>A história profissional de Marcos esteve diretamente ligada a uma mudança radical vivida pela família Pires. Durante a juventude, ele estudava Economia na PUC, no Rio de Janeiro, período em que a família ainda vivia uma fase de prosperidade financeira. Com a perda dos bens dos pais, abandonou o curso, retornou a João Pessoa e prestou vestibular para Direito na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
>A escolha tinha uma motivação familiar. Anos depois, Marcos contou que os pais precisavam de assistência jurídica, mas já não tinham condições financeiras de contratar advogados. Por isso, decidiu seguir o Direito para atuar na defesa de Creuza e Adrião e enfrentar os processos decorrentes da crise econômica da família.
Quatro décadas na advocacia
>Marcos Pires exerceu a advocacia durante cerca de 40 anos. Em um texto publicado em maio de 2025, ao relembrar episódios da carreira, escreveu que havia militado intensamente na profissão durante quatro décadas, inclusive aos fins de semana e feriados.>Entre as áreas em que atuou esteve o Direito Eleitoral. Marcos recordava, por exemplo, uma época em que acompanhava de forma frequente as sessões do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB), além de ter participado de disputas judiciais relacionadas a diferentes momentos econômicos do país.
>A tradição jurídica seguiu na família. O filho Pedro Pires também se tornou advogado. Marcos era ainda pai de Carolina Pires.
>Em outubro de 2025, a família havia enfrentado outra perda. O advogado David Pires, irmão de Marcos, morreu aos 68 anos. Na ocasião, a Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Paraíba (OAB-PB), destacou a trajetória profissional de David. Marcos também era irmão do advogado Daniel Pires.
Da advocacia aos causos de João Pessoa
>A atuação de Marcos Pires, porém, ultrapassou os tribunais. Nas páginas em que mantinha textos e crônicas, ele era apresentado de uma maneira que acabou funcionando quase como uma definição pública de sua trajetória: “advogado, contador de causos e criador do Bloco Baratona”.>Marcos escrevia sobre histórias de João Pessoa, advocacia, política, comportamento e personagens que conheceu ao longo da vida. O humor e as memórias pessoais eram características frequentes dos textos.
>Parte dessas histórias também foi transformada em livro. Ele publicou “Advogando: o Livrinho de Marcos Pires”, obra de 264 páginas dedicada a episódios e causos relacionados principalmente à vida jurídica.
>Até meses antes da morte, Marcos continuava publicando textos. Em 2026, mantinha produção como colunista e escrevia sobre assuntos que iam das lembranças familiares ao cotidiano e à política.
Baratona e uma relação de mais de meio século com o carnaval
>Outra marca deixada por Marcos na cultura pessoense foi a Baratona. Criado por ele, o bloco tornou-se uma das manifestações tradicionais do carnaval de rua da Capital.>A origem da brincadeira fazia referência a uma maratona. Na versão criada por Marcos, em vez dos 42 quilômetros de uma prova esportiva, a ideia inicial envolvia 42 bares. Com o passar dos anos, o formato mudou e a Baratona se consolidou como cortejo embalado principalmente pelo frevo.
>O bloco tinha características próprias: não adotava abadá, camiseta obrigatória ou cordão de isolamento e não cobrava dos participantes. Marcos também defendia que a Baratona fosse realizada sem utilização de recursos públicos. Em fevereiro de 2025, ele anunciou a 53ª edição do evento, com percurso pela orla de Cabo Branco em direção ao Largo da Gameleira.
>O vínculo com o carnaval vinha de família. Marcos contava que o avô materno, Manuel dos Anjos, além de poeta e fundador da Academia Paraibana de Poesia, também havia criado blocos carnavalescos. A mãe, Creuza, foi fundadora do Bloco da Melhor Idade, uma das agremiações conhecidas do pré-carnaval pessoense.
Filho de Dona Creuza
>Falar da trajetória de Marcos Pires também passa pela história de Dona Creuza Pires, uma das personagens marcantes da vida política, empresarial, social e cultural de João Pessoa.>Creuza dos Anjos Pires Bezerra foi empresária e vereadora da Capital. Ao lado do marido, Adrião Pires, esteve à frente de empreendimentos como a Gran Pires, loja de departamentos instalada no Parque Solon de Lucena e que marcou época no comércio pessoense.
>Depois da perda da condição financeira que a família havia alcançado, Creuza manteve presença ativa na cidade. Foi eleita vereadora em 1992 e desenvolveu trabalhos ligados principalmente a ações sociais e à população idosa. Também esteve diretamente envolvida com o carnaval da Capital. Ela morreu em 2009, aos 81 anos.
>Em 2024, o Governo da Paraíba sancionou a lei que deu o nome de Dona Creuza Pires ao Hospital da Mulher, no bairro de Cruz das Armas. A unidade foi inaugurada em agosto de 2025. Marcos acompanhou de perto a homenagem feita à mãe e comemorou publicamente a aprovação do nome pela Assembleia Legislativa da Paraíba.
Uma vida transformada em histórias
>Em um perfil publicado em agosto deste ano, o advogado Rinaldo Mouzalas reuniu algumas das histórias que ajudaram a construir a imagem pública de Marcos para além dos tribunais. O texto lembra que ele morou no Rio de Janeiro, comandou uma boate, percorreu cinco vezes o Caminho de Santiago e atravessou a Ilha de Páscoa.>Marcos também costumava transformar as próprias mudanças de vida em tema de seus textos. Tendo conhecido tanto um período de grande prosperidade da família quanto a posterior crise financeira, passou a narrar essas experiências com humor e sem esconder os contrastes.
>A ligação com João Pessoa aparecia constantemente nessas memórias: os antigos estabelecimentos comerciais, as transformações da cidade, a praia de Cabo Branco, o carnaval, os amigos, os personagens da advocacia e as histórias da família Pires.
>Foi assim que, entre processos judiciais, crônicas, carnaval e incontáveis causos, Marcos Pires construiu uma trajetória que acabou se confundindo com parte da memória social e cultural de João Pessoa.

