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Cotidiano

Luiza Erundina: A força de Uiraúna que conquistou o comando da maior metrópole da América Latina

Publicado em 05/03/2026 às 20:05 Por Redação
Foto: Reprodução
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Luiza Erundina de Sousa não é apenas uma política de carreira; ela é a personificação da resiliência sertaneja que desafiou as estruturas de poder no Brasil. Nascida em Uiraúna, no Alto Sertão paraibano, em 30 de novembro de 1934, Erundina foi a sexta de dez filhos de uma família humilde, filha de um seleiro e uma artesã. Sua trajetória foi marcada desde cedo pela superação: vinda de uma região castigada pela seca e pela desigualdade, ela encontrou na educação o caminho para a transformação social. Formou-se em Serviço Social pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e, na década de 1970, migrou para São Paulo, levando consigo a bagagem de quem conhecia a fome e a injustiça, mas também a força da organização popular paraibana.

Em São Paulo, Erundina mergulhou no trabalho social em favelas e periferias, unindo-se aos movimentos de base que lutavam contra a ditadura militar e pela redemocratização. Sua atuação firme e ética a levou a ser uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores (PT) e a conquistar mandatos como vereadora e deputada estadual. No entanto, foi em 1988 que ela protagonizou um dos feitos mais extraordinários da história política brasileira: contra todos os prognósticos e enfrentando as elites tradicionais, Luiza Erundina foi eleita a primeira mulher prefeita de São Paulo. Aquela vitória não era apenas o triunfo de um partido, mas o símbolo de uma mulher nordestina, solteira e assistente social assumindo as rédeas do coração econômico e financeiro do continente.

Durante os quatro anos de sua gestão (1989-1992), Erundina revolucionou a forma de governar, priorizando o que chamava de "inversão de prioridades". Seu governo levou o orçamento público para onde a cidade mais precisava: as periferias. Ela implementou projetos habitacionais inovadores através de mutirões autogeridos, fortaleceu a rede de saúde e teve a sensibilidade de convidar o mestre Paulo Freire para ser seu secretário de Educação. Mesmo enfrentando o machismo institucional, boicotes políticos e as dificuldades de uma cidade em constante crise, ela manteve a cabeça erguida, provando que a ética sertaneja de Uiraúna era incorruptível. Sua administração deixou marcas profundas na infraestrutura social de São Paulo, pavimentando o caminho para futuras gerações de mulheres na política.

O legado de Luiza Erundina permanece vivo e vibrante aos 91 anos de idade. Com sucessivos mandatos como deputada federal, ela é hoje uma das figuras mais respeitadas do Congresso Nacional, reconhecida pela coerência e pela defesa intransigente dos direitos humanos e das minorias. Em 2020, ao ser candidata a vice-prefeita de São Paulo ao lado de Guilherme Boulos, mostrou que sua energia política não tem prazo de validade. Luiza Erundina não esqueceu suas raízes; ela transformou a saudade de Uiraúna em combustível para lutar por um Brasil mais justo. De sua infância no Sertão ao comando da maior metrópole da América Latina, sua história é o testemunho de que a voz de uma mulher paraibana, quando ecoa com verdade, é capaz de mover as estruturas de uma nação inteira.
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