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Cotidiano

CRÔNICA DE DOMINGO: Depois do confirma

Publicado em 04/10/2026 às 06:00 Por Lucas Rodrigues
Foto: Reprodução
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Você lembra em quem votou há quatro anos?

Não para presidente. Esse é fácil. Também não vale governador. Quero saber o nome daquele deputado em quem você acreditou por alguns segundos diante da urna. Lembra o que ele prometeu? Sabe como votou durante o mandato? Acompanhou o que fez depois de eleito? Se a resposta for não, tudo bem. Talvez seja justamente por isso que essa pergunta precise ser feita hoje.

É domingo de eleição. Daqui a algumas horas, ou talvez antes de você chegar a este texto, milhões de brasileiros terão repetido o mesmo ritual. Documento na mão, alguns minutos de fila, números digitados e o barulho curto da urna confirmando cada escolha. No final, aparecerá na tela uma palavra simples: “FIM”. É curioso que seja justamente essa a palavra escolhida para encerrar a votação. Para a democracia, deveria estar escrito o contrário.

Talvez “COMEÇO”.

A semana que nos trouxe até aqui foi barulhenta na política paraibana. Houve operação policial investigando suposta negociação de apoio eleitoral com uma organização criminosa, dinheiro apreendido, agente público afastado e defesas negando irregularidades. Houve áudio vazado expondo conflitos dentro de um mesmo grupo político. Houve acusação, queixa-crime e panfleto apócrifo que virou caso de polícia. Tudo isso a poucos dias de milhões de pessoas escolherem novamente quem ocupará espaços de poder.

Diante de notícias assim, existe uma frase que sempre encontra espaço: “político é tudo igual”.

Eu entendo de onde ela vem. A indignação diante de corrupção, abuso de poder ou qualquer suspeita envolvendo quem ocupa uma função pública é legítima. Quem recebe poder também recebe uma responsabilidade maior sobre aquilo que faz com ele. O problema é quando transformamos a descrença em anestesia. Se todos são iguais, não preciso conhecer nenhum. Se todos roubam, pesquisar para quê? Se nada muda, acompanhar mandato para quê? A frase que parece revolta também pode funcionar como uma confortável autorização para desistir. E desistimos sem perceber.

Passamos meses recebendo cortes de vídeos, pesquisas, memes, brigas, acusações e frases cuidadosamente preparadas para caber em quinze segundos. Sabemos quem lacrou no debate, quem virou assunto nas redes e quem protagonizou a polêmica da semana. Mas talvez não saibamos explicar o que faz um deputado estadual. Talvez não tenhamos lido uma proposta inteira de alguém que receberá nosso voto. Talvez sequer lembremos o nome que digitamos quatro anos atrás. Depois cobramos. E devemos cobrar.

O problema nunca foi cobrar demais. Talvez seja acreditar que cidadania significa somente isso: encontrar alguém do outro lado para responsabilizar.

Somos muito bons em enxergar contradições quando elas moram nos outros. Defendemos o meio ambiente e jogamos um copo pela janela porque é “só um”. Reclamamos da sujeira na cidade enquanto deixamos para alguém recolher aquilo que nós mesmos descartamos. Quando a chuva aperta, o bueiro entope e a rua alaga, queremos saber onde estava o poder público. E precisamos perguntar. Limpeza urbana, drenagem, fiscalização e infraestrutura são responsabilidades do Estado. Reconhecer isso, porém, não faz desaparecer o lixo que saiu da nossa mão.

Não estou dizendo que jogar um papel na rua e desviar dinheiro público sejam coisas equivalentes. Não são. Tampouco acredito naquela frase preguiçosa de que “cada povo tem os políticos que merece”. Nenhuma população merece corrupção, incompetência ou abandono. O que me inquieta é outra coisa: por que exigimos tanta coerência de quem recebe poder enquanto somos tão habilidosos em negociar com as nossas próprias incoerências?

Talvez o poder não invente todas as contradições humanas. Talvez apenas dê a algumas delas espaço suficiente para crescer.

E você? O que exige de si antes de exigir de quem escolheu?

Essa pergunta me parece especialmente necessária hoje porque a democracia não começa no político que elegemos. Começa antes dele. Está na pessoa que procura saber quem está disputando, que desconfia da informação fácil demais, que não transforma vídeo recortado em verdade absoluta, que conhece minimamente aquilo que está escolhendo. E continua depois, quando essa pessoa acompanha, fiscaliza, cobra e, se for preciso, admite que escolheu mal.

Admitir que escolhemos mal também é democracia.

Mas existe uma parte ainda mais difícil. Talvez mais difícil até do que escolher: Aceitar que o outro também escolhe.

Em algum momento, transformamos divergência política em diagnóstico moral. Já não basta dizer “eu discordo de você”. Precisamos concluir que o outro é burro, mau, vendido, ignorante ou inimigo. A depender do lado, o vocabulário muda. A lógica permanece. Criamos bolhas onde todos confirmam aquilo que já pensamos e começamos a estranhar a existência de alguém que olha para o mesmo país e chega a uma conclusão diferente.

É evidente que nem toda ideia merece ser normalizada. Racismo, violência, perseguição e ataques à dignidade de outras pessoas não se tornam aceitáveis porque alguém resolveu chamá-los de opinião. Democracia não exige silêncio diante disso. Pelo contrário. Ela permite confronto, crítica, denúncia e oposição. O que ela não deveria exigir é que eu retire a humanidade de quem discorda de mim.

Quando foi que discordar passou a ser insuficiente? Quando foi que começamos a desejar que determinadas pessoas desaparecessem da nossa convivência simplesmente porque escolheram diferente? Quando foi que um número digitado numa urna passou a resumir todo o caráter de alguém?

Hoje alguém que você ama pode votar em uma pessoa que você jamais escolheria. Seu pai pode discordar de você. Sua mãe também. O amigo que conhece seus piores dias pode enxergar o país de outro jeito. A pessoa sentada ao seu lado na fila pode votar exatamente contra tudo aquilo em que você acredita.

E continuará sendo uma pessoa quando sair dali.

Talvez esse seja um dos exercícios mais dolorosos da democracia: compreender que ela também pertence a quem pensa diferente de nós. Não preciso concordar. Posso discutir, contestar e tentar convencer. Posso considerar uma proposta ruim e um argumento absurdo. Mas, se a democracia só me interessa quando milhões de pessoas escolhem exatamente aquilo que eu escolheria, talvez eu não esteja defendendo democracia. Talvez esteja apenas defendendo a possibilidade de sempre vencer.

Daqui a pouco as urnas serão fechadas. Os números começarão a aparecer nas telas e, em muitas casas, haverá comemoração. Em outras, silêncio. Nas redes sociais, provavelmente teremos provocações, insultos, vencedores tratando derrotados como inimigos e derrotados tentando explicar como tanta gente pôde pensar diferente deles. Amanhã, porém, continuaremos dividindo o mesmo país.

Vamos pegar o mesmo ônibus, reclamar do mesmo trânsito, esperar atendimento no mesmo posto, atravessar as mesmas ruas, pagar os mesmos impostos. O candidato em quem você votou talvez vença. Talvez perca. Mas aquele vizinho continuará sendo seu vizinho na segunda-feira. E aqueles que vencerem precisarão ser observados.

Esse talvez seja o pedaço da democracia que recebe menos campanha. Ninguém faz carreata para lembrar o eleitor de fiscalizar mandato. Não existe jingle ensinando a acompanhar votação no Legislativo. Depois da posse, desaparecem santinhos, bandeiras e pedidos de voto. É justamente aí que nós também costumamos desaparecer.

Até o próximo escândalo.

Então voltamos indignados. Perguntamos como aquilo aconteceu. Dizemos que ninguém presta. Compartilhamos a operação policial, o dinheiro apreendido, o áudio vazado, a denúncia da vez. E talvez nem lembremos se aquela pessoa recebeu nosso voto.

Hoje, antes de apertar “confirma”, talvez valha alguns segundos de silêncio.

Não para encontrar o candidato perfeito. Ele provavelmente não existe. Também não para acreditar que uma escolha individual resolverá todos os problemas de um país. Não resolverá. Mas para entender que aquele botão não transfere para outra pessoa toda a responsabilidade pelos próximos quatro anos.

Você escolhe. Depois fiscaliza. Cobra. Discorda. Muda de ideia. Reconhece quando errou. Convive com quem escolheu diferente. E, quatro anos depois, precisa ao menos tentar lembrar o que fez com a escolha anterior antes de fazer outra.

Quando você terminar de votar hoje, a urna escreverá “FIM”. Não acredite nela.

A democracia não termina quando você aperta “confirma”. É justamente ali que começa a parte que não cabe na urna.

E quando alguma coisa der errado nos próximos quatro anos, antes de dizer novamente que “político é tudo igual”, você vai lembrar o nome de quem escolheu e o que fez depois de escolhê-lo?

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