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Anayde Beiriz: a poetisa paraibana além dos estigmas e silêncios da história

Publicado em 20/03/2026 às 06:00 Por Redação
Foto: Reprodução/ Instagram
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No contexto das reflexões suscitadas pelo Dia Internacional das Mulheres, celebrado em 8 de março, a trajetória de Anayde Beiriz ressurge como um exemplo emblemático de como a história de mulheres pode ser deturpada, reduzida ou negligenciada ao longo do tempo.

Nascida em João Pessoa, ainda chamada de Parahyba à época, Anayde foi professora, poetisa e escritora, com atuação marcante no início do século XX. Formada pela Escola Normal da Paraíba aos 17 anos, destacou-se no magistério e lecionou na cidade de Cabedelo, onde também contribuiu para a educação de jovens e adultos.

Sua produção literária, alinhada a características do modernismo, foi publicada em periódicos como a Revista da Cidade, no Recife, e a Era Nova, na Paraíba. Além disso, integrou movimentos literários e participou de debates que, ainda que de forma pontual, dialogavam com pautas como o direito ao voto feminino e a emancipação das mulheres.

Apesar desse legado, a imagem de Anayde foi historicamente associada, de forma quase exclusiva, ao episódio envolvendo o assassinato de João Pessoa, em 1930, cometido por João Dantas, com quem mantinha um relacionamento. A narrativa predominante por décadas a posicionou como figura central ou até responsável indireta pelo crime, o que, segundo pesquisadores, representa uma distorção histórica.

Especialistas apontam que essa construção reforça um padrão recorrente na historiografia, em que trajetórias femininas são reduzidas a relações pessoais ou afetivas, em detrimento de suas contribuições sociais, culturais e intelectuais. No caso de Anayde, essa leitura acabou por obscurecer sua atuação como educadora e escritora.

Documentos, cartas e registros preservados por familiares, como a sobrinha Ialmita Beiriz, revelam uma mulher de personalidade forte, sensível e intelectualizada, com intensa produção literária e participação ativa em círculos culturais. Parte desse acervo, no entanto, é limitado, o que contribuiu para o apagamento histórico de sua obra.

Pesquisas recentes e produções culturais têm buscado resgatar a memória da poetisa. Obras literárias, estudos acadêmicos e adaptações, como o filme Parahyba Mulher Macho, dirigido por Tizuka Yamazaki, ajudaram a recolocar Anayde no debate público, ainda que cercadas de controvérsias sobre a fidelidade histórica.

Para estudiosos, a trajetória de Anayde Beiriz permite refletir sobre relações de poder, gênero e memória, evidenciando como o olhar predominante na construção histórica pode influenciar a forma como personagens são lembrados. Sua história também levanta discussões sobre os silenciamentos e estigmas enfrentados por mulheres ao longo do tempo.

Após os acontecimentos de 1930, marcados pela morte de João Dantas e pela repercussão política do caso, Anayde enfrentou perseguições e isolamento, refugiando-se no Recife. Em outubro daquele ano, aos 25 anos, teve sua vida interrompida, em um desfecho que marcou profundamente sua trajetória.

Hoje, iniciativas acadêmicas e culturais buscam reposicionar Anayde Beiriz como uma figura relevante da história literária e social da Paraíba, destacando sua contribuição para a educação, a literatura e os debates sobre o papel da mulher na sociedade.
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