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Cotidiano

Do litoral ao Sertão: histórias revelam diferentes realidades de ensinar na Paraíba

Publicado em 15/10/2026 às 07:30 Por Lucas Rodrigues
Foto: Reprodução / ASCOM PMJP
Foto: Reprodução / ASCOM PMJP
Antes de uma criança aprender a escrever o próprio nome, existe alguém disposto a ensinar as primeiras letras. Antes de um estudante descobrir o funcionamento do universo, existe quem transforme a curiosidade em conhecimento. E, antes de qualquer profissão, existe uma sala de aula. Na Paraíba, essa história se repete diariamente, do litoral ao Sertão, em escolas que compartilham a mesma missão, mas nem sempre as mesmas condições, caminhos ou oportunidades.

Neste 15 de outubro, Dia dos Professores, as histórias de educadores e estudantes ajudam a revelar as diferentes faces do ensino paraibano. Entre escolas de tempo integral, laboratórios de tecnologia, comunidades rurais e salas de alfabetização de adultos, a educação assume formas tão diversas quanto os territórios onde acontece. São experiências que atravessam gerações e mostram como o trabalho docente se relaciona com as transformações sociais, os investimentos públicos e a realidade de cada município.

Em João Pessoa, a professora Marina Teixeira conhece diferentes lados dessa trajetória. Integrante da rede municipal desde 2015, ela já passou por escolas nos bairros dos Expedicionários, Mandacaru e Penha. Atualmente, conforme perfil divulgado pela Prefeitura da Capital em 2025, leciona Geografia na Escola Municipal Leonel Brizola, em Tambauzinho, onde também desenvolve atividades relacionadas ao protagonismo estudantil e à área de ciências humanas.

A escolha pela profissão começou ainda na adolescência, influenciada pela mãe, que também era professora, e por outras mulheres da família que encontraram na educação um caminho de autonomia. Anos depois, Marina passou a ocupar o lugar de quem desperta nos estudantes a mesma relação com o conhecimento que conheceu dentro de casa.

“Eu fui incentivada pelos meus pais a ser uma pessoa independente e autônoma desde muito nova e sempre gostei de estudar e de ir à escola. Então eu procuro despertar esse sentimento nos alunos”, contou à Prefeitura de João Pessoa.

Na escola onde trabalha, o ensino em tempo integral faz parte da rotina desde 2023. Para Marina, a dedicação à mesma unidade contribui para fortalecer os vínculos com os estudantes. É uma experiência que revela como ensinar também depende de conhecer o cotidiano dos alunos, acompanhar suas dificuldades e reconhecer os caminhos que cada um percorre até chegar à sala de aula.

Mas a professora também chama atenção para uma questão que acompanha a carreira docente em diferentes regiões do país: o reconhecimento profissional. Na entrevista, ela destacou que os desafios não se limitam à remuneração, envolvendo também a carga de trabalho e a valorização social da profissão.

A realidade de Marina é uma entre muitas existentes na própria capital. Em uma cidade onde diferentes bairros convivem com condições sociais distintas, o endereço da escola não explica, sozinho, a experiência de ensinar. A estrutura disponível, o perfil dos estudantes, o apoio pedagógico e a organização da rede também fazem parte dessa história.

A algumas centenas de quilômetros de João Pessoa, o cenário muda. No Sertão, a relação entre educação e território pode começar muito antes da primeira aula, ainda no caminho que separa a casa dos estudantes da escola.

Em Paulista, um episódio registrado em 2023 mostrou como as condições de deslocamento podem interferir diretamente na aprendizagem. Após fortes chuvas danificarem uma ponte na zona rural do município, estudantes precisaram atravessar um rio para conseguir assistir às aulas. Alguns chegavam depois do início das atividades e precisavam deixar a escola mais cedo para realizar o percurso de volta.

Na época, a professora Fátima Ribeiro relatou que a situação afetava a frequência e os horários dos alunos. O problema não estava dentro da sala de aula, mas alcançava diretamente o tempo disponível para aprender. O episódio, registrado há três anos, não permite afirmar que as mesmas condições persistem atualmente. Ainda assim, ajuda a compreender como a educação também depende de estradas, transporte e infraestrutura das comunidades atendidas.

Entre a experiência de Marina, em João Pessoa, e a de Fátima, no Sertão, existe uma diferença de paisagem, mas também uma questão comum: o trabalho do professor não acontece isoladamente. Ele depende de condições que ultrapassam os limites da escola e envolvem as redes de ensino, as famílias e as políticas públicas.

Essa relação aparece nos dados mais recentes sobre conectividade escolar. Segundo o Censo Escolar de 2025, divulgado pelo Ministério da Educação, 93,9% das escolas públicas da Paraíba tinham acesso à internet. Nas áreas urbanas, o percentual chegava a 94,8%, enquanto nas escolas rurais alcançava 92,8%.

Os números mostram uma aproximação entre as duas realidades. Em 2015, apenas 19,9% das escolas públicas rurais do estado estavam conectadas. Dez anos depois, o índice havia ultrapassado 90%. Entretanto, a existência de conexão não significa, necessariamente, que ela esteja disponível para as atividades dos estudantes. Em 2025, 65,1% das escolas públicas paraibanas possuíam internet destinada ao ensino e à aprendizagem.

A diferença entre estar conectado e conseguir utilizar a tecnologia pedagogicamente ajuda a explicar uma das transformações que atravessam a educação contemporânea. O desafio não é apenas levar equipamentos às escolas, mas incorporá-los às aulas, à formação dos professores e às experiências dos estudantes.

Na Escola Municipal Aruanda, no bairro dos Bancários, em João Pessoa, essa transformação ganhou espaço dentro de um laboratório de Ciências. Ali, estudantes participam de experiências, desenvolvem projetos e se preparam para competições científicas. Entre eles está Vinicius Otávio, de 13 anos, aluno do 9º ano e integrante do Clube de Ciências.

Em reportagem publicada pela Prefeitura de João Pessoa em 2026, Vinicius contou que participa da construção de foguetes e destacou a importância do laboratório para o desenvolvimento das atividades e a convivência com os colegas.

“Estudar para as Olimpíadas em um laboratório de Ciências como o nosso, realmente, ajuda muito a desenvolver o projeto e também na interação com os colegas de turma”, afirmou.

Na mesma escola, a professora Isabel Feitosa acompanha as atividades científicas e utiliza o espaço para estimular a experimentação. A experiência mostra uma dimensão do ensino em que o estudante deixa de apenas receber informações e passa a investigar, testar hipóteses e construir respostas.

A rede municipal de João Pessoa também vem ampliando ambientes de aprendizagem com recursos tecnológicos, como salas Maker e salas Google. As iniciativas incluem atividades de programação, robótica e produção de projetos, aproximando os conteúdos escolares de ferramentas presentes em diferentes áreas do conhecimento.

Mas seria um equívoco imaginar que experiências desse tipo estejam restritas à capital.

Em Sousa, no Sertão paraibano, o estudante Erick Ismael, do 2º ano do ensino médio, participou, em março de 2026, da apresentação de uma Sala do Amanhã Digital na Escola Cidadã Integral Técnica Chiquinho Cartaxo. O espaço integra uma iniciativa da rede estadual voltada à utilização de recursos como robótica e outras tecnologias no processo de aprendizagem.

“Usando a tecnologia e os equipamentos da robótica é possível desenvolvermos iniciativas que colaborem com a sociedade”, afirmou o estudante durante a programação.

As experiências de Vinicius e Erick acontecem em cidades diferentes, em redes e etapas de ensino distintas. Não são suficientes para medir a qualidade da educação de cada região, mas revelam algo importante: as oportunidades de aprendizagem não se distribuem apenas conforme a distância da capital. Também são construídas por projetos pedagógicos, investimentos e iniciativas desenvolvidas em cada escola.

Na rede estadual, o programa Amanhã Digital prevê a incorporação de ferramentas tecnológicas ao ensino. Entre as ações anunciadas está a implantação de espaços com equipamentos de realidade virtual, acompanhada de formação para professores. Em 2025, a Secretaria de Estado da Educação iniciou uma capacitação para 90 profissionais, dentro de uma proposta que previa atender inicialmente 100 escolas.

A formação docente também integra outras iniciativas estaduais. Criado em 2024, o Transforma Educação PB registrou 13.152 profissionais inscritos em 2026, segundo informações divulgadas pela Secretaria de Estado da Educação. O programa oferece ciclos de formação continuada voltados à atualização das práticas pedagógicas e às demandas da educação básica.

O alcance das políticas educacionais se estende também às redes municipais. Por meio do Alfabetiza Mais Paraíba, instituído em 2023, o Governo do Estado mantém uma parceria com os 223 municípios para fortalecer a alfabetização das crianças até o final do segundo ano do ensino fundamental.

A iniciativa reúne ações de formação, acompanhamento da aprendizagem e apoio pedagógico às escolas. Em 2026, o programa destinou R$ 8 milhões à premiação de 100 unidades reconhecidas pelos resultados educacionais e previu outros R$ 4 milhões para apoiar 100 escolas selecionadas para acompanhamento e fortalecimento das práticas de ensino.

São recursos que integram uma política de colaboração entre o Estado e os municípios, especialmente importante em uma rede educacional formada por cidades com diferentes populações, estruturas administrativas e necessidades.

A valorização profissional também aparece entre as ações estaduais. Em janeiro de 2026, foram entregues os prêmios Professor Nota 1000 e Escola Nota 1000, que contemplaram 3.307 professores e 229 escolas da rede estadual, com investimento informado superior a R$ 56 milhões. Em março, mil professores aprovados em concurso público tomaram posse, ampliando o quadro de profissionais efetivos da rede.

Os programas, premiações e contratações representam diferentes frentes de atuação. Seus efeitos sobre a aprendizagem, entretanto, precisam ser compreendidos ao longo do tempo, considerando as condições de cada escola e a continuidade das ações. Afinal, a educação não se transforma apenas pela chegada de novos equipamentos ou pela abertura de vagas. Ela depende também de quem permanece diariamente diante dos estudantes.

E nem sempre esses estudantes são crianças ou adolescentes.

Em Sousa, a história de Maria da Conceição mostra que o encontro com a escola pode acontecer depois de uma vida inteira de espera. Criada na zona rural, ela passou a infância e parte da vida adulta distante das salas de aula. O trabalho na roça, as dificuldades financeiras e a distância até a escola impediram que fosse alfabetizada quando criança.

A oportunidade chegou décadas depois. Aos 65 anos, Maria aprendeu a ler e escrever, concluiu o ensino médio e decidiu transformar as próprias lembranças em literatura. Em agosto de 2026, sua história ganhou repercussão depois que ela escreveu, à mão, um livro de aproximadamente 200 páginas.

O professor Nilson Rutizat participou dessa trajetória. Em suas aulas, costumava apresentar obras de escritores da região, mostrando aos estudantes que a literatura também poderia nascer do lugar onde viviam. A experiência ajudou a aproximar Maria da escrita e da possibilidade de contar a própria história.

O caso amplia o significado da educação no Sertão. Se, para alguns estudantes, aprender envolve laboratórios, foguetes e robótica, para outros representa a oportunidade de realizar algo que lhes foi negado durante décadas. São caminhos diferentes, atravessados por uma mesma necessidade de acesso ao conhecimento.

Da escola de tempo integral em João Pessoa à alfabetização de adultos em Sousa, passando pelas comunidades rurais e pelos novos espaços de tecnologia, as experiências revelam que não existe uma única maneira de ser professor na Paraíba. Existem diferentes condições de trabalho, públicos, desafios e possibilidades, que se encontram na responsabilidade de ensinar.

Neste Dia dos Professores, os números ajudam a compreender os investimentos, os programas mostram as estratégias adotadas pelas redes de ensino e as histórias revelam o que acontece quando a educação encontra a vida cotidiana.

Porque, entre o litoral e o Sertão, há muito mais do que quilômetros. Há professores que acompanham gerações, estudantes que descobrem novos caminhos e pessoas que encontram na escola uma oportunidade que parecia distante.

E talvez seja essa uma das imagens mais significativas da educação paraibana: em uma sala, um adolescente aprende a construir um foguete. Em outra, uma mulher que passou décadas sem saber ler descobre que também pode escrever um livro. Entre essas duas histórias, existem professores que ajudam a transformar conhecimento em possibilidade.

As histórias e os depoimentos apresentados nesta reportagem foram reunidos a partir de publicações da Prefeitura de João Pessoa, do portal Política Parahyba e do Repórter PB. Os relatos dos professores Marina Teixeira e Fátima Ribeiro, dos estudantes Vinicius Otávio e Erick Ismael, além das trajetórias do professor Nilson Rutizat e de Maria da Conceição, foram originalmente registrados por essas fontes e utilizados para contextualizar as diferentes realidades da educação na Paraíba.
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