Cotidiano
Jararaca encontrada apenas na Paraíba mobiliza pesquisadores em projeto de preservação na Serra do Teixeira
Atualizada em 15/10/2026 às 09:01 Por Lucas Rodrigues
A descoberta ocorreu durante estudos sobre a fauna da Serra do Teixeira, região que abriga o Pico do Jabre, ponto mais alto da Paraíba. A identificação da espécie ampliou o conhecimento científico sobre a biodiversidade local e chamou a atenção para a necessidade de proteger os ambientes naturais onde esses animais vivem.
O que diferencia a jararaca-do-Jabre de outras serpentes é um conjunto de características físicas e comportamentais, analisadas pelos pesquisadores durante o processo de identificação. A espécie possui particularidades na disposição das escamas, na coloração e em aspectos de seu comportamento.
A ocorrência limitada a uma região específica é um dos principais fatores de preocupação. Alterações na vegetação, degradação ambiental e intervenções no habitat podem representar riscos à sobrevivência de uma população que não possui ampla distribuição territorial.
O primeiro registro ocorreu em 2016, quando o professor Marcelo Kokubum, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), encontrou duas serpentes sobre uma árvore, a aproximadamente um metro de altura. O comportamento chamou a atenção do pesquisador por ser incomum entre as jararacas da região.
Após análises das escamas e da coloração dos animais, amostras foram estudadas pelo Instituto Butantan, em São Paulo. Exames genéticos confirmaram diferenças em relação à jararaca-da-caatinga. A espécie recebeu o nome científico de Bothrops jabrensis e foi oficialmente catalogada em 2022, quando também passou a integrar a lista de animais criticamente ameaçados de extinção.
A preservação da serpente envolve uma parceria entre a UFCG e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), com participação do Instituto Butantan nas pesquisas científicas. O trabalho reúne expedições para observar os animais e atividades de educação ambiental nas comunidades próximas ao Parque Nacional da Serra do Teixeira.
Criado em 2023, o parque possui aproximadamente 61 mil hectares e abrange 12 municípios paraibanos. A iniciativa de conservação percorre escolas dessas cidades, em parceria com as secretarias municipais de Educação, para orientar estudantes e professores sobre a importância da fauna local e os cuidados necessários para preservar o ambiente.
Segundo o agente ambiental Adão Batista, do ICMBio, a proposta é aproximar a população das pesquisas e formar multiplicadores do conhecimento ambiental. As atividades também abordam a prevenção de acidentes com serpentes e as medidas necessárias em caso de picadas.
Outro desafio é compreender melhor a biologia da jararaca-do-Jabre. Os pesquisadores ainda não sabem quantos indivíduos vivem na natureza e buscam informações sobre alimentação, reprodução e comportamento. Também não existe, até o momento, um soro antiofídico desenvolvido especificamente para a espécie, tema que está sendo estudado pelo Instituto Butantan.
Entre os próximos passos está a tentativa de ampliar a reprodução da serpente em ambiente controlado. De acordo com Marcelo Kokubum, a experiência já foi realizada uma vez, com o nascimento de oito filhotes. Uma nova etapa depende de autorização para dar continuidade ao trabalho.
Além da conservação da espécie, os pesquisadores destacam que a proteção do Parque Nacional da Serra do Teixeira também pode contribuir para o equilíbrio ambiental e o desenvolvimento de atividades como o ecoturismo. Para uma cobra que não possui registros em nenhuma outra região do planeta, preservar o Pico do Jabre significa proteger seu único habitat conhecido.
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