Cotidiano
Zezita Matos: A cronista da alma paraibana e a resistência das artes no Sertão
Publicado em 09/03/2026 às 19:15 Por Redação
A sua trajetória é, fundamentalmente, uma narrativa de resistência. Enquanto a indústria cultural brasileira muitas vezes exige que o artista abandone o seu sotaque e as suas origens para "caber" em um molde nacional, Zezita fez o caminho inverso: ela obrigou o cenário artístico a reconhecer a Paraíba como um centro de potência. Nos anos 60 e 70, quando fazer teatro no interior do Nordeste era um ato de sobrevivência, ela não apenas atuava; ela fundava espaços, formava grupos e escrevia, com os pés no chão de terra, a gramática cênica do estado. Ela entendeu, antes de muitos, que o teatro não é um luxo, mas uma necessidade orgânica de qualquer povo que deseja se compreender.
Como mulher, Zezita Matos ocupa um lugar de rara distinção. Ela é a "primeira-dama" do teatro não por concessão política ou por títulos honoríficos, mas pelo reconhecimento irrestrito de quem viu, ao longo de gerações, essa mulher transformar o palco em um espelho da própria sociedade. Em sua atuação, não há o artificialismo das técnicas decoradas. O que vemos em Zezita é uma entrega crua, a capacidade de interpretar a mulher paraibana com todas as suas camadas: a força que não se rompe, a ironia que desmascara a hipocrisia e uma resiliência que atravessa as rugas e o olhar. Ela humaniza o sofrimento sem cair no miserabilismo e celebra a alegria sem perder a sobriedade.
O seu valor para a representatividade é incalculável. Zezita é a prova viva de que a maturidade feminina nas artes não é um fim de carreira, mas o ápice da potência. Enquanto muitas atrizes são descartadas pela indústria ao envelhecerem, Zezita ganhou, com o tempo, uma autoridade cênica que poucos possuem. Ela nunca precisou buscar a validação nos grandes centros urbanos do país para ser considerada uma mestre. Ela estabeleceu as suas regras em sua própria terra, provando que o talento, quando temperado pela verdade e pelo compromisso ético, transcende qualquer fronteira geográfica.
Hoje, falar de Zezita Matos é falar da identidade paraibana. Ela é o elo entre o teatro amador, movido por um idealismo quase ingênuo, e o cinema profissional que hoje a reverencia como um monumento. O seu maior legado, contudo, talvez não esteja nos registros de suas performances, mas no impacto que causou na vida de incontáveis artistas que aprenderam com ela que atuar é um ato de responsabilidade social. Zezita não apenas ocupou o teatro: ela o tornou um lugar de acolhimento. Ao vê-la em cena, a Paraíba se vê reconhecida, sem filtros e com dignidade. Ela não é apenas uma atriz de sua terra; ela é a alma que dá liga à nossa memória.
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