A maternidade costuma ser narrada como um território de afeto, descoberta e vínculo. Mas, para muitas mulheres, ela também se impõe como uma rotina silenciosa de exaustão, culpa e solidão. Entre a casa, o trabalho, os estudos, a criação dos filhos, as cobranças sociais e, em muitos casos, a ausência de uma divisão real de responsabilidades, mães relatam a sensação de viver em alerta permanente — como se não houvesse intervalo possível entre uma demanda e outra.
Uma pesquisa divulgada pela Mommys, rede de apoio materna formada por mais de nove mil integrantes, dimensiona parte desse cenário: 62,7% das mulheres ouvidas disseram se sentir cansadas ou sobrecarregadas após a maternidade. A sensação de vazio também aparece entre os relatos, acompanhada principalmente por cansaço e sobrecarga.
Em João Pessoa, histórias como essas ajudam a explicar o surgimento e a atuação da Coletiva Pachamamá, uma rede formada por mães e filhos com foco em informação, empoderamento materno, apoio mútuo, autocuidado e defesa de uma infância livre. Mais do que um grupo de convivência, a iniciativa funciona como espaço de escuta para mulheres que, muitas vezes, descobrem na troca com outras mães uma forma de nomear aquilo que vivem todos os dias.
A maternidade entre o afeto e o esgotamento
A chegada de um filho reorganiza a vida de qualquer família. Mas, segundo os relatos reunidos na reportagem, essa reorganização continua recaindo de forma desproporcional sobre as mulheres. A maternidade muda a rotina, o corpo, o sono, a carreira, os planos e a dinâmica financeira. Mesmo quando há apoio familiar ou participação paterna, muitas mães afirmam que a carga principal permanece sob sua responsabilidade.Sandra, mãe de três filhos, diz que contou com apoio da família, mas enfrentou fases de cansaço intenso, especialmente após o nascimento do terceiro filho, quando já estava separada. Ela afirma que nunca deixou de estudar nem de trabalhar, com exceção dos primeiros seis meses do bebê, mas lembra que o período foi “extremamente cansativo”.
O puerpério — fase que vem depois do parto e envolve mudanças físicas, emocionais e hormonais — aparece no relato como um período particularmente exigente. Sandra lembra que os primeiros anos de vida de uma criança demandam presença constante, atenção permanente e uma reorganização profunda da rotina.
Esse é um ponto central nas narrativas de muitas mães: o cansaço não vem apenas das tarefas visíveis, como dar banho, preparar comida, levar à escola ou trabalhar fora. Ele também está no que se convencionou chamar de carga mental — a responsabilidade de prever necessidades, lembrar compromissos, organizar a rotina da criança, acompanhar consultas, compras, material escolar, alimentação, roupas, remédios e vínculos afetivos.
É um trabalho contínuo, muitas vezes invisível, que raramente aparece como trabalho.
“O peso da mãe solo é sempre da mãe solo”
Para a administradora Fabiana Lemos, mãe solo, o esgotamento está diretamente ligado à forma como a sociedade distribui — ou deixa de distribuir — responsabilidades. Ela lembra que, em tese, a criação de uma criança deveria ser compartilhada: pai e mãe têm responsabilidades equivalentes. Na prática, porém, afirma que a cobrança histórica ainda recai sobre a mulher.Fabiana observa que, por muito tempo, foi socialmente aceito que o pai tivesse uma convivência limitada com os filhos, como visitas quinzenais. Hoje, diz ela, há maior presença da guarda compartilhada, mas isso não elimina a desigualdade cotidiana.
A guarda compartilhada, em termos simples, significa que pai e mãe dividem responsabilidades sobre decisões importantes da vida da criança. Isso não quer dizer, necessariamente, que o tempo de convivência seja igual ou que as tarefas diárias estejam equilibradas. Segundo Fabiana, quando a criança mora com a mãe, é ela quem costuma assumir a maior parte das urgências e da logística: a escola perto de casa, a rotina, as demandas inesperadas, os cuidados imediatos.
Mesmo quando há suporte da família paterna ou presença do pai, ela afirma que “o peso da mãe solo é sempre da mãe solo”. A frase resume uma percepção recorrente: a mulher pode receber ajuda, mas segue sendo vista como a principal responsável.
Essa sobrecarga começa dentro de casa. Fabiana defende que o primeiro passo para mudar esse cenário é a educação familiar. Para ela, todos os moradores de uma casa devem ser responsáveis pelo ambiente em que vivem — seja na limpeza, na comida, no cuidado com a criança ou na organização da rotina. O problema, afirma, está em transformar tarefas domésticas e de cuidado em “papel de mulher”.
A crítica é simples e profunda: enquanto a maternidade for tratada como destino individual da mãe, e não como responsabilidade compartilhada por família, sociedade e poder público, a exaustão continuará sendo naturalizada.
O registro, a pensão e o julgamento
A sobrecarga materna também aparece em situações jurídicas e burocráticas. O material-base aponta que, entre cerca de 32 mil crianças nascidas na Paraíba de janeiro a agosto de 2022, aproximadamente 1.800 foram registradas apenas com o nome da mãe. O dado expõe uma realidade que ultrapassa a rotina doméstica: para algumas mulheres, a ausência paterna começa formalmente no cartório.O reconhecimento da paternidade, o pagamento de pensão alimentícia e a divisão de responsabilidades não são apenas temas familiares. Eles têm impacto direto sobre a vida financeira, emocional e social de mães e crianças.
Segundo a especialista ouvida, muitas mulheres não chegam sequer a exigir a pensão por medo do julgamento. Há receio de serem vistas como interesseiras ou exageradas, especialmente quando o pai já oferece alguma ajuda, visita a criança ou contribui com algum valor. O comentário externo — “mas ele já pega a criança”, “mas ele já dá alguma coisa” — acaba funcionando como pressão para que a mãe aceite uma divisão desigual.
A pensão alimentícia, apesar do nome, não se limita à comida. Ela serve para ajudar a custear necessidades da criança, como moradia, saúde, educação, vestuário, transporte e lazer. Quando esse suporte não existe ou é insuficiente, a mãe tende a absorver a diferença — muitas vezes acumulando trabalho remunerado, cuidado doméstico e desgaste emocional.
“Não escolhemos ser supermulheres”, resume uma das falas do material-base. A ideia de que a mãe deve dar conta de tudo, sorrindo e sem reclamar, aparece como uma das armadilhas mais cruéis da maternidade contemporânea. Além de sobrecarregada, a mulher se sente culpada por admitir que está no limite.
A rede como resposta à solidão
Foi em meio a esse descontentamento que nasceu a Coletiva Pachamamá, em João Pessoa. Segundo a jornalista Juliana Terra, uma das integrantes pioneiras, o grupo surgiu a partir de conversas entre mulheres mães sobre problemas comuns: a falta de divisão de tarefas, a ausência de acolhimento social e um mercado de trabalho pouco sensível à dinâmica da maternidade.A pergunta que moveu o início da rede foi direta: se a sociedade não acolhe essas mulheres como deveria, como elas poderiam se apoiar entre si?
A resposta veio na forma de uma rede. Mães passaram a compartilhar experiências, informações, angústias e soluções possíveis. O grupo se consolidou como espaço de apoio e autocuidado, mas também como ambiente de afirmação política no sentido mais amplo do termo: o de reivindicar que maternidade não seja sinônimo de isolamento.
Juliana relata que o apoio da coletiva foi essencial em um dos momentos mais difíceis de sua vida, quando enfrentou um câncer de mama durante a pandemia. Ela descreve o suporte recebido como “de ouro” e afirma que talvez não tivesse atravessado uma doença tão pesada sem o carinho e o acolhimento de mulheres que compreendiam, por experiência própria, o que significa ser mãe solo.
Esse tipo de apoio não substitui políticas públicas, assistência jurídica, renda, creche, rede familiar ou participação paterna. Mas pode funcionar como ponto de sustentação emocional para mulheres que, muitas vezes, não encontram escuta em outros espaços.
Culpa, silêncio e o mito da mãe que dá conta de tudo
Entre os sentimentos citados na pesquisa divulgada pela Mommys, a culpa aparece de forma marcante, especialmente entre mães solo. A culpa por trabalhar demais. Por não trabalhar. Por se cansar. Por pedir ajuda. Por desejar silêncio. Por querer tempo para si. Por não corresponder à imagem idealizada da mãe inesgotável.As integrantes da Coletiva Pachamamá defendem que falar sobre a exaustão é uma forma de romper o isolamento. Admitir “não estou dando conta” pode parecer simples, mas, para muitas mulheres, é um gesto difícil. O medo de julgamento leva ao silêncio; o silêncio, por sua vez, aprofunda a sensação de solidão.
Nos relatos, a construção de vínculos com outras mulheres aparece como uma ferramenta de sobrevivência. Quando uma mãe diz que está exausta e escuta de outra “eu entendo”, algo muda. A experiência deixa de parecer fracasso individual e passa a ser reconhecida como parte de uma estrutura mais ampla de desigualdade, cobrança e falta de suporte.
Há, no material-base, uma frase que sintetiza essa perspectiva: criar uma criança é responsabilidade de uma aldeia inteira. O provérbio, frequentemente lembrado em debates sobre maternidade, contrasta com a realidade de muitas mães que seguem criando filhos praticamente sozinhas, ainda que cercadas de gente.
Quando a vulnerabilidade exige política pública
A rede de apoio entre mães é valiosa, mas não alcança todas da mesma forma. Mulheres em situação de vulnerabilidade social, sem apoio familiar, sem renda estável ou sem acesso a serviços públicos enfrentam camadas adicionais de dificuldade.Uma das entrevistadas afirma que mães que não contam com rede, são julgadas e ainda vivem em vulnerabilidade precisam de um olhar maior do poder público. A fala aponta para um desafio que vai além do âmbito privado: maternidade, infância, trabalho e cuidado são também temas de política pública.
Creches, assistência social, saúde mental, orientação jurídica, proteção contra abandono material, políticas de geração de renda e acolhimento no pós-parto são exemplos de áreas que podem impactar diretamente a vida dessas mulheres. O material-base não detalha programas específicos, mas deixa clara a demanda por ações direcionadas às mães, especialmente às mães solo.
A questão central é reconhecer que a maternidade não acontece no vazio. Ela depende de condições materiais, tempo, saúde, suporte emocional e divisão de responsabilidades. Sem isso, o ideal da mãe forte pode se transformar em uma forma elegante de ignorar o sofrimento.
“Tudo que faço é pelo meu filho, mas também por mim”
Apesar do cansaço, os relatos não reduzem a maternidade à dor. Há afeto, projeto de futuro e sentido no que essas mulheres constroem. Juliana diz que, nos momentos de exaustão, especialmente quando trabalha de madrugada, pensa no filho, mas também em si mesma: em seu nome, sua trajetória profissional e seu futuro.A fala revela uma dimensão importante da maternidade contemporânea: muitas mulheres não querem escolher entre ser mãe e existir como pessoa. Querem cuidar dos filhos sem desaparecer. Querem trabalhar, estudar, descansar, desejar, errar, pedir ajuda e construir uma identidade que não seja limitada ao cuidado.
Os desafios mudam conforme as fases da criança. No início, a privação de sono. Depois, a autonomia. Mais adiante, os questionamentos. A maternidade, como dizem as entrevistadas, não deixa de exigir. Mas a presença de uma rede pode fazer diferença entre enfrentar cada fase em silêncio ou atravessá-la com algum amparo.
Uma conversa que precisa sair do privado
A sobrecarga materna costuma ser tratada como problema doméstico, íntimo, quase inevitável. Mas os relatos das mães e a atuação de coletivos como a Pachamamá mostram que a questão é social. Ela envolve divisão sexual do trabalho, reconhecimento jurídico da responsabilidade paterna, acesso a políticas públicas, acolhimento no mercado de trabalho e mudança cultural dentro das famílias.A pesquisa divulgada pela Mommys dá um número a uma experiência que muitas mulheres já conheciam no corpo: mais de seis em cada dez mães ouvidas relatam cansaço ou sobrecarga. Por trás do percentual, há noites mal dormidas, contas para pagar, filhos para criar, jornadas duplas ou triplas e a cobrança para que tudo seja feito sem queixas.
Ao transformar a exaustão em conversa coletiva, redes como a Pachamamá ajudam a romper uma das camadas mais duras da maternidade: a ideia de que cada mulher deve suportar tudo sozinha. O desafio, agora, é fazer com que essa escuta ultrapasse os grupos de apoio e alcance famílias, instituições, empresas e governos.
Porque, embora o termo “mãe solo” descreva uma realidade vivida por muitas mulheres, ele não deveria significar abandono. E nenhuma criança deveria depender da resistência silenciosa de uma mãe levada ao limite.

