João Pessoa ・ Sabado ・ 10 de outubro de 2026 ・ 26º C

Cotidiano

MATÉRIA ESPECIAL: Campina Grande celebra 162 anos entre história, cultura e transformação

Atualizada em 09/10/2026 às 08:21 Por Lucas Rodrigues
Foto: Reprodução / Redes Sociais
Foto: Reprodução / Redes Sociais
Há cidades que parecem guardar a própria história em museus. Campina Grande espalhou a sua pelas ruas. Está no movimento dos comerciantes que abrem as portas no Centro, nas conversas que atravessam as bancas da Feira Central, nas águas do Açude Velho e nas músicas que transformaram o nome da cidade em memória afetiva de gerações. Neste domingo (11), quando completa 162 anos de emancipação política, a Rainha da Borborema celebra mais do que a passagem do tempo. Reencontra, em cada um desses lugares, as diferentes versões de si mesma.

A Campina Grande de hoje não nasceu pronta. Antes de se tornar um dos principais centros urbanos do interior nordestino, foi ponto de passagem, encontro e comércio. A circulação de tropeiros e mercadorias ajudou a construir uma vocação econômica que atravessaria séculos. O que começou nas antigas rotas comerciais ganhou força com as feiras, o algodão, a chegada da ferrovia e, mais tarde, com a expansão da indústria, dos serviços e das instituições de ensino.

Foi em 11 de outubro de 1864 que a então vila de Campina Grande foi elevada oficialmente à categoria de cidade, por meio da Lei Provincial nº 127. Naquele momento, a região já desempenhava um papel importante nas relações comerciais entre o interior e outras localidades do Nordeste. O reconhecimento político acompanhava uma transformação que havia começado muito antes daquela assinatura.

Mas a história da cidade também antecede os tropeiros e a administração colonial. A região já era habitada por povos indígenas, cuja presença e experiências de violência durante a colonização fazem parte de um passado que não pode ser reduzido à narrativa do desenvolvimento econômico.

Com o passar das décadas, Campina Grande cresceu em torno daquilo que sabia fazer: reunir pessoas, movimentar negócios e estabelecer conexões. A chegada do trem, em 1907, ampliou as possibilidades de circulação de mercadorias. O algodão impulsionou a economia e ajudou a projetar a cidade para além das fronteiras paraibanas. O comércio se fortaleceu e a população encontrou novas formas de ocupar um espaço urbano em constante transformação.

Parte dessa história permanece viva na Feira Central.

Reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil em 2017, a feira é uma das expressões mais antigas da relação de Campina Grande com o comércio popular. Ali, a cidade não aparece apenas nas mercadorias. Está na maneira de negociar, nas conversas entre vendedores e fregueses, nos alimentos, no artesanato e nos conhecimentos transmitidos entre gerações.

O reconhecimento patrimonial não transformou a feira em uma peça do passado. Pelo contrário. Ela continua sendo um espaço de trabalho, abastecimento e convivência, frequentado por moradores da cidade e de municípios vizinhos. É um lugar onde a memória histórica precisa dividir espaço com as necessidades práticas de quem depende do comércio para viver.

Essa relação entre passado e presente também aparece no Centro. As ruas que acompanharam o crescimento comercial continuam recebendo diariamente trabalhadores, consumidores e pessoas que chegam de outras cidades para resolver demandas. As fachadas mudaram, os negócios se modernizaram e as formas de comprar já não são as mesmas. Ainda assim, a movimentação comercial permanece como uma das características mais reconhecíveis de Campina Grande.

Se o comércio ajudou a construir a cidade, a cultura ajudou a torná-la conhecida.

Campina Grande projetou sua identidade por meio da música, das festas populares e das manifestações artísticas. O São João, que se tornou uma de suas principais referências nacionais, transformou tradições nordestinas em um evento de grandes proporções. Ao mesmo tempo, a cultura campinense vai além do calendário junino. Está nas composições que retratam bairros, nas expressões populares e nos artistas que encontraram na cidade inspiração para contar suas próprias histórias.

Não por acaso, algumas dessas músicas voltarão a ser ouvidas durante as comemorações dos 162 anos. Canções como "Tropeiros da Borborema", "Bodocongó" e "Saudade de Campina Grande" ajudam a preservar referências de uma cidade que se modificou profundamente desde que seus versos começaram a circular.

A própria paisagem urbana revela esse encontro entre diferentes épocas.

O Açude Velho, construído no século XIX como reservatório de água, passou por transformações até se tornar um dos principais cartões-postais do município. O espaço que antes atendia a uma necessidade de abastecimento hoje integra a rotina de caminhadas, exercícios físicos, encontros e atividades culturais.

Às suas margens, o Museu de Arte Popular da Paraíba, conhecido como Museu dos Três Pandeiros, acrescentou uma nova marca à paisagem. Projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 2012, o equipamento reúne arquitetura contemporânea e manifestações da cultura popular, aproximando expressões artísticas de diferentes gerações.

A presença do museu ao lado de um reservatório histórico resume uma característica da própria cidade: Campina Grande cresceu incorporando novas funções a espaços que já faziam parte de sua identidade.

Essa capacidade de transformação também alcançou outras áreas. A cidade consolidou instituições de ensino superior, atividades de pesquisa e um ambiente ligado ao desenvolvimento tecnológico, ampliando sua importância para além do comércio e das manifestações culturais. A Campina dos tropeiros passou a conviver com universidades, laboratórios, empresas e profissionais envolvidos na produção de conhecimento e inovação.

Mas completar 162 anos também significa olhar para aquilo que ainda precisa mudar.

O crescimento urbano trouxe demandas por mobilidade, habitação, infraestrutura, preservação do patrimônio histórico e acesso aos serviços públicos. A valorização dos espaços tradicionais precisa conviver com as necessidades de uma cidade que continua se expandindo. Preservar a Feira Central, cuidar do Açude Velho e manter viva a história do Centro são desafios que ultrapassam a celebração de um aniversário.

Porque a cidade que aparece nos cartões-postais é também aquela onde milhares de pessoas trabalham, estudam, enfrentam o trânsito, utilizam o transporte público e constroem suas rotinas. O desenvolvimento de Campina Grande não se mede apenas pelas obras que modificam sua paisagem, mas também pelas condições de vida de quem ocupa esse território diariamente.

Neste aniversário, a música será uma das formas escolhidas para celebrar essa trajetória. Na segunda-feira (12), a partir das 19h, o Espaço Cultural Shaolin, no Centro de Convenções Antônio Vital do Rêgo, receberá uma programação gratuita promovida pelo Governo da Paraíba.

O concerto "Prima - Elas Cantam Campina" reunirá dez cantoras campinenses, acompanhadas por músicos do Programa de Inclusão Social Através da Música e das Artes (Prima), sob regência do maestro Rainere Travassos. Às 20h30, Geraldo Azevedo subirá ao palco acompanhado da Camerata Parahyba. Os ingressos gratuitos são disponibilizados pela plataforma Sympla.

A escolha de músicas que atravessam a história local estabelece uma ligação entre o aniversário e a memória de quem viveu diferentes momentos da cidade. Afinal, Campina Grande também existe nas lembranças de quem deixou suas ruas, nas histórias de famílias que permaneceram e nas experiências daqueles que chegaram depois.

São 162 anos desde que uma lei reconheceu oficialmente Campina Grande como cidade. Mas nenhuma lei seria capaz de reunir, em poucas linhas, tudo aquilo que a transformou na Rainha da Borborema.

O comércio que a fez crescer continua movimentando suas ruas. A feira que ajudou a construir sua identidade permanece recebendo gerações. O açude que serviu ao abastecimento tornou-se lugar de convivência. A música que nasceu das experiências de seu povo segue contando histórias que o tempo não apagou.

Entre aquilo que foi, o que se tornou e o que ainda pretende ser, Campina Grande chega a mais um aniversário sem caber inteiramente nas próprias lembranças.

Porque 162 anos contam a idade de uma cidade. Não tudo o que ela viveu.

Relacionadas