Ensinaram a gente desde cedo que sonho não tem preço, talvez porque fique mais bonito assim. Mas tem. Sonho custa sono, dinheiro, tempo, domingos, relações, juventude. Há quem entregue anos inteiros à promessa de um futuro que ainda nem existe e faça isso de bom grado, porque desejar alguma coisa também é uma maneira de suportar a vida que se tem enquanto a vida que se quer não chega. O problema é que alguns sonhos começam cobrando pouco e, quando percebemos, já estamos pagando com pedaços de nós mesmos. Nesta semana, duas famílias paraibanas enterraram seus mortos. Histórias completamente diferentes, sem qualquer ligação entre si, mas atravessadas por uma coisa demasiadamente humana: Ícaro Flávio e Isabela Fonseca acreditavam profundamente em alguma coisa.
Ícaro tinha 30 anos e ainda estava começando a ser policial. Faltava pouco para completar dois anos desde que havia ingressado na Polícia Militar. Era casado, tinha um filho pequeno e parecia carregar aquele entusiasmo quase infantil de quem finalmente encontrou seu lugar no mundo. Duas semanas antes de morrer, esteve na casa de familiares e falou justamente sobre a profissão. Estava satisfeito. Gostava da polícia. Amava aquilo. Há alguma beleza em encontrar tão cedo aquilo que se quer fazer da vida, porque muita gente passa décadas procurando e morre sem encontrar. Ícaro encontrou. Na madrugada de quinta-feira, vestiu a farda e saiu para trabalhar. Durante uma operação no bairro do Açude, em Santa Rita, uma bala atravessou o caminho entre o homem que ele era e tudo aquilo que ainda poderia ser. Ícaro não voltou para casa.
No enterro vieram as viaturas, os uniformes, os companheiros de farda e as honras reservadas a um policial morto em serviço. Houve a salva fúnebre e, diante do caixão, a bandeira da Paraíba foi entregue à esposa. Disseram que o nome de Ícaro seria lembrado para sempre pela instituição. Talvez seja. Mas existe uma parte da morte que nenhuma cerimônia alcança. Bandeira nenhuma ocupa cadeira vazia. Medalha nenhuma põe criança para dormir. Homenagem nenhuma responde quando um menino chama pelo pai. A instituição pode guardar o nome, os colegas podem guardar as histórias e o Estado pode reconhecer o serviço prestado, mas existe uma mulher que precisará aprender a conjugar o marido no passado e uma criança que crescerá conhecendo pedaços do pai pela memória dos outros.
Ícaro conhecia os riscos da profissão. Seria ingênuo dizer o contrário. Quem escolhe a polícia sabe que existe uma possibilidade concreta de encontrar a violência do outro lado da porta. Há treinamento para isso, equipamento para isso, protocolos para isso. Mas existe uma distância enorme entre saber que podemos morrer e acreditar verdadeiramente que vamos morrer. Talvez seja uma das ilusões necessárias para continuar vivendo. Ninguém fecha a porta de casa todas as manhãs pensando seriamente que pode nunca mais abri-la. Ninguém beija o filho acreditando que aquele beijo ficará órfão de todos os outros. Se vivêssemos plenamente conscientes da nossa fragilidade, talvez não tivéssemos coragem nem de atravessar a rua. Ícaro saiu porque havia um trabalho a fazer e porque, para ele, aquele trabalho também era um sonho realizado.
Isabela Fonseca também havia saído de casa atrás de alguma coisa. Aos 33 anos, deixou João Pessoa e foi morar em São Paulo. A cidade grande oferecia trabalho, cultura, movimento e aquela promessa que as metrópoles fazem a quem chega com uma mala nas mãos: aqui talvez exista uma vida que você ainda não viveu. Isabela gostava de jornalismo, de arte, de música. Cantava, havia feito teatro na igreja e, segundo o irmão, possuía uma busca quase incessante por felicidade. Havia nela também uma característica que depois da morte ganhou um peso terrível. “Ela era muito ingênua. Era uma pessoa que não conseguia ver maldade nas coisas”, contou Davi Fonseca.
Foi em São Paulo que Isabela conheceu João Pedro. Ela sabia que ele enfrentava problemas com drogas e decidiu tentar ajudá-lo. Aconselhava, conversava, queria levá-lo para a igreja. Talvez acreditasse que por trás daquilo tudo ainda existia alguém que pudesse ser alcançado. Há pessoas que carregam esse impulso quase incurável de salvar. Acreditam que amor, presença, fé ou insistência conseguem encontrar uma fresta mesmo onde todo o resto parece fechado. Existe algo profundamente bonito nisso, mas também dolorosamente humano: às vezes confundimos esperança com poder. Podemos oferecer a mão a alguém, mas não podemos obrigá-lo a segurá-la. Podemos amar uma pessoa, mas não podemos amar por ela. Podemos desejar sua mudança com todas as forças e, ainda assim, descobrir que desejo nenhum é capaz de transformar sozinho outro ser humano.
Isabela foi assassinada na noite de 10 de agosto. Segundo a investigação policial, sofreu um golpe conhecido como mata-leão, teve a cabeça violentamente atingida contra o chão e as pernas quebradas. O homem que ela tentou ajudar é apontado como autor do feminicídio. Nada do que Isabela acreditou, tentou ou deixou de perceber divide com ela a responsabilidade pela própria morte. Isabela não morreu porque quis ajudar alguém. Não morreu porque era ingênua. Não morreu porque acreditava na mudança. Morreu porque um homem decidiu matá-la. É importante que isso permaneça inteiro, sem vírgula e sem porém.
Poucos dias antes, Davi havia passado por São Paulo e os dois tentaram se encontrar. Não conseguiram. Haveria outras oportunidades, pensaram. É assim que pensamos porque é assim que conseguimos viver. Isabela tranquilizou o irmão: “Relaxa, irmão, eu tô bem, a gente tem uma vida toda para se ver”. Uma semana depois, Davi estava em João Pessoa enterrando a irmã. Talvez essa seja uma das crueldades mais íntimas da morte. Ela não muda apenas o futuro, muda também o significado das coisas que ficaram para trás. Uma frase banal deixa de ser banal. Uma mensagem vira relíquia. Um encontro adiado passa a morar para sempre dentro da cabeça. “A gente tem uma vida toda” vira uma sentença insuportável justamente porque, naquele momento, ninguém sabia o tamanho daquela vida.
Ícaro e Isabela nunca se conheceram. Suas histórias não são equivalentes e seria injusto transformá-las nisso. Mas existe algo que atravessa os dois e atravessa também quem lê estas linhas: somos criaturas movidas pelo desejo. Vivemos projetados para depois. Queremos o emprego que ainda não conseguimos, a profissão que imaginamos desde pequenos, a casa que ainda não compramos, a relação que esperamos melhorar, a pessoa que acreditamos poder salvar, o dinheiro que finalmente dará tranquilidade, o corpo que teremos, a viagem que faremos, a felicidade que parece estar sempre algumas esquinas adiante. Passamos uma parte enorme da vida alimentados por coisas que ainda não aconteceram. Talvez precisemos disso. O futuro é uma espécie de droga socialmente aceita. Tomamos pequenas doses todos os dias para conseguir levantar da cama.
O perigo começa quando o desejo deixa de empurrar e começa a anestesiar. Quando queremos profundamente alguma coisa, somos capazes de negociar com a realidade para protegê-la. Primeiro ignoramos um incômodo, depois diminuímos um risco, em seguida encontramos uma justificativa. Dizemos que faz parte, que é só por enquanto, que todo começo é difícil, que aquela pessoa vai mudar, que precisamos insistir mais um pouco, que depois melhora. O cérebro se alimenta também da expectativa da recompensa, do prazer de imaginar aquilo que ainda virá. E talvez por isso seja tão difícil abandonar certos sonhos: desistir não significa perder apenas alguma coisa concreta, significa matar dentro de nós um futuro inteiro que já havíamos aprendido a amar.
É aí que ficamos entorpecidos. Não necessariamente cegos, mas bêbados de futuro. E gente bêbada de futuro começa a tropeçar no presente.
Talvez por isso tenhamos sido tão injustos com a palavra desistência. Crescemos ouvindo histórias sobre quem persistiu até conseguir, quase nunca sobre quem percebeu a tempo que precisava parar. Há coragem em continuar, evidentemente, mas também existe coragem em voltar para casa. Em trocar de profissão. Em abandonar um projeto. Em terminar uma relação. Em reconhecer que alguém não será salvo por nossas mãos. Em admitir que aquele sonho tão bonito começou a exigir coisas que não deveriam estar à venda. Nem todo abandono é fracasso. Algumas vezes, desistir de alguma coisa é justamente o que nos permite continuar vivos para desejar outra.
Não cabe perguntar se Ícaro deveria ter escolhido outro caminho ou se Isabela deveria ter enxergado alguma coisa antes. Seria uma crueldade pequena demais diante dos mortos. A pergunta pertence a nós, que ainda podemos respondê-la. Quanto custa aquilo que desejamos? E, principalmente, quanto estamos dispostos a pagar? Existem sonhos pelos quais vale atravessar o mundo e existem outros dos quais precisamos fugir enquanto nossas pernas ainda obedecem. O problema é reconhecer a diferença quando estamos dentro deles, porque o sonho é sedutor justamente por isso: ele nunca fala sobre aquilo que está levando, apenas sobre aquilo que promete entregar.
Ícaro queria ser policial. Isabela queria ajudar. Nós também queremos alguma coisa, e talvez seja justamente por isso que suas histórias incomodem tanto. Todos carregamos dentro de nós algum futuro imaginado pelo qual estamos pagando alguma coisa no presente. Tempo, corpo, paz, dinheiro, relações, segurança, pedaços de vida. Algumas dessas contas valem cada centavo. Outras talvez já estejam caras demais e nós apenas ainda não tivemos coragem de olhar a fatura.
No fim, talvez sonhar exija muito mais do que coragem para continuar. Exija lucidez para perceber quando é hora de parar. Porque o futuro não é uma promessa, por mais que o desejo faça parecer que seja. O futuro é apenas uma possibilidade. A única coisa que efetivamente temos é esta vida acontecendo agora, enquanto fazemos planos para depois. E talvez o verdadeiro perigo de viver entorpecido por um sonho seja descobrir tarde demais que, de tanto desejar a vida que viria, deixamos de proteger a vida que já estava aqui.
Ícaro tinha 30 anos e ainda estava começando a ser policial. Faltava pouco para completar dois anos desde que havia ingressado na Polícia Militar. Era casado, tinha um filho pequeno e parecia carregar aquele entusiasmo quase infantil de quem finalmente encontrou seu lugar no mundo. Duas semanas antes de morrer, esteve na casa de familiares e falou justamente sobre a profissão. Estava satisfeito. Gostava da polícia. Amava aquilo. Há alguma beleza em encontrar tão cedo aquilo que se quer fazer da vida, porque muita gente passa décadas procurando e morre sem encontrar. Ícaro encontrou. Na madrugada de quinta-feira, vestiu a farda e saiu para trabalhar. Durante uma operação no bairro do Açude, em Santa Rita, uma bala atravessou o caminho entre o homem que ele era e tudo aquilo que ainda poderia ser. Ícaro não voltou para casa.
No enterro vieram as viaturas, os uniformes, os companheiros de farda e as honras reservadas a um policial morto em serviço. Houve a salva fúnebre e, diante do caixão, a bandeira da Paraíba foi entregue à esposa. Disseram que o nome de Ícaro seria lembrado para sempre pela instituição. Talvez seja. Mas existe uma parte da morte que nenhuma cerimônia alcança. Bandeira nenhuma ocupa cadeira vazia. Medalha nenhuma põe criança para dormir. Homenagem nenhuma responde quando um menino chama pelo pai. A instituição pode guardar o nome, os colegas podem guardar as histórias e o Estado pode reconhecer o serviço prestado, mas existe uma mulher que precisará aprender a conjugar o marido no passado e uma criança que crescerá conhecendo pedaços do pai pela memória dos outros.
Ícaro conhecia os riscos da profissão. Seria ingênuo dizer o contrário. Quem escolhe a polícia sabe que existe uma possibilidade concreta de encontrar a violência do outro lado da porta. Há treinamento para isso, equipamento para isso, protocolos para isso. Mas existe uma distância enorme entre saber que podemos morrer e acreditar verdadeiramente que vamos morrer. Talvez seja uma das ilusões necessárias para continuar vivendo. Ninguém fecha a porta de casa todas as manhãs pensando seriamente que pode nunca mais abri-la. Ninguém beija o filho acreditando que aquele beijo ficará órfão de todos os outros. Se vivêssemos plenamente conscientes da nossa fragilidade, talvez não tivéssemos coragem nem de atravessar a rua. Ícaro saiu porque havia um trabalho a fazer e porque, para ele, aquele trabalho também era um sonho realizado.
Isabela Fonseca também havia saído de casa atrás de alguma coisa. Aos 33 anos, deixou João Pessoa e foi morar em São Paulo. A cidade grande oferecia trabalho, cultura, movimento e aquela promessa que as metrópoles fazem a quem chega com uma mala nas mãos: aqui talvez exista uma vida que você ainda não viveu. Isabela gostava de jornalismo, de arte, de música. Cantava, havia feito teatro na igreja e, segundo o irmão, possuía uma busca quase incessante por felicidade. Havia nela também uma característica que depois da morte ganhou um peso terrível. “Ela era muito ingênua. Era uma pessoa que não conseguia ver maldade nas coisas”, contou Davi Fonseca.
Foi em São Paulo que Isabela conheceu João Pedro. Ela sabia que ele enfrentava problemas com drogas e decidiu tentar ajudá-lo. Aconselhava, conversava, queria levá-lo para a igreja. Talvez acreditasse que por trás daquilo tudo ainda existia alguém que pudesse ser alcançado. Há pessoas que carregam esse impulso quase incurável de salvar. Acreditam que amor, presença, fé ou insistência conseguem encontrar uma fresta mesmo onde todo o resto parece fechado. Existe algo profundamente bonito nisso, mas também dolorosamente humano: às vezes confundimos esperança com poder. Podemos oferecer a mão a alguém, mas não podemos obrigá-lo a segurá-la. Podemos amar uma pessoa, mas não podemos amar por ela. Podemos desejar sua mudança com todas as forças e, ainda assim, descobrir que desejo nenhum é capaz de transformar sozinho outro ser humano.
Isabela foi assassinada na noite de 10 de agosto. Segundo a investigação policial, sofreu um golpe conhecido como mata-leão, teve a cabeça violentamente atingida contra o chão e as pernas quebradas. O homem que ela tentou ajudar é apontado como autor do feminicídio. Nada do que Isabela acreditou, tentou ou deixou de perceber divide com ela a responsabilidade pela própria morte. Isabela não morreu porque quis ajudar alguém. Não morreu porque era ingênua. Não morreu porque acreditava na mudança. Morreu porque um homem decidiu matá-la. É importante que isso permaneça inteiro, sem vírgula e sem porém.
Poucos dias antes, Davi havia passado por São Paulo e os dois tentaram se encontrar. Não conseguiram. Haveria outras oportunidades, pensaram. É assim que pensamos porque é assim que conseguimos viver. Isabela tranquilizou o irmão: “Relaxa, irmão, eu tô bem, a gente tem uma vida toda para se ver”. Uma semana depois, Davi estava em João Pessoa enterrando a irmã. Talvez essa seja uma das crueldades mais íntimas da morte. Ela não muda apenas o futuro, muda também o significado das coisas que ficaram para trás. Uma frase banal deixa de ser banal. Uma mensagem vira relíquia. Um encontro adiado passa a morar para sempre dentro da cabeça. “A gente tem uma vida toda” vira uma sentença insuportável justamente porque, naquele momento, ninguém sabia o tamanho daquela vida.
Ícaro e Isabela nunca se conheceram. Suas histórias não são equivalentes e seria injusto transformá-las nisso. Mas existe algo que atravessa os dois e atravessa também quem lê estas linhas: somos criaturas movidas pelo desejo. Vivemos projetados para depois. Queremos o emprego que ainda não conseguimos, a profissão que imaginamos desde pequenos, a casa que ainda não compramos, a relação que esperamos melhorar, a pessoa que acreditamos poder salvar, o dinheiro que finalmente dará tranquilidade, o corpo que teremos, a viagem que faremos, a felicidade que parece estar sempre algumas esquinas adiante. Passamos uma parte enorme da vida alimentados por coisas que ainda não aconteceram. Talvez precisemos disso. O futuro é uma espécie de droga socialmente aceita. Tomamos pequenas doses todos os dias para conseguir levantar da cama.
O perigo começa quando o desejo deixa de empurrar e começa a anestesiar. Quando queremos profundamente alguma coisa, somos capazes de negociar com a realidade para protegê-la. Primeiro ignoramos um incômodo, depois diminuímos um risco, em seguida encontramos uma justificativa. Dizemos que faz parte, que é só por enquanto, que todo começo é difícil, que aquela pessoa vai mudar, que precisamos insistir mais um pouco, que depois melhora. O cérebro se alimenta também da expectativa da recompensa, do prazer de imaginar aquilo que ainda virá. E talvez por isso seja tão difícil abandonar certos sonhos: desistir não significa perder apenas alguma coisa concreta, significa matar dentro de nós um futuro inteiro que já havíamos aprendido a amar.
É aí que ficamos entorpecidos. Não necessariamente cegos, mas bêbados de futuro. E gente bêbada de futuro começa a tropeçar no presente.
Talvez por isso tenhamos sido tão injustos com a palavra desistência. Crescemos ouvindo histórias sobre quem persistiu até conseguir, quase nunca sobre quem percebeu a tempo que precisava parar. Há coragem em continuar, evidentemente, mas também existe coragem em voltar para casa. Em trocar de profissão. Em abandonar um projeto. Em terminar uma relação. Em reconhecer que alguém não será salvo por nossas mãos. Em admitir que aquele sonho tão bonito começou a exigir coisas que não deveriam estar à venda. Nem todo abandono é fracasso. Algumas vezes, desistir de alguma coisa é justamente o que nos permite continuar vivos para desejar outra.
Não cabe perguntar se Ícaro deveria ter escolhido outro caminho ou se Isabela deveria ter enxergado alguma coisa antes. Seria uma crueldade pequena demais diante dos mortos. A pergunta pertence a nós, que ainda podemos respondê-la. Quanto custa aquilo que desejamos? E, principalmente, quanto estamos dispostos a pagar? Existem sonhos pelos quais vale atravessar o mundo e existem outros dos quais precisamos fugir enquanto nossas pernas ainda obedecem. O problema é reconhecer a diferença quando estamos dentro deles, porque o sonho é sedutor justamente por isso: ele nunca fala sobre aquilo que está levando, apenas sobre aquilo que promete entregar.
Ícaro queria ser policial. Isabela queria ajudar. Nós também queremos alguma coisa, e talvez seja justamente por isso que suas histórias incomodem tanto. Todos carregamos dentro de nós algum futuro imaginado pelo qual estamos pagando alguma coisa no presente. Tempo, corpo, paz, dinheiro, relações, segurança, pedaços de vida. Algumas dessas contas valem cada centavo. Outras talvez já estejam caras demais e nós apenas ainda não tivemos coragem de olhar a fatura.
No fim, talvez sonhar exija muito mais do que coragem para continuar. Exija lucidez para perceber quando é hora de parar. Porque o futuro não é uma promessa, por mais que o desejo faça parecer que seja. O futuro é apenas uma possibilidade. A única coisa que efetivamente temos é esta vida acontecendo agora, enquanto fazemos planos para depois. E talvez o verdadeiro perigo de viver entorpecido por um sonho seja descobrir tarde demais que, de tanto desejar a vida que viria, deixamos de proteger a vida que já estava aqui.

