Antes vista como interesse de nicho, acompanhada por fãs que garimpavam músicas, vídeos e séries em fóruns, sites legendados e redes sociais, a cultura coreana hoje ocupa um lugar bem mais visível no cotidiano de jovens brasileiros. Em João Pessoa, essa presença deixou de ser apenas consumo individual diante da tela e passou a ganhar corpo em eventos, grupos de dança, lojas especializadas, encontros presenciais e comunidades que se reconhecem na música, na estética, na comida, nos dramas e na linguagem de um país do outro lado do mundo.
É nesse cenário que o K-Wave Paraíba chega à terceira edição na capital, nos dias 16 e 17 de maio de 2026. O evento, organizado por Mateus Nascimento e equipe, nasceu com foco no K-pop, mas já começa a abrir espaço para outras expressões da chamada “onda coreana”: gastronomia, doramas, acessórios, karaokê, brincadeiras e produtos ligados à cultura pop asiática. Neste ano, a proposta ganhou um ingrediente escolhido pelo próprio público: uma festa do pijama de dois dias.
A edição será realizada na Usina Cultural Energisa, na área da Tenda da Música, com expectativa de reunir entre 200 e 250 pessoas por dia, segundo a organização. O número pode parecer modesto diante dos grandes eventos de cultura pop, mas revela justamente a força de um público segmentado, fiel e altamente engajado — gente que não apenas consome, mas participa, dança, canta, compra, compartilha e ajuda a definir os rumos do próprio encontro.
“É literalmente a tradução: onda coreana”, explica Mateus, ao falar sobre o nome do evento. Para ele, o fenômeno que hoje mobiliza fãs em João Pessoa tem raízes em um processo que começou décadas atrás, quando a música pop sul-coreana passou a misturar referências ocidentais com uma produção própria, altamente coreografada, visual e planejada para circular além das fronteiras da Coreia do Sul.
Uma onda que começou na música, mas não parou nela
Na entrevista, Mateus lembra que o K-pop ganhou impulso global a partir dos anos 2000 e encontrou momentos de explosão com artistas que romperam bolhas internacionais. Ele cita Psy, com “Gangnam Style”, como um dos responsáveis por levar o gênero a uma escala inédita nas plataformas digitais, e também menciona nomes como BTS, além de artistas e grupos anteriores que ajudaram a construir o caminho para a cena atual.
A leitura do organizador ajuda a entender por que o fenômeno não se resume à música. O K-pop, como ele observa, não é propriamente um ritmo único. É uma linguagem pop que mistura estilos diferentes, bebe de referências globais e se adapta a públicos variados. Há traços de hip hop, pop eletrônico, R&B, funk, samba, elementos latinos e até referências brasileiras em produções mais recentes.
Mateus afirma que empresas e grupos sul-coreanos passaram a perceber o peso dos fãs brasileiros, sobretudo pela força do engajamento digital. Segundo ele, ritmos brasileiros começaram a aparecer em músicas de K-pop justamente porque o Brasil se tornou um mercado difícil de ignorar: barulhento, participativo e capaz de transformar lançamentos em assunto nas redes.
“Eles viram que o Brasil realmente é a mistura do mundo todo”, diz. “Então a gente vê cada vez mais um pouquinho de Brasil no outro lado do mundo.”
De fã solitário a comunidade presencial
A segunda edição ousou um pouco mais. O tema escolhido foi “old school”, com músicas lançadas até 2013. Para quem chegou agora ao universo do K-pop, a data pode soar recente. Para quem acompanha a cena há mais de uma década, já virou memória afetiva. A intenção, segundo o organizador, era resgatar fãs antigos e apresentar aos mais novos a base sobre a qual o K-pop atual se construiu.
Neste ano, a terceira edição aposta em uma ideia mais lúdica: o K-Wave de pijama. O tema foi escolhido por votação nas redes sociais, após a organização apresentar três possibilidades ao público. A resposta, segundo Mateus, foi imediata. Muitos participantes já passaram a enviar mensagens dizendo que compraram o pijama e estão preparados para o evento.
A escolha revela um traço importante desse tipo de encontro: a programação não é construída apenas de cima para baixo. O público participa da concepção, opina, vota e se apropria da festa como parte de uma comunidade. Para a organização, essa escuta virou estratégia de engajamento e também uma forma de fidelizar quem já acompanha o projeto desde as primeiras edições.
O mercado do nicho: lojinhas, comida coreana e consumo de experiência
Entre os itens previstos estão comidas coreanas industrializadas ou inspiradas nesse universo, doces, lanches, acessórios relacionados a grupos musicais e doramas, papelaria e possivelmente roupas. Mais do que uma feira de produtos, o espaço funciona como extensão de uma experiência cultural. Quem compra uma comida coreana, por exemplo, muitas vezes não está apenas buscando o sabor, mas a sensação de provar algo visto em uma série, em um vídeo de ídolo ou em uma cena de dorama.
Esse tipo de consumo ajuda a explicar por que eventos nichados têm apelo comercial mesmo sem reunir multidões. O público já chega informado, segue as lojas nas redes sociais, sabe o que procura e reconhece valor simbólico nos produtos. Como diz Mateus, os participantes “já vão preparados” para consumir além da música aquilo que acompanham na internet e na cultura pop.
O fenômeno também dialoga com uma mudança maior de acesso. Durante muito tempo, referências asiáticas chegavam ao público brasileiro de maneira limitada e frequentemente associadas ao Japão, por meio de sushi, yakisoba, animes e mangás. Hoje, a Coreia do Sul passou a disputar esse espaço de imaginário com alimentos, séries, músicas, cosméticos e hábitos que se popularizaram nas redes e nos streamings.
Mateus cita o pepero, um biscoito em formato de palitinho popular na Coreia, como exemplo de produto que antes pareceria distante e hoje desperta curiosidade entre fãs brasileiros. Para ele, a culinária coreana também passou a ganhar mais presença em João Pessoa, inclusive com restaurantes e pratos que antes eram pouco conhecidos pelo público local.
Doramas, streaming e a fantasia como refúgio
Mateus compara os dramas coreanos às novelas brasileiras, mas aponta diferenças importantes de estrutura e ritmo. Enquanto a teledramaturgia brasileira costuma ser mais longa, cotidiana e atravessada por conflitos sociais reconhecíveis — violência, preconceito, desigualdade, relações familiares e disputas de poder —, muitos doramas apostam em narrativas mais condensadas, com menos episódios e uma construção emocional mais gradual.
Na visão do organizador, parte do sucesso dos doramas está justamente na possibilidade de oferecer uma fuga da realidade. Ele observa que, em muitos casos, as produções coreanas constroem romances mais idealizados, com desenvolvimento lento, cenas contidas e uma estética que privilegia o encanto, a espera e a delicadeza.
Essa diferença de ritmo ajuda a explicar por que os doramas encontraram terreno fértil nos streamings. O público assiste quando quer, pausa, maratona, escolhe o idioma e controla a experiência. Na TV aberta, por outro lado, a lógica de exibição por capítulos e a comparação com a novela brasileira podem criar estranhamento. Para Mateus, não se trata de uma disputa entre formatos, mas de uma ampliação de opções: quem quer uma narrativa mais próxima da realidade pode buscar a novela; quem prefere a fantasia ou o romance mais contemplativo encontra nos doramas outro caminho.
Dança como porta de entrada — e de profissionalização
Mateus fala desse processo com experiência própria. Antes de ser produtor, ele também dançou. Começou em 2014, em uma época em que, segundo ele, a prática era mais amadora e movida sobretudo pela diversão. Com o tempo, viu a cena local se profissionalizar. Grupos passaram a investir em figurino, ensaio, deslocamentos para competições em outros estados e formação técnica.
Em João Pessoa, ele cita o Espaço Cultural José Lins do Rego como um dos pontos usados por jovens para ensaiar. As vidraças de lojas fechadas acabam funcionando como espelhos improvisados nos fins de semana. A imagem é simbólica: falta estrutura adequada, mas sobra disposição. Ali, grupos treinam por horas, repetem movimentos, ajustam coreografias e constroem uma cena que ultrapassa o entretenimento.
Segundo Mateus, há pessoas que começaram no K-pop e hoje estudam ou se formaram em dança na UFPB. Outras dão aulas em estúdios, não apenas de K-pop, mas também de hip hop, jazz, stiletto e outros estilos que dialogam com a linguagem coreográfica dos grupos sul-coreanos.
O movimento, portanto, abre oportunidades para coreógrafos, bailarinos, professores, figurinistas, produtores e organizadores de eventos. Também ajuda a deslocar jovens das telas para a convivência presencial e para a atividade física. Em um contexto no qual especialistas frequentemente alertam para o sedentarismo entre adolescentes, a dança aparece como prática corporal, social e emocional.
Mateus destaca ainda o impacto na autoconfiança. Pessoas tímidas, que talvez não se imaginassem diante de uma plateia, passam a se apresentar em duplas, grupos ou sozinhas. A evolução, segundo ele, acontece aos poucos: primeiro a convivência, depois o ensaio, a apresentação pequena, o palco maior. O que começa como identificação com um videoclipe pode virar experiência de pertencimento e superação.
Pertencimento em um evento de nicho
Durante muito tempo, fãs de cultura asiática foram alvo de piadas ou incompreensão. Gostar de K-pop, de doramas ou de artistas do outro lado do mundo parecia, para muitos, algo estranho ou fora do padrão. Hoje, segundo Mateus, essa percepção mudou. A cultura coreana se tornou mais conhecida, mais presente e menos marginal dentro do consumo jovem.
Eventos menores e segmentados, nesse sentido, cumprem uma função que vai além do entretenimento. Eles criam ambientes onde o gosto compartilhado vira vínculo social. O participante sabe que encontrará pessoas que entendem suas referências, reconhecem os mesmos artistas, cantam as mesmas músicas e valorizam os mesmos códigos.
O K-Wave de pijama aposta justamente nessa atmosfera mais íntima. Além das apresentações de dança, a edição terá karaokê, brincadeiras e atividades pensadas para aproximar o público. A ideia, segundo o organizador, é trazer elementos associados à cultura coreana, mas “do nosso jeitinho” — não apenas brasileiro, como ele ressalta, mas paraibano.
O engajamento digital que virou presença física
A anedota ilustra um ponto central: fãs de K-pop não apenas acompanham tendências; muitas vezes, ajudam a criá-las. Em um primeiro momento, como observa o entrevistador no bate-papo, era comum ver perfis de fãs usando assuntos já populares para inserir gifs, vídeos e comentários sobre artistas coreanos. Agora, segundo Mateus, o movimento se inverteu: são os lançamentos coreanos que passam a pautar conversas e atrair outros públicos.
Esse engajamento digital é fundamental para explicar o sucesso de eventos presenciais. A comunidade se organiza pelas redes, divulga lojas, acompanha inscrições, vota em temas, compartilha expectativas e transforma a ida ao evento em parte de uma experiência maior. O encontro físico é apenas uma das etapas de uma relação que começa muito antes, nos perfis, grupos e conversas online.
Cultura importada ou cultura somada?
Mateus afirma que, em relação ao evento, não enfrentou críticas diretas nesse sentido. Mas reconhece que, de modo geral, já ouviu comentários de pessoas que estranham o interesse por algo vindo “do outro lado do mundo” quando há tantas expressões culturais no Brasil. Para ele, no entanto, uma cultura não precisa anular a outra.
A própria conversa sugere que a globalização cultural é feita de trocas, adaptações e misturas. O K-pop absorve elementos brasileiros; fãs brasileiros reinterpretam músicas coreanas; eventos locais trazem práticas estrangeiras com humor, sotaque e referências paraibanas. A cultura importada, nesse caso, não chega intacta. Ela é apropriada, traduzida e transformada pelo público local.
Mateus brinca com a possibilidade de, um dia, um grupo coreano tocar forró com sanfona e triângulo. A imagem parece improvável, mas resume o espírito da mistura: o interesse pela cultura coreana não elimina o repertório regional; pode, em certos contextos, criar novas combinações.
A falta de espaços e o papel do poder público
Mateus defende que cultura não deve ser vista apenas como hobby. Para ele, ela movimenta mercado, cria oportunidades, fortalece vínculos, estimula saúde física e mental e pode abrir caminhos profissionais. Por isso, considera importante que o poder público olhe para essas manifestações e ofereça estrutura.
A reivindicação não é necessariamente por políticas exclusivas para K-pop, mas por espaços culturais descentralizados, com condições de ensaio, convivência e apresentação. Centros culturais em bairros mais afastados poderiam beneficiar jovens que se identificam com dança, música e cultura pop, mas não têm acesso fácil a equipamentos localizados em áreas centrais.
A fala toca em um problema comum nas cidades brasileiras: a concentração de equipamentos culturais em poucos territórios. Em João Pessoa, Mateus observa que há demanda em bairros distantes e também em municípios vizinhos, como Bayeux, Santa Rita, Conde e outras cidades da região. Para ele, a questão é menos a falta de público e mais a falta de oferta acessível.
Uma festa de pijama com cara de futuro
O organizador também antecipa que haverá um anúncio relacionado ao futuro do K-Wave, mas evita revelar detalhes. O tom de mistério ajuda a alimentar a expectativa de uma comunidade que acompanha o evento de perto e participa de sua construção.
Para quem for pela primeira vez, a promessa é encontrar muita música, dança, karaokê, brincadeiras, lojinhas, comidas e, sobretudo, gente disposta a celebrar uma paixão compartilhada. Para quem já acompanha desde o início, a edição funciona como sinal de crescimento: de um evento de um dia para um fim de semana completo; de uma programação mais tradicional para temas escolhidos pelo público; de uma estrutura feita com poucos recursos para uma experiência com premiação e planos de expansão.
No fim, a força do K-Wave talvez esteja menos na ideia de reproduzir a Coreia em João Pessoa e mais na capacidade de criar uma Coreia imaginada, afetiva e paraibana. Uma cultura que chega por músicas, séries e vídeos, mas ganha corpo quando jovens se encontram, ensaiam, cantam, dançam, compram, riem e descobrem que não estão sozinhos em seus gostos.
A onda coreana, afinal, não atravessou apenas oceanos e plataformas digitais. Em João Pessoa, ela encontrou palco, público e sotaque próprio. E, desta vez, vai de pijama.

