As publicações afirmam que aparelhos da Apple estariam sendo encontrados “como pedras” depois que uma embarcação ligada aos Emirados Árabes Unidos teria atingido uma mina naval.
A história, porém, mistura informações verdadeiras, versões ainda em disputa e imagens falsas produzidas por inteligência artificial.
O que aconteceu de fato com o navio?
A Autoridade Marítima e Portuária de Singapura informou que a embarcação sofreu danos, pegou fogo e posteriormente afundou. Os 21 tripulantes foram retirados em segurança e não houve feridos.
A empresa responsável pela gestão da embarcação é sediada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Por isso, alguns relatos passaram a descrevê-la simplificadamente como “navio dos Emirados”, embora sua bandeira fosse de Singapura.
Foi uma mina naval?
A Guarda Revolucionária do Irã afirma que o GFS Pride entrou em uma rota considerada por Teerã “não autorizada e perigosa” e acabou atingindo uma mina naval.
Mas autoridades marítimas internacionais e fontes de segurança apresentam outra versão.
O UK Maritime Trade Operations informou que um porta-contêineres foi atingido por um projétil não identificado no estreito. A própria autoridade de Singapura também falou em projéteis de origem desconhecida.
A Reuters informou que fontes marítimas igualmente apontam para um ataque com projétil. Empresas de segurança marítima disseram não haver, até agora, evidência independente suficiente para comprovar que uma mina provocou o naufrágio.
Portanto, afirmar categoricamente que o navio “bateu numa mina iraniana” ainda é precipitado.
Navio estava seguindo instruções dos Estados Unidos?
Os Estados Unidos mantêm atualmente uma operação naval na região e orientam embarcações comerciais que transitam pelo Golfo de Omã e pelas aproximações do Estreito de Ormuz a acompanhar avisos marítimos e manter contato com forças navais americanas.
Washington também afirma que não pretende impedir a passagem de navios que estejam em trânsito entre portos não iranianos.
O Irã, por outro lado, contesta uma rota utilizada por embarcações mais ao sul, próxima à costa de Omã, e diz que navios que não respeitam suas determinações correm riscos.
Isso criou dois sistemas concorrentes de orientação à navegação.
Mas não há confirmação pública de que o GFS Pride tenha recebido uma ordem direta dos Estados Unidos para seguir determinada rota ou que tenha deliberadamente ignorado uma advertência iraniana específica imediatamente antes do incidente.
E os contêineres boiando?
Fotos registradas após o naufrágio mostram contêineres à deriva no Estreito de Ormuz. Autoridades marítimas chegaram a alertar outras embarcações sobre o risco representado pelas estruturas flutuando na região.
O GFS Pride tinha capacidade para aproximadamente 2.824 contêineres.
A Guarda Revolucionária iraniana afirmou que o navio transportava mais de 2.500 unidades e classificou parte da carga como contrabando. Essa informação, porém, também não foi comprovada por fontes independentes.
Havia iPhones dentro?
Alguns veículos estrangeiros publicaram relatos de pessoas em pequenas embarcações recuperando mercadorias e de supostos aparelhos e perfumes sendo oferecidos posteriormente.
Mas as próprias reportagens reconhecem que esses vídeos não puderam ser verificados de forma independente.
A situação ficou ainda mais confusa porque conteúdos falsos começaram a circular rapidamente.
Vídeos de milhares de iPhones são feitos com IA
Entre os problemas identificados estão:
- movimentos fisicamente incoerentes dos celulares;
- pessoas praticamente imóveis apesar do movimento das embarcações;
- caixas de iPhone com formatos e inscrições incorretos;
- elementos visuais incompatíveis com produtos reais da Apple.
Outra verificação encontrou inclusive marca digital associada a ferramentas de inteligência artificial em uma das imagens amplamente divulgadas.
Isso significa que um acontecimento real — um navio afundou e contêineres ficaram boiando — acabou servindo de matéria-prima para a criação de vídeos falsos.
Então ninguém encontrou iPhones?
Há relatos não confirmados de pessoas recuperando mercadorias no mar e de celulares sendo anunciados no Irã como suposto “espólio de guerra”. A polícia cibernética iraniana chegou a alertar consumidores sobre possíveis golpes relacionados a essas ofertas.
O problema é que, sem o manifesto da carga e sem verificação individual dos vídeos, não é possível saber: se havia iPhones no navio; quantos aparelhos existiam; quais vídeos mostram realmente a carga do GFS Pride; e quais foram produzidos artificialmente.
Estreito de Ormuz vive escalada de ataques
O UKMTO registrou uma sucessão de ataques contra navios comerciais em outubro, incluindo petroleiros e porta-contêineres atingidos por projéteis.
A Reuters informou que dois navios afundaram em um intervalo de aproximadamente 24 horas: o GFS Pride e o graneleiro Cape Dao.
O Estreito de Ormuz é uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo e historicamente responde por parcela relevante do transporte internacional de petróleo e gás.
Afinal, a história é verdadeira ou falsa?
PARCIALMENTE VERDADEIRA, MAS ENGANOSA.
É verdade que:
- um porta-contêineres ligado a uma empresa dos Emirados e registrado em Singapura afundou;
- contêineres ficaram boiando;
- o Irã afirma que houve uma mina naval;
- existe disputa entre orientações iranianas e americanas sobre a navegação na região.
- uma mina tenha sido efetivamente a causa do naufrágio;
- o navio tenha ignorado uma advertência direta do Irã por ordem dos Estados Unidos;
- a carga possuísse milhares de iPhones;
- os vídeos virais de iranianos recolhendo celulares mostrem acontecimentos reais.

