Cotidiano
Quem era Erick? Motoboy morto em João Pessoa esperava o primeiro filho
Publicado em 31/08/2026 às 05:00 Por Lucas Rodrigues
Neste domingo (30), debaixo de chuva, familiares, amigos e muitos trabalhadores por aplicativo acompanharam o último percurso do jovem. O destino, desta vez, não aparecia na tela de um celular. Era o Cemitério Senhor da Boa Sentença, no Centro da Capital.
O corpo havia sido liberado por volta do meio-dia pelo Instituto de Polícia Científica (IPC), no bairro do Cristo. Às 14h, Erick foi sepultado entre homenagens e pedidos de justiça. Motoboys acompanharam o cortejo daquele que, poucos dias antes, era apenas mais um deles pelas ruas de João Pessoa.
Mas quem era Erick?
Para a família, era um jovem que trabalhava e não tinha envolvimento com atividades criminosas. Para uma criança que ajudou a criar durante um relacionamento anterior, era uma figura paterna. Para a atual companheira, grávida de sete meses, era o homem cuja volta para casa era esperada. Para os colegas, era mais um trabalhador que saía todos os dias sem saber exatamente o que encontraria pelo caminho.
A tia, Laudijane do Nascimento, tenta afastar da memória do sobrinho a narrativa de uma suposta traição. Segundo ela, Erick continuava próximo da criança que ajudou a criar, mesmo depois do fim do relacionamento com a mãe dela.
“A gente quer justiça para botar os culpados na cadeia”, afirmou. Para ela, o sobrinho “vivia pro trabalho” e acabou pagando justamente por continuar oferecendo carinho a uma criança. “Não teve nenhuma traição”, reforçou.
Uma corrida sem volta
Erick desapareceu depois de sair para trabalhar como motociclista por aplicativo. O último contato com a família ocorreu durante a madrugada de terça-feira (25). A partir dali, começou uma procura que atravessaria vários dias e diferentes cidades. A motocicleta usada pelo jovem foi localizada em Caaporã, no Litoral Sul. Informações também levaram as buscas até Lucena, mas Erick não estava lá.
Na sexta-feira (28), a investigação chegou a um homem apontado como atual companheiro da ex-namorada de Erick. Segundo a Polícia Civil, ele confessou ter participado da tortura do motoboy e afirmou que outros dois integrantes de uma facção criminosa participaram da violência. O suspeito negou ter cometido o homicídio.
A investigação também revelou como Erick teria sido atraído para o local. Segundo a polícia, o suspeito teria usado o celular da própria companheira para enviar uma mensagem ao motoboy, fazendo-se passar por ela. A mulher negou que mantivesse um relacionamento amoroso com Erick e relatou à polícia ter sido vítima de violência doméstica em razão da suspeita levantada pelo companheiro.
No sábado (29), a procura terminou. Não como todos esperavam.
“A gente já estava desistindo”
Foram os próprios colegas e familiares que chegaram até a região onde Erick estava.
Beethoven, liderança entre os motoboys que participaram das buscas, contou que o grupo recebeu uma informação de que o corpo poderia estar em uma área de mata. Eles pediram autorização para entrar na comunidade e começaram a procurar.
Em determinado momento, estavam prestes a voltar, até que uma pessoa decidiu avançar um pouco mais. Foi assim que encontraram Erick.
O corpo estava em uma região encharcada e de difícil acesso. O Corpo de Bombeiros precisou mobilizar duas equipes para realizar a retirada. Segundo a corporação, quando foi localizado, o jovem apresentava rigidez cadavérica e possivelmente estava naquele ponto havia alguns dias. A causa da morte ainda depende da perícia.
A descoberta encerrou a busca pelo jovem, mas abriu outra espera para quem ficou: a espera por respostas.
Uma casa que esperava Erick voltar
Há uma imagem que ajuda a explicar o tamanho do vazio deixado pela morte do motoboy.
Enquanto os colegas atravessavam a mata procurando por ele, em casa havia uma companheira grávida de sete meses esperando notícias.
Havia também uma criança com quem Erick construiu um vínculo durante o relacionamento anterior. Embora não fosse seu pai biológico, informações reunidas durante a investigação apontam que os dois eram próximos e que a menina o reconhecia como figura paterna. Era justamente esse vínculo que, segundo familiares, fazia Erick continuar mantendo contato com a ex-companheira.
Por isso, a família insiste que a história de Erick não termine reduzida à versão sobre um suposto relacionamento amoroso.
Antes de ser vítima de um crime, ele tinha uma rotina. Trabalhava. Tinha família. Criava vínculos. Fazia planos. Esperava um filho. E tinha 23 anos.
“Respeitem o trabalhador”
A morte de Erick também atravessou uma categoria acostumada a viver entre entregas, corridas, buzinas, chuva, sol e riscos.
Ao falar sobre o colega, Beethoven transformou o luto em um pedido.
Lembrou que trabalhadores por aplicativo entram diariamente em condomínios e comunidades, levam comida, medicamentos e passageiros. Muitos compram a motocicleta parcelada durante anos e dependem dela para colocar dinheiro dentro de casa.
“A gente não aguenta mais”, desabafou. O apelo terminou simples: “Respeitem o trabalhador”.
Neste domingo, vários deles deixaram as entregas por algumas horas para acompanhar Erick.
Debaixo de chuva, as motocicletas que normalmente carregam refeições e passageiros carregaram uma despedida.
O caso continua sob investigação da Polícia Civil. Ainda será necessário esclarecer quem matou Erick, como ele morreu e a participação de cada pessoa envolvida. Para a Justiça, essas respostas serão fundamentais. Para quem o amava, porém, existe uma resposta que não depende de inquérito.
Quem era o motoboy Erick?
Era um jovem de 23 anos que trabalhava sobre uma moto. Era companheiro de uma mulher que espera um filho. Era referência paterna para uma criança que não precisava carregar o seu sangue para receber o seu afeto. Era sobrinho, amigo e colega de profissão.
Durante alguns dias, João Pessoa procurou por Erick. Neste domingo, encontrou-se diante daquilo que ninguém queria encontrar: a necessidade de se despedir dele.
Agora, sua família não procura mais por Erick. Procura por justiça.
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