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Paraíba

Imagens de satélite revelam sinais de degradação no Açude Velho, em Campina Grande

Publicado em 26/01/2026 às 11:00 Por Redação
Foto: Lápis
Foto: Lápis
Antes que toneladas de peixes fossem encontradas mortos no Açude Velho, em Campina Grande, o reservatório já dava sinais visíveis de degradação. É o que mostram imagens de satélite analisadas pelo Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lápis), ligado à Universidade Federal de Alagoas (Ufal), sob coordenação do professor Humberto Barbosa.

Os registros, feitos entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, revelam uma mudança gradual na coloração da água, indicando a entrada e a dispersão de esgoto no açude, além de uma intensa proliferação de algas. Esses fatores reduziram drasticamente o oxigênio disponível na água, criando um ambiente hostil para a sobrevivência dos peixes.

Segundo o pesquisador, embora o Açude Velho já conviva historicamente com a poluição, o estudo aponta que a eutrofização — processo provocado pelo excesso de nutrientes na água — não explica sozinha a tragédia ambiental. O despejo irregular de esgoto e o aumento inesperado do volume de água no período que antecedeu a mortandade tiveram papel decisivo no colapso do ecossistema.

“As imagens mostram um processo claro de degradação. Primeiro, a água assume um tom esbranquiçado, resultado da dispersão de poluentes. Depois, passa ao verde intenso, típico da explosão de algas. Por fim, chega ao escurecimento associado à morte dos peixes”, explicou Humberto Barbosa.

O estudo foi encaminhado ao Ministério Público da Paraíba (MPPB), que acompanha a investigação sobre o despejo irregular de efluentes no reservatório. O laboratório já atuou em outros episódios de grande impacto ambiental no país, como o derramamento de óleo no litoral nordestino e áreas afetadas por mineração.


As imagens analisadas ajudam a entender a evolução do problema. Em julho de 2025, o açude apresentava uma coloração considerada “normal”, dentro do histórico de poluição do local. Em novembro, surgem manchas esbranquiçadas que se espalham com a ação dos ventos, especialmente a partir do Canal das Piabas, principal ponto de entrada de esgoto.

Em dezembro, a água ganha tons esverdeados, sinal do crescimento excessivo de algas e fitoplâncton. Já em janeiro de 2026, o cenário se agrava: a água escurece e os primeiros focos de peixes mortos aparecem, marcando o início da mortandade em larga escala.

Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi o aumento do volume de água entre dezembro e janeiro, sem registro de chuvas significativas no período. Para o professor, esse crescimento pode estar ligado ao lançamento contínuo de esgoto ou à entrada de outros materiais ainda não identificados.

“Em condições normais, o aumento do volume deveria favorecer a oxigenação da água. O fato de isso não ter acontecido reforça a hipótese de uma contaminação severa”, afirmou.


Enquanto o estudo aponta para a influência direta da poluição, a Prefeitura de Campina Grande sustenta que o episódio está relacionado a um fenômeno natural conhecido como Circulação Vertical Turbulenta da Coluna d’Água. Segundo a administração municipal, condições climáticas específicas teriam provocado a liberação de gases tóxicos acumulados no fundo do açude, levando à morte dos peixes.

Diante da gravidade do episódio, a prefeitura anunciou que deve lançar ainda no primeiro semestre de 2026 uma licitação para a revitalização do Açude Velho. O projeto prevê a construção de uma estação de tratamento de esgoto e obras de desassoreamento, com investimento estimado em mais de R$ 30 milhões. Ainda não há prazo para o início das intervenções.

Mesmo sem ser responsável pelo abastecimento da cidade, o Açude Velho segue como um dos principais cartões-postais de Campina Grande. A tragédia ambiental reacende o debate sobre a preservação do reservatório e o cuidado com um patrimônio histórico e simbólico para a população.

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