz.
Da experiência na capital ao reconhecimento internacional
Segundo Diniz, o diferencial está na combinação entre escuta e execução. “Não basta ouvir. É preciso dar retorno, transformar a demanda em ação concreta”, afirma.
A experiência chamou a atenção de representantes de outros países, que buscaram conhecer o modelo adotado na cidade para adaptá-lo a suas realidades.
Participação além das urnas
Para Diniz, essa visão precisa ser enfrentada com informação e engajamento. “Assim como em qualquer profissão, há bons e maus profissionais na política. Mas existem gestores comprometidos, e eles precisam ser acompanhados e cobrados.”
Ele reforça que a Constituição brasileira estabelece que o poder emana do povo, não apenas no momento do voto, mas ao longo de todo o mandato dos representantes eleitos.
O desafio de transformar cultura política
“Não dá para ser apenas espectador. O cidadão precisa ser protagonista da sua própria história e da sua comunidade”, afirma.
Entre avanços e limites
O desafio maior está em garantir que essa escuta se traduza em políticas eficazes, com continuidade e capacidade de resposta. Em um cenário de demandas crescentes e recursos limitados, a participação deixa de ser apenas um ideal democrático, e passa a ser uma ferramenta estratégica de gestão.
No fim das contas, a pergunta que permanece é simples, mas decisiva: até que ponto o cidadão está disposto a sair da posição de eleitor para assumir o papel de agente ativo da democracia?

