A democracia brasileira chega às eleições de 2026 carregando contradições de um país que ainda tenta amadurecer suas instituições. De um lado, a liberdade de expressão, o direito ao contraditório e a possibilidade de contestar governos fazem parte da experiência democrática. De outro, persistem a desinformação, a polarização política, a dificuldade de compreensão sobre o funcionamento do Estado e uma estrutura eleitoral na qual, segundo o sociólogo e professor Gonzaga Júnior, partidos e grupos políticos ainda exercem forte influência sobre os eleitores.
Em entrevista ao Em Ponto Podcast, Gonzaga Júnior percorreu diferentes momentos da história política brasileira para tentar explicar o presente. Falou sobre democracia, ditadura, os atos de 8 de janeiro, extrema-direita, esquerda, direita, partidos políticos, redes sociais, emendas parlamentares e as eleições de 2026.
Para ele, compreender o momento atual exige voltar algumas casas no tabuleiro. A democracia, afirma, não pode ser confundida com liberdade absoluta. Ela pressupõe regras, direitos e limites.
Democracia não é liberdade sem limites
A própria origem do conceito ajuda a explicar a contradição. Na Grécia antiga, a democracia estava associada à participação dos cidadãos nas decisões, mas esse direito não alcançava toda a população. Escravizados e pessoas sem poder econômico ou político estavam excluídos.
A história mostra, segundo Gonzaga, que a democracia também pode sofrer retrocessos. Países que experimentaram regimes democráticos podem abandoná-los em determinados momentos e recorrer a ditaduras, golpes ou outras formas de concentração de poder.
No Brasil, ele considera que a redemocratização iniciada na década de 1980 representou um avanço importante, mas entende que o país ainda está longe de uma democracia plenamente participativa.
A Constituição de 1988 consolidou direitos e garantias fundamentais, mas, na avaliação do professor, a experiência brasileira continua predominantemente representativa: a população escolhe seus representantes, mas nem sempre participa das decisões que considera mais importantes.
É nesse ponto que surge uma das principais inquietações apresentadas por ele: o eleitor vota, elege, mas muitas vezes não se sente representado por quem chegou ao poder.
O contraditório como parte da democracia
Mas existe uma diferença entre liberdade e ausência de limites.
Uma pessoa pode defender determinado modelo de sociedade, criticar governantes, organizar movimentos políticos e disputar eleições. Não pode, porém, usar essa liberdade como justificativa para agredir outra pessoa ou praticar crimes.
A democracia, segundo ele, convive necessariamente com o contraditório, a diversidade e a divergência. Ao mesmo tempo, estabelece limites para proteger os próprios direitos que pretende garantir.
Essa distinção ganha importância diante de episódios recentes da política brasileira, especialmente os atos de 8 de janeiro de 2023, quando prédios dos Três Poderes, em Brasília, foram invadidos e depredados por manifestantes.
Para o sociólogo, defender determinada ideologia, inclusive uma visão autoritária de Estado, não é o mesmo que tentar romper a ordem democrática por meios violentos.
Na sua leitura, a resposta da Justiça aos envolvidos nos atos teve também um caráter pedagógico: estabelecer que a contestação política faz parte da democracia, mas a tentativa de ruptura institucional por meio da violência ultrapassa os limites dessa liberdade.
A memória da ditadura e o risco do esquecimento
Ele relaciona esse processo à Lei da Anistia e à maneira como a transição para a democracia ocorreu. Na sua interpretação, houve uma espécie de pacto para permitir a passagem do regime autoritário para a democracia sem um acerto de contas mais profundo com as violações cometidas durante a ditadura.
O professor recorre a uma experiência vivida em sala de aula para ilustrar como a memória histórica pode desaparecer ou ser reconstruída a partir de relatos particulares.
Em 2018, diante do crescimento de discursos favoráveis à revisão da história da ditadura, ele decidiu propor aos alunos que pesquisassem o período por conta própria. Uma das convidadas foi Lourdes Meira, assistente social que havia sido estudante da Universidade Federal da Paraíba durante a ditadura.
Ela relatou ter sido presa ao lado do então namorado depois que os dois distribuíram material de oposição ao regime. Segundo o relato reproduzido por Gonzaga, os dois foram levados ao 5º Batalhão da Polícia, em João Pessoa. Posteriormente, ele fugiu para São Paulo e ela foi para o Pará.
O episódio ganhou outro significado quando uma estudante contou que sua avó dizia que, durante a ditadura, "as pessoas dormiam de porta aberta" e não havia a violência que existe hoje.
A pergunta de Lourdes foi onde a avó morava.
A resposta: Baixo Roger.
A assistente social então lembrou que havia trabalhado como professora e alfabetizadora naquela região. Para ela, a diferença entre as duas experiências poderia ser resumida de maneira simbólica: enquanto parte da classe média buscava liberdade política, moradores pobres enfrentavam principalmente a falta de comida.
A história, segundo Gonzaga, mostra como experiências individuais podem produzir memórias muito diferentes sobre o mesmo período histórico.
O novo campo de batalha: a informação
O professor resume a mudança comparando duas épocas.
No passado, uma informação transmitida por uma grande emissora de televisão poderia ser tomada como verdadeira simplesmente por ter sido veiculada por aquele meio. Hoje, a referência pode ser uma mensagem recebida em um grupo de aplicativo.
É nesse ambiente que a desinformação ganha força.
Para Gonzaga, o problema não está apenas na existência de notícias falsas, mas na disposição de parte do público de acreditar e compartilhar determinado conteúdo porque ele confirma uma visão de mundo previamente estabelecida.
Nesse mecanismo, a informação deixa de ser avaliada apenas pelo critério da veracidade e passa a ser julgada também pelo critério da conveniência.
A consequência política é significativa. Uma informação falsa pode ser desmentida posteriormente, mas a primeira versão já pode ter se consolidado no imaginário de quem a recebeu.
A avaliação ajuda a explicar, segundo o sociólogo, por que determinadas narrativas permanecem politicamente influentes mesmo depois de contestadas.
Direita, esquerda e a confusão sobre os partidos
Para Gonzaga, expressões como "sou de direita", "sou de esquerda", "sou capitalista" ou "determinado partido é comunista" são frequentemente utilizadas sem que exista clareza sobre aquilo que representam.
A solução, na visão do professor, deveria começar por uma pergunta mais simples: qual modelo de sociedade a pessoa defende?
Ele também critica o papel dos próprios partidos políticos, que, segundo sua avaliação, não cumprem adequadamente uma função educativa junto ao eleitor.
O resultado seria uma política cada vez mais centrada em pessoas, e não em programas partidários.
Para o sociólogo, o ideal seria que o eleitor escolhesse projetos políticos e acompanhasse posteriormente se seus representantes estão cumprindo aquilo que defenderam.
A força do bolsonarismo e o eleitor do meio
O surgimento do bolsonarismo, porém, alterou esse eixo.
Na análise apresentada na entrevista, uma parcela do eleitorado se consolidou em torno de posições bolsonaristas e outra permanece identificada com o lulismo. Entre esses dois grupos estaria um segmento de eleitores menos fidelizados.
É justamente esse eleitorado intermediário que, para ele, pode decidir a eleição.
A disputa política, portanto, não seria apenas pela manutenção das bases tradicionais. O desafio das campanhas seria convencer quem ainda não tomou uma decisão definitiva.
Nesse cenário, Gonzaga considera que estratégias de comunicação, construção de imagem e escolha de aliados podem ter peso significativo.
Ele cita, por exemplo, a tentativa atribuída à candidatura de Flávio Bolsonaro de ampliar sua interlocução com setores mais moderados, com o Nordeste e com o eleitorado feminino.
As estratégias incluem, segundo o professor, mudanças no discurso, aproximação com determinados grupos e escolhas políticas destinadas a ampliar o alcance eleitoral.
O sentimento que a política não consegue explicar
Há também uma dimensão subjetiva.
Ele utiliza como exemplo a relação de setores da classe média com o PT. Na sua avaliação, parte desse eleitorado não se identifica com políticas que, objetivamente, podem ter beneficiado sua própria condição econômica ou social.
O professor relaciona esse fenômeno ao que chama de ausência de consciência de classe.
A classe média, argumenta, muitas vezes se imagina mais próxima dos grupos milionários do que dos trabalhadores de menor renda, quando, na realidade, sua posição econômica estaria muito mais próxima destes últimos.
É nesse espaço entre realidade material e percepção social que, segundo ele, a política constrói parte de sua força.
O fenômeno também ajuda a explicar por que determinadas pautas permanecem fortes mesmo quando entram em contradição com interesses econômicos objetivos de determinados grupos.
A segurança pública como exemplo
Ele cita investimentos e programas realizados durante governos petistas e questiona por que essas ações não foram suficientes para estabelecer uma identificação mais forte com policiais e integrantes das forças de segurança.
A resposta, para ele, estaria novamente no campo do sentimento.
Não bastaria ter realizado determinada política. Seria necessário comunicar a ação de maneira que o público reconheça nela uma resposta às suas necessidades e preocupações.
Emendas parlamentares e a transformação do poder
Na avaliação do professor, o crescimento das emendas impositivas e de outras modalidades de transferência de recursos alterou a relação entre Executivo e Legislativo.
O princípio da emenda parlamentar, ressalta, não seria necessariamente um problema. O Legislativo pode sugerir onde recursos públicos devem ser aplicados.
A preocupação surge quando a distribuição ocorre sem planejamento, transparência e mecanismos adequados de acompanhamento.
Gonzaga chama atenção especialmente para investimentos em máquinas e equipamentos agrícolas. Segundo ele, a aquisição pode beneficiar comunidades inicialmente, mas equipamentos de alto custo exigem manutenção, assistência técnica e recursos permanentes.
Sem planejamento, a estrutura adquirida pode se tornar um problema futuro para municípios, associações e comunidades.
Transparência e rastreabilidade
A questão central, segundo ele, é saber quem solicitou, quem recebeu, quanto recebeu e onde o dinheiro foi aplicado.
É nesse ponto que ele diferencia transparência de rastreabilidade.
Transparência significa tornar pública a informação sobre a origem e o destino do recurso. Rastreabilidade significa permitir acompanhar sua aplicação e verificar se aquilo que foi planejado realmente foi executado.
Para Gonzaga, dinheiro público precisa necessariamente estar associado a uma finalidade pública claramente identificável.
As emendas e os redutos eleitorais
Ele cita o fenômeno dos grupos familiares que permanecem durante décadas ocupando cargos eletivos e mantendo influência sobre determinados municípios.
Na sua avaliação, a distribuição de recursos pode fortalecer esses chamados redutos eleitorais.
O problema não estaria na obra ou no investimento em si, mas na possibilidade de transformar recursos públicos em instrumento de fidelização política.
A lógica seria simples: um parlamentar consegue recursos para determinado município; o prefeito participa da execução; a população associa a obra ao parlamentar; e essa relação pode ser convertida em apoio eleitoral.
Gonzaga ressalta, entretanto, que não considera a atividade política ou a busca por votos ilegítima. O problema, segundo ele, surge quando estruturas públicas são utilizadas de maneira a criar dependência política.
A disputa pelo Governo da Paraíba
Ele destaca a diferença entre Cícero Lucena e Lucas Ribeiro.
Cícero já possuía uma trajetória estadual conhecida, com passagens por cargos como governador, senador, ministro e prefeito de João Pessoa.
Lucas, por outro lado, teria começado o ciclo eleitoral com menor conhecimento do eleitorado paraibano.
A mudança, na avaliação do professor, ocorreu principalmente com a ampliação de sua exposição como vice-governador e, posteriormente, chefe do Executivo estadual.
A presença em inaugurações, entregas, agendas administrativas e ações do governo teria contribuído para tornar o nome de Lucas mais conhecido.
Cícero, por sua vez, teria perdido visibilidade ao deixar a Prefeitura de João Pessoa e, segundo a análise do entrevistado, passou a enfrentar dificuldades para transformar sua gestão municipal em uma vitrine eleitoral.
Nesse cenário, Gonzaga considera que a disputa entre os dois pode se consolidar como um dos principais eixos da eleição estadual.
Efraim e a possibilidade de uma terceira via
Para Gonzaga, o parlamentar reúne características diferentes das apresentadas por outros concorrentes: experiência política, conhecimento da estrutura parlamentar, presença em municípios e capacidade de articulação.
Ele também considera que Efraim pode ocupar parte do espaço político associado ao bolsonarismo na Paraíba.
A possibilidade de uma disputa mais competitiva dependeria, porém, da capacidade de transformar essa estrutura em votos e ampliar sua presença para além do eleitorado mais identificado com a direita.
A disputa pelo Senado
Na análise do professor, João Azevêdo carrega como principal ativo os oito anos de gestão à frente do governo estadual e a aprovação acumulada durante o período.
Veneziano, por sua vez, possui experiência política e uma estrutura própria de atuação.
Queiroga teria como principal base o eleitorado mais identificado com o bolsonarismo.
Nabor aparece associado a uma estrutura política familiar e à força de seu grupo no estado.
A escolha de Daniela Ribeiro, mãe do governador Lucas Ribeiro, como primeira suplente de Nabor é apontada pelo sociólogo como um movimento que pode alterar o equilíbrio entre as candidaturas.
Na sua leitura, a decisão também cria uma situação delicada para João Azevêdo, que precisa construir sua própria composição para o Senado.
O Congresso que o eleitor escolhe sem perceber
É justamente ali que decisões fundamentais para a governabilidade são tomadas.
Deputados e senadores participam da elaboração das leis, da fiscalização do Executivo e da definição do orçamento público. A composição do Legislativo, portanto, pode determinar a capacidade de um presidente, governador ou prefeito implementar seu programa de governo.
Para o professor, o eleitor frequentemente concentra sua atenção no candidato ao Executivo e deixa em segundo plano a escolha dos parlamentares.
Essa falta de compreensão sobre as atribuições de cada cargo cria, em sua avaliação, uma distorção importante do processo eleitoral.
Uma eleição entre estruturas antigas e novas disputas
Sua expectativa é de manutenção de um Legislativo predominantemente conservador e de continuidade da influência dos grupos tradicionais.
Na Paraíba, entretanto, ele enxerga possibilidade de renovação na Assembleia Legislativa.
O motivo seria o surgimento de novas candidaturas regionais, incluindo ex-prefeitos, ex-prefeitas e lideranças que decidiram romper com alianças históricas para disputar espaço próprio.
Esse movimento, segundo o professor, pode provocar mudanças significativas na composição do Legislativo estadual.
O desafio que permanece
Entre a polarização política, a força das redes sociais, a desinformação, a influência das estruturas partidárias e o poder econômico das campanhas, o eleitor continua sendo o ponto central do processo.
Para Gonzaga Júnior, o desafio brasileiro não é apenas escolher governantes. É compreender como funciona o sistema, quais são as atribuições de cada cargo, quais projetos os partidos defendem e de que maneira as decisões tomadas pelos eleitos interferem na vida cotidiana.
Em uma eleição marcada pela disputa entre nomes fortemente identificados com diferentes campos políticos, a questão que permanece é menos sobre quem vencerá e mais sobre como o eleitor fará sua escolha.
A democracia, afinal, não se resume ao momento em que a urna é aberta. Ela também depende do que acontece antes e depois do voto: da informação que circula, do debate público, da fiscalização dos eleitos e da capacidade da sociedade de reconhecer-se — ou não — nas decisões tomadas em seu nome.
