João Pessoa ・ Sexta-feira ・ 23 de outubro de 2026 ・ 26º C

Cotidiano

Brinquedos com inteligência artificial podem oferecer riscos às crianças; pediatras alertam pais

Publicado em 22/10/2026 às 12:30 Por Lucas Rodrigues
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução
Brinquedos que conversam, reconhecem a voz das crianças e até simulam sentimentos de amizade e carinho estão cada vez mais presentes no mercado. Apesar das possibilidades de interação, esses produtos também podem representar riscos à privacidade e ao desenvolvimento infantil. Diante desse cenário, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgou um alerta nesta quarta-feira (21) com orientações para pais e responsáveis sobre o uso de brinquedos equipados com inteligência artificial (IA).

A preocupação envolve principalmente dispositivos que utilizam inteligência artificial generativa, tecnologia capaz de manter conversas, memorizar informações e adaptar respostas conforme o comportamento de quem utiliza o produto. Diferentemente dos brinquedos tradicionais, esses sistemas podem responder a perguntas e desenvolver interações que não foram inteiramente programadas pelos fabricantes.

Segundo a SBP, um dos principais riscos está na maneira como as crianças podem interpretar essas interações. Ao receber respostas carinhosas ou demonstrações de empatia, elas podem desenvolver a percepção de que estão conversando com um amigo ou alguém capaz de oferecer cuidado emocional, embora a tecnologia não possua sentimentos ou consciência.

A entidade cita estudos publicados na revista científica Pediatrics que apontam preocupações sobre a possibilidade de crianças confundirem sistemas de inteligência artificial com pessoas. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) também chama atenção para produtos que simulam relações de amizade e companheirismo, especialmente quando utilizados sem acompanhamento de adultos.

Outro ponto de atenção é a coleta de informações pessoais. Alguns brinquedos conectados à internet possuem microfones, câmeras e sistemas capazes de registrar conversas, imagens, preferências e hábitos dos usuários. Esses dados podem ser utilizados para personalizar as interações, mas também levantam dúvidas sobre armazenamento, compartilhamento e proteção das informações de crianças e adolescentes.

Para os pediatras, antes de comprar um brinquedo com inteligência artificial, os responsáveis precisam compreender quais funcionalidades o produto oferece e se elas realmente contribuem para a brincadeira. Também é importante verificar a faixa etária recomendada, a necessidade de conexão com a internet e a existência de mecanismos de controle parental.

A SBP recomenda atenção especial aos dispositivos que simulam amizade, cuidado ou apoio emocional. Quando não houver benefícios claros ou informações transparentes sobre o funcionamento da tecnologia, a orientação é priorizar brinquedos que não utilizem esses recursos.

Os especialistas também destacam que os efeitos de longo prazo dessas interações sobre a saúde mental e o comportamento infantil ainda não são suficientemente conhecidos. Por isso, a entidade recomenda que o uso da tecnologia não substitua atividades importantes para o desenvolvimento, como brincadeiras livres, leitura, prática de exercícios, contato com a natureza e convivência familiar.

Entre os cuidados recomendados está verificar se o fabricante informa quais dados são coletados, onde ficam armazenados, se podem ser compartilhados com terceiros e se existe a possibilidade de solicitar a exclusão dessas informações. A ausência de respostas claras deve ser considerada um sinal de alerta antes da compra.

Além das orientações de saúde, a SBP lembra que os fornecedores têm responsabilidades relacionadas à segurança e à proteção de dados. Caso identifiquem coleta de informações não autorizada, conteúdos inadequados ou falhas no funcionamento do produto, os responsáveis podem procurar a empresa e solicitar esclarecimentos ou a eliminação dos dados pessoais.

As famílias também podem registrar reclamações nos Procons, na plataforma consumidor.gov.br e na Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD). Para compras realizadas pela internet ou fora de estabelecimentos comerciais, o Código de Defesa do Consumidor assegura, em regra, o direito de desistência no prazo de sete dias após o recebimento do produto.

O alerta da Sociedade Brasileira de Pediatria não significa que todos os brinquedos com inteligência artificial sejam prejudiciais. A recomendação é que as famílias avaliem a necessidade da tecnologia, conheçam os recursos utilizados e acompanhem as interações das crianças, garantindo que a experiência não comprometa a privacidade, a segurança e o desenvolvimento infantil.
Banner

Relacionadas