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Cotidiano

A Paraíba está envelhecendo: entre a capital e o interior, histórias revelam diferentes formas de chegar à velhice

Publicado em 01/10/2026 às 09:45 Por Lucas Rodrigues
Foto: Reprodução / Magnific
Foto: Reprodução / Magnific
Aos 79 anos, Helenita carrega no dedo um anel que esperou mais de seis décadas para usar. Antes dele vieram um casamento de mais de 50 anos, dez filhos, 13 netos e uma vida inteira em que estudar ficou para depois. Foi somente após os 60 que ela voltou à sala de aula. Primeiro, concluiu os estudos pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2010, prestou vestibular. Aos 67 anos, saiu da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) formada em Pedagogia.

“Jamais eu pensei ter passado. Minha neta ligou para mim quando saiu o resultado. Me ajoelhei, as lágrimas desceram”, recorda.

Helenita poderia ser apenas a personagem de uma história sobre alguém que realizou um desejo antigo. Mas, neste 1º de outubro, Dia Internacional da Pessoa Idosa, a trajetória dela ajuda a contar algo maior: enquanto ela envelhecia, a Paraíba também envelhecia.

Em 2010, a idade mediana da população paraibana era de 28 anos. No Censo de 2022, chegou aos 34. No mesmo intervalo, o índice de envelhecimento, que relaciona a quantidade de pessoas com 60 anos ou mais à população de até 14 anos, saltou de 47,4 para 74,4. Na prática, para cada grupo de 100 crianças, a Paraíba já tinha pouco mais de 74 pessoas idosas.

Os números contam uma transformação demográfica. Não conseguem, sozinhos, contar como ela é vivida.

Porque não existe apenas uma maneira de envelhecer na Paraíba.

Há quem chegue aos 60 diante do mar de João Pessoa e quem atravesse a mesma idade em uma pequena cidade do Sertão. Há quem tenha filhos e netos por perto e quem os veja partir. Quem escolheu a Paraíba para passar essa fase da vida e quem nunca deixou o município onde nasceu. Quem encontrou na aposentadoria a possibilidade de começar alguma coisa e quem ainda depende dela para garantir o básico.

Até o mapa mostra essas diferenças.

Quando o IBGE considera a população com 65 anos ou mais, Bom Sucesso, no Sertão paraibano, apresenta uma realidade simbólica dessa transformação. No município, o índice de envelhecimento chegou a 113,1 pessoas idosas para cada 100 crianças de até 14 anos em 2022. Em outras palavras, ali os idosos já são numericamente mais numerosos que as crianças nessa comparação. O município tinha apenas 4.661 moradores no último Censo.

Em outras partes do estado, o retrato é completamente diferente. Marcação, no Litoral Norte, registrou índice de 28,1 no mesmo levantamento e utilizando o mesmo critério etário. Entre os dois extremos existe um estado de 223 municípios e milhões de pessoas descobrindo, cada uma à sua maneira, o que significa ficar velho.

Na capital, alguns chegaram justamente para isso.

Ana Lúcia Barone e o marido, Alexandre Barone, construíram boa parte da vida em São Paulo. Depois da aposentadoria, fizeram uma escolha que alteraria também o endereço da velhice. Em 2018, mudaram-se para João Pessoa após conhecerem a cidade durante as férias.

“O que trouxe a gente aqui após a aposentadoria foi ter uma qualidade de vida melhor, estar próximo ao mar, estar em uma cidade que não tem trânsito, estar usufruindo da aposentadoria com uma qualidade de vida boa”, contou Ana Lúcia.

A aposentadoria, no entanto, não significou para ela o encerramento da vida profissional. Professora de História durante a carreira, Ana Lúcia fez um curso de guia de turismo no Instituto Federal da Paraíba (IFPB) e passou a apresentar aos visitantes justamente a cidade que havia escolhido para morar.

A experiência do casal expõe uma das faces particulares do envelhecimento em João Pessoa. A capital concentra serviços de saúde, comércio, lazer e outras estruturas que pesam na rotina de quem envelhece. Mas morar na mesma cidade e pertencer à mesma faixa etária não significa viver a mesma realidade.

Hélia Gomes conhece outra João Pessoa.

Aos 79 anos, ela vivia no condomínio Cidade Madura, programa habitacional destinado a pessoas idosas. Chegou ao local em 2017 ao lado do marido porque a renda do casal não permitia uma moradia adequada. Ele morreu. Ela ficou.

A casa passou a representar mais do que um teto. Ao redor dela havia outras pessoas envelhecendo, convivendo com perdas, limitações, aposentadorias e rotinas que se encontravam dentro do mesmo residencial. O Cidade Madura de João Pessoa possui 40 unidades habitacionais adaptadas às necessidades de pessoas idosas.

A poucos quilômetros dali, outra mulher fez da moradia uma decisão sobre a própria autonomia.

Adjani Lucena tinha 81 anos quando contou por que havia escolhido viver no Lar da Providência, no Bairro dos Estados, em João Pessoa. Não estava ali porque não tinha filhos. As filhas cresceram, casaram e seguiram suas vidas. Ela decidiu que não queria morar com nenhuma delas.

“Eu não quis morar com ninguém. Acho que nós devemos viver uma vida em comunidade. Eles são novos, vão passear. Mas não me falta nada”, explicou.

É uma fala curta, mas que confronta uma imagem persistente sobre a velhice: a de que decisões sobre onde morar, o que fazer e como organizar a própria vida passam naturalmente para as mãos dos filhos. Adjani preferiu continuar escolhendo.

Autonomia também pode significar algo aparentemente pequeno, como conseguir abaixar, levantar, alcançar um objeto ou simplesmente caminhar sem depender de outra pessoa.

Foi por uma questão de saúde que Letícia Viana, aos 63 anos, incorporou a musculação à rotina. Diagnosticada com osteoporose, começou a treinar após orientação médica. Edinalda Farias, de 62 anos, encontrou na atividade física uma aliada durante a recuperação de um câncer no intestino. Depois do tratamento, manteve a musculação no cotidiano.

As duas fazem parte de outro movimento observado entre pessoas com mais de 60 anos: a procura por exercícios não necessariamente em busca de desempenho esportivo, mas pela preservação da força, mobilidade e independência necessárias às atividades mais comuns do dia.

Essas histórias cabem dentro da mesma palavra, envelhecimento, mas estão longe de significar a mesma coisa.

A própria desigualdade territorial ajuda a explicar por quê. Uma pessoa que envelhece em João Pessoa está inserida na maior estrutura urbana do estado. Em municípios pequenos, sobretudo aqueles cuja população já apresenta forte envelhecimento, as distâncias, a oferta de serviços e a saída das gerações mais jovens podem produzir outras experiências. Isso não transforma automaticamente a capital em um lugar melhor para envelhecer, nem o interior em um lugar pior. Relações familiares, vizinhança, renda, moradia, acesso à saúde e vínculos com o território também pesam nessa conta.

É justamente por isso que reduzir a velhice a uma idade é insuficiente.

O próprio Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa reconhece que o envelhecimento ocorre de maneira diferenciada e é atravessado por fatores como gênero, raça, classe social e pobreza, capazes de interferir nas condições de saúde e bem-estar.

O Brasil considera pessoa idosa aquela com 60 anos ou mais. O 1º de outubro foi instituído pela Organização das Nações Unidas como Dia Internacional das Pessoas Idosas em 1990 e, no país, a data também se tornou oficialmente o Dia Nacional do Idoso em 2006. Mais do que celebrar quem chegou a determinada idade, a data chama atenção para uma transformação que deixou de pertencer ao futuro.

Na Paraíba, ela já está acontecendo. E talvez Helenita ajude a entendê-la melhor.

Quando decidiu voltar a estudar, ouviu de outras pessoas que deveria desistir. Continuou. Foi à faculdade até com o braço quebrado porque não queria perder aula. O diploma chegou aos 67 anos, depois de uma juventude em que estudar não havia sido uma possibilidade.

“Se eu entrei, eu vou até o fim”, resumiu.

Não é preciso transformar Helenita em prova de que envelhecer é fácil. Também não seria verdadeiro dizer isso sobre Ana Lúcia, Hélia, Adjani, Letícia ou Edinalda. Envelhecer pode significar escolher uma nova cidade, depender de uma política habitacional, procurar companhia, recuperar movimentos do corpo ou finalmente ocupar uma sala de aula que durante décadas pareceu distante.

A Paraíba que tinha idade mediana de 28 anos em 2010 chegou aos 34 pouco mais de uma década depois. Seus municípios envelhecem em ritmos diferentes e seus moradores chegam à velhice carregando condições igualmente distintas.

Talvez por isso a pergunta mais importante neste 1º de outubro não seja como viver mais.

A Paraíba já está vivendo mais.

A questão que cresce junto com os cabelos brancos de sua população é outra: que condições o estado, suas cidades e a própria sociedade estão construindo para os anos que vêm depois?

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