João Pessoa ・ Sexta-feira ・ 25 de setembro de 2026 ・ 26º C

Banner

Cultura

“Guerreiras do K-Pop”: como uma animação virou um fenômeno mundial

Atualizada em 23/09/2026 às 17:13 Por Lucas Santos
Foto: Divulgação/Netflix
Foto: Divulgação/Netflix
Poucos filmes conseguem fazer com que uma música fictícia deixe de parecer fictícia. Menos ainda conseguem transformar personagens animadas em estrelas capazes de disputar espaço nas mesmas paradas que artistas reais. “Guerreiras do K-Pop” conseguiu os dois. Lançada pela Netflix em junho de 2025, a animação acompanha Rumi, Mira e Zoey, integrantes do HUNTR/X, um grupo feminino de K-pop que leva uma vida dupla: enquanto lotam palcos e conquistam milhões de fãs, as três também são caçadoras de demônios responsáveis por proteger a humanidade de ameaças sobrenaturais.

O que poderia parecer apenas uma combinação improvável de música, fantasia e cultura coreana rapidamente ultrapassou os limites da própria plataforma. Um ano depois, “Guerreiras do K-Pop” já não pode ser tratado apenas como um sucesso da Netflix. O filme se transformou em um fenômeno cultural que chegou às paradas musicais, às redes sociais e, posteriormente, ao Oscar.

Da animação ao fenômeno pop


A primeira grande força do filme está justamente naquilo que poderia parecer sua maior extravagância. Rumi, Mira e Zoey não são apenas cantoras: elas precisam lidar com apresentações, fama, amizade, inseguranças e expectativas enquanto enfrentam demônios e protegem o mundo. Do outro lado estão os Saja Boys, uma boy band formada por criaturas sobrenaturais que utiliza justamente o poder do entretenimento para conquistar seus fãs.

A ideia parece saída de uma mistura entre anime, fantasia e um grande show de K-pop. E é exatamente aí que a produção encontrou sua identidade. Dirigido por Maggie Kang e Chris Appelhans e produzido pela Sony Pictures Animation, o filme combina uma estética inspirada nos animes com a linguagem dos videoclipes e a grandiosidade das apresentações de K-pop. As sequências musicais não funcionam apenas como pausas entre uma cena de ação e outra: elas ajudam a contar a história, apresentar os personagens e construir o universo em que eles vivem.

Quando a trilha sonora deixou de ser apenas trilha sonora


Talvez nenhum outro elemento explique tão bem o tamanho alcançado pela produção quanto as músicas. “Golden”, interpretada por EJAE, Audrey Nuna e REI AMI como as vozes de HUNTR/X, deixou de ser uma canção de personagem e passou a ocupar um espaço próprio na cultura pop. A faixa chegou ao topo da Billboard Hot 100 e permaneceu oito semanas na primeira posição. O álbum da trilha sonora também alcançou o topo da Billboard 200 e acumulou bilhões de reproduções.

O mais curioso é que HUNTR/X e Saja Boys não existem fora da ficção. Ainda assim, suas músicas passaram a ser consumidas como se viessem de grupos reais. É uma inversão interessante do funcionamento tradicional da indústria musical: em vez de um artista ganhar uma história dentro de um filme, uma história criou artistas capazes de existir musicalmente fora dele.

“Golden” foi ainda mais longe. No Oscar de 2026, a música venceu a categoria de Melhor Canção Original e se tornou a primeira composição de K-pop a conquistar a estatueta. A própria animação também levou o Oscar de Melhor Filme de Animação. Ou seja, aquilo que começou como música de uma personagem animada acabou reconhecido pela maior premiação do cinema.

Um sucesso que não ficou preso ao streaming


“Guerreiras do K-Pop” também conseguiu algo especialmente difícil para uma produção lançada diretamente no streaming: transformar audiência em fenômeno coletivo. Segundo a Netflix, o filme chegou ao Top 10 em todos os 93 países onde a plataforma mantém rankings, liderou em 76 deles e permaneceu 52 semanas consecutivas no Top 10 Global. Ao completar um ano, a produção já havia ultrapassado 600 milhões de visualizações, tornando-se a história mais popular da Netflix.

A trilha sonora acompanhou esse crescimento. O álbum passou duas semanas no topo da Billboard 200 e ultrapassou 15 bilhões de reproduções. As músicas de HUNTR/X e Saja Boys somaram mais de 1 bilhão de streams entre Spotify e YouTube, enquanto “Golden” acumulou mais de 1 bilhão de reproduções no Spotify.

O resultado é uma produção que conseguiu reunir públicos diferentes em torno da mesma história. Tem quem tenha chegado pelo K-pop, quem tenha descoberto o filme pela animação, quem tenha se apaixonado pelas músicas e quem simplesmente tenha sido levado pelo tamanho do hype. Essa capacidade de conversar com grupos tão diferentes ajuda a entender por que a produção conseguiu ultrapassar as fronteiras de seu próprio gênero.

Por que “Guerreiras do K-Pop” conquistou tanta gente?


Porque, apesar de toda a fantasia, a história é muito humana. Por trás dos figurinos, das coreografias e das batalhas contra demônios existe uma narrativa sobre identidade, pertencimento e a dificuldade de corresponder às expectativas de quem está ao nosso redor.

Rumi precisa enfrentar aquilo que mais tenta esconder de si mesma. Mira encontra na força uma forma de se posicionar, enquanto Zoey representa uma energia mais jovem e espontânea, mas também carrega suas próprias inseguranças. As três são diferentes, mas compartilham a mesma pressão de precisar parecer fortes e perfeitas diante do público.

O filme entende que a fantasia funciona melhor quando existe alguma coisa real por trás dela. Por isso, mesmo quem nunca acompanhou K-pop consegue se reconhecer em temas como o medo de decepcionar quem se ama, a necessidade de aceitação e a busca por uma identidade própria. A estética pode ser grandiosa, mas os conflitos continuam sendo bastante familiares.

Uma animação que entendeu o momento da cultura pop


Existe também um contexto maior por trás do sucesso. O K-pop deixou de ser um fenômeno restrito à Coreia do Sul há bastante tempo e passou a ocupar um espaço central na cultura pop mundial. Grupos, artistas, coreografias e comunidades de fãs se tornaram parte da rotina de milhões de pessoas, e “Guerreiras do K-Pop” soube aproveitar esse cenário sem tratar a cultura coreana apenas como elemento visual.

A produção utiliza a estrutura dos grupos de idols, a estética dos videoclipes, os fandoms, os lightsticks, as coreografias e até a lógica de rivalidade entre grupos para construir seu próprio universo. Mas o K-pop não aparece apenas como decoração. Ele é parte da narrativa, da identidade das personagens e da própria maneira como elas enfrentam seus conflitos.

Talvez essa seja uma das principais razões pelas quais a animação tenha conseguido alcançar um público tão amplo: o filme não olha para o fenômeno de fora. Ele entra nesse universo e constrói sua história a partir dele.

E quando a Netflix percebe que criou um fenômeno?


A resposta veio rapidamente. Depois de conquistar público, crítica e premiações, a continuação de “Guerreiras do K-Pop” foi confirmada pela Netflix, mostrando que a história das HUNTR/X ainda tem espaço para crescer.

O primeiro filme, entretanto, já deixou uma marca difícil de ignorar. “Guerreiras do K-Pop” mostrou que uma animação original de streaming pode produzir personagens com força suficiente para sair da tela, dominar plataformas musicais, entrar nas paradas, conquistar premiações e criar uma comunidade global de fãs.

É uma trajetória que lembra outros grandes fenômenos da cultura pop, mas que possui uma característica própria: nasceu em uma plataforma de streaming, encontrou sua identidade na animação e ganhou vida própria através da música.

O fenômeno agora chega ao Brasil


E é justamente esse fenômeno que estará mais perto do público paraibano neste fim de semana. O Imagineland 2026 acontece de 25 a 27 de setembro, no Centro de Convenções de Campina Grande, reunindo atrações nacionais e internacionais da cultura pop.

Entre os convidados estão Analu Pimenta, Taís Feijó e Thadeu Matos, responsáveis pelas vozes brasileiras de personagens de “Guerreiras do K-Pop” na versão dublada. A presença dos três dubladores cria uma oportunidade para os fãs conhecerem um pouco mais do trabalho por trás das vozes que ajudaram a construir a identidade brasileira de personagens que conquistaram o mundo.

A participação também acontece em um momento simbólico para a animação. Depois de dominar a Netflix, chegar às paradas musicais e conquistar dois Oscars, “Guerreiras do K-Pop” desembarca em Campina Grande como uma das produções mais comentadas da cultura pop recente.

Do streaming para as playlists, das playlists para as premiações e, agora, para o palco do Imagineland. “Guerreiras do K-Pop” conseguiu transformar uma história sobre três idols que caçam demônios em algo muito maior: uma produção que atravessou a tela e passou a fazer parte da própria cultura pop que ajudou a representar.


Relacionadas