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Cultura

Análise | Em ‘ECO’, Priscilla encontra no passado uma forma de finalmente soar como ela mesma

Publicado em 20/08/2026 às 09:00 Por Lucas Rodrigues
Foto: Reprodução / Redes Sociais
Foto: Reprodução / Redes Sociais
Primeiro álbum independente da cantora recupera o R&B e o pop dos anos 2000 sem transformar nostalgia em fantasia

Há algo estranhamente familiar em “ECO”. Não necessariamente uma música ou melodia que permita apontar a referência exata. É uma sensação. A impressão constante de que aquilo já foi ouvido em algum lugar.

No meu caso, o novo álbum de Priscilla encontrou rapidamente uma memória bastante específica: os anos 2000, a adolescência ao lado da minha prima e uma época em que Rouge e RBD dividiam espaço com uma Rihanna ainda começando a carreira e uma Beyoncé consolidando a sua. Ouvir “ECO” provoca esse tipo de reconhecimento.

E não é por acaso. Priscilla construiu o projeto a partir do pop dos anos 2000, do R&B e da música gospel, mas afirmou que não queria reproduzir literalmente aquele período. O objetivo era recuperar a sensação que aquelas músicas provocavam.

É justamente aí que o álbum acerta.

Em uma indústria que descobriu ser bastante lucrativo reciclar os anos 2000, “ECO” consegue ser nostálgico sem parecer uma fantasia temática. As referências estão nas batidas, nos vocais e na construção das músicas, mas não transformam o disco em uma simples imitação. Priscilla e Laudz buscaram referências no R&B dos anos 1990 e 2000 para encontrar um som próprio dentro delas.

Essa escolha também dá espaço para o maior patrimônio artístico de Priscilla: sua voz. Ela continua mostrando potência, mas sem a necessidade de provar o tempo inteiro que sabe cantar. Há mais contenção, interpretação e suavidade. A própria cantora conta que procurou melodias nas quais os vocais pudessem ocupar o centro das músicas.

Nas letras, amor, desejo, desapego e independência atravessam um disco que parece mais seguro sobre aquilo que pretende ser. É uma diferença importante em relação a “PRISCILLA”, de 2024, um trabalho que por vezes parecia ocupado demais tentando apresentar uma nova identidade pop. Em “ECO”, essa necessidade diminui. Priscilla simplesmente parece mais confortável.

Talvez a independência tenha participação nisso. Este é o primeiro álbum desde que a cantora deixou as gravadoras e passou a comandar a própria carreira. Produzido ao lado do marido, Laudz, o projeto também nasceu sem a pressão tradicional de prazos de uma gravadora.

O resultado são dez faixas que conversam entre si e fazem “ECO” parecer um álbum de verdade, não apenas uma sequência de músicas. Há começo, caminho e conclusão.

E a conclusão talvez seja o detalhe que melhor resume o projeto. Depois de “Respirar”, última faixa, Priscilla encerra dizendo: “e esse é o meu eco”.

Fecha-se o círculo.

As referências que um dia chegaram até ela retornam transformadas em música própria. E talvez esteja aí a graça de “ECO”: quando esse som volta, encontra também as memórias de quem está ouvindo.

Não é um disco revolucionário, nem precisa ser. É coeso, agradável, bem construído e sabe exatamente a experiência que pretende entregar. Para quem guarda alguma memória afetiva do pop e do R&B dos anos 2000, há ainda um bônus difícil de fabricar.

A sensação de reencontrar alguma coisa que você nem lembrava que estava procurando.


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