Paraíba
Crônica de domingo: antes que aconteça
Atualizada em 11/10/2026 às 12:41 Por Lucas Rodrigues
Não consegui ficar calado. Talvez seja esse meu defeito de jornalista, querer entender histórias mesmo quando aparecem no meio de um intervalo. Perguntei o que estava acontecendo. Ela contou que havia terminado o relacionamento depois de muitas brigas, porque queria se dedicar à universidade. Segundo seu relato, o rapaz não aceitou. Teria prometido que estaria em todos os lugares onde ela estivesse. Disse que ele mudou de instituição para estudar na mesma universidade e no mesmo turno, aparecia diante de sua casa à noite e começou a compartilhar imagens íntimas sem autorização. Enquanto me contava, parecia apavorada. Não era apenas raiva. Havia medo naquela conversa, inclusive de procurar a polícia.
Perguntei se alguém próximo sabia. Ela disse que não havia contado o que estava acontecendo. Orientei que não furasse os pneus, que procurasse a Polícia Civil e buscasse apoio de pessoas de confiança. Depois, foi embora. Não sei se fez alguma dessas coisas. Talvez nunca mais a encontre. E é justamente isso que me inquieta: trabalho todos os dias com notícias de violência e conheço bem o que costuma acontecer quando uma história como aquela chega tarde demais à redação.
Nesta semana, a Paraíba nos obrigou a olhar para esse problema repetidas vezes. No Sertão, uma mulher precisou ser socorrida após uma agressão atribuída ao companheiro. Em João Pessoa, outra foi atacada com uma barra de ferro pelo ex-companheiro, depois de procurar a polícia para denunciar ameaças. Em Cajazeiras, uma mulher perseguida viu o suspeito acompanhá-la até a delegacia, onde acabou preso. Em Bayeux, uma mulher relatou ter sido agredida e esganada diante da filha de três meses. Em outras cidades, houve prisões por ameaças, agressões e descumprimento de medidas protetivas. Histórias diferentes, atravessadas por uma pergunta semelhante: o que precisa acontecer para que uma mulher consiga viver sem medo de alguém que diz ou já disse amá-la?
Em Mangabeira, na Capital, essa pergunta encontrou uma resposta que ninguém deveria receber. Ester Fagundes de Almeida tinha 27 anos. Foi encontrada morta dentro de casa, ao lado do companheiro, na quarta-feira (7). A perícia apontou preliminarmente feminicídio seguido de suicídio, hipótese ainda sujeita à conclusão da investigação. Ester apresentava 26 ferimentos provocados por arma branca, inclusive nas mãos e nos braços, compatíveis com tentativas de defesa. Não quero transformar o corpo dela numa contagem de golpes. Mas existe algo terrível no que esses vestígios indicam: uma mulher tentando se proteger dentro do lugar onde deveria estar segura.
Enquanto essas histórias ocupavam o noticiário, uma deputada estadual recém-eleita por São Paulo chamou atenção ao declarar que “feminicídio não existe”. Ela questionou a classificação desses crimes com base no gênero da vítima. É legítimo discutir leis e critérios jurídicos. Mas negar a existência do fenômeno é outra coisa. O feminicídio está previsto na legislação brasileira e reconhece uma realidade concreta: há mulheres mortas em contextos de violência doméstica e familiar ou de menosprezo e discriminação à condição de mulher.
O fim de um relacionamento não autoriza perseguição. Ciúme não é prova de amor. Divulgar imagens íntimas sem consentimento não é vingança aceitável. E matar uma mulher porque ela decidiu ir embora não é uma tragédia romântica. É violência. Chamar esses acontecimentos apenas de crimes passionais pode esconder precisamente aquilo que precisamos enxergar: a ideia de que uma mulher pertence a alguém e de que sua liberdade depende da autorização desse alguém.
Mas há outra pergunta que não me sai da cabeça: quantas mulheres precisam morrer para que levemos a sério aquelas que ainda estão vivas e pedindo ajuda?
A estudante da lanchonete estava ali, falando, respirando, estudando, tentando continuar a própria vida enquanto relatava uma perseguição que parecia acompanhá-la por todos os lugares. Talvez seja nesse momento que a proteção faça mais diferença. Antes da agressão seguinte. Antes da ameaça virar ataque. Antes que uma família precise reconhecer um corpo.
É por isso que me incomoda ouvir que medida protetiva “não serve de nada”. Entendo a revolta. Existem mulheres ameaçadas mesmo depois de procurar a Justiça, e há agressores que descumprem ordens judiciais. A medida, sozinha, não forma uma barreira física entre a vítima e quem deseja machucá-la. Mas pode proibir aproximação e contato, determinar afastamento e permitir a responsabilização pelo descumprimento. Desde 2023, sua concessão também não depende de boletim de ocorrência ou inquérito policial. Uma medida protetiva não é garantia de sobrevivência. É parte de uma resposta que precisa incluir fiscalização, acolhimento e providências rápidas. Desacreditá-la por completo pode afastar uma mulher de uma possibilidade de proteção.
Na Paraíba, iniciativas procuram agir antes da tragédia. O programa Antes que Aconteça, idealizado pela senadora Daniella Ribeiro, articula prevenção, acolhimento e acesso à rede de proteção, com ações educativas e espaços como as Salas Lilás, destinados à escuta humanizada. Nesta semana, uma nova lei também instituiu as Salas Acolher em hospitais públicos e delegacias, para atendimento reservado de mulheres e crianças vítimas de violência. A legislação prevê profissionais capacitados, privacidade e encaminhamento aos serviços competentes. As novas salas ainda precisam ser implantadas, sem prazo específico estabelecido na lei. São iniciativas importantes, cuja efetividade depende de funcionamento, acompanhamento e acesso real. Porque uma porta com o nome “acolhimento” só cumpre sua função quando existe alguém preparado para abri-la.
Mas algo também precisa mudar fora das delegacias. Quantas vezes ouvimos que uma mulher deveria simplesmente terminar o relacionamento, sair de casa ou denunciar? Como se tudo isso fosse fácil quando a pessoa que ameaça conhece sua rotina, sua família e seu endereço. Como se o medo fosse falta de coragem. Como se fosse responsabilidade exclusiva da vítima encontrar uma saída para a violência praticada por outra pessoa.
Na lanchonete, aquela estudante queria uma faca. Não posso afirmar o que faria com ela. Posso dizer que estava com medo e buscava uma maneira de reagir. E me pergunto quantas mulheres, antes de procurar ajuda, já tentaram resolver sozinhas uma situação que nunca deveriam ter enfrentado. Quantas ficaram em silêncio por vergonha, por receio de não serem acreditadas ou por medo do que aconteceria depois da denúncia.
Se você vive algo parecido, não precisa esperar uma agressão física para procurar orientação. O Ligue 180 funciona gratuitamente, 24 horas por dia, para informações e encaminhamento de denúncias. Em situação de perigo imediato, a Polícia Militar pode ser acionada pelo 190. Delegacias, Defensoria Pública e serviços da rede de proteção também podem orientar sobre medidas protetivas. E, se você conhece alguém nessa situação, talvez a ajuda comece com uma atitude menos grandiosa do que imagina: ouvir sem julgar, respeitar as decisões da vítima e ajudá-la a encontrar proteção sem colocá-la em risco.
Não sei o nome completo da estudante que encontrei. Não perguntei seu curso. Não guardei uma fotografia. O que ficou comigo foi a imagem de uma jovem que saiu de casa para estudar e, durante o intervalo, estava procurando uma faca porque dizia não conseguir escapar do ex-namorado. Enquanto eu voltava para a aula, ela precisava continuar vivendo uma história da qual conheci apenas alguns minutos.
Ester não terá a oportunidade de contar o que viveu depois daquela quarta-feira. A estudante ainda pode contar. É essa diferença que deveria orientar nossas prioridades. Investigar, punir e responsabilizar são indispensáveis, mas proteger uma mulher enquanto ela está viva não pode ser uma preocupação menor do que explicar sua morte.
Talvez eu nunca mais encontre aquela jovem. Espero que consiga estudar, voltar para casa e viver sem precisar olhar por cima do ombro. Espero que encontre ajuda e, sobretudo, que não precise aparecer numa reportagem para que sua história seja considerada grave.
Naquela lanchonete, ela pediu uma faca. Eu gostaria que tivesse encontrado, antes disso, uma porta aberta.
E você, se uma mulher te contar hoje que está sendo perseguida, vai esperar acontecer alguma coisa para acreditar nela?
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