O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) publicou nas redes sociais o momento em que acompanha e comemora a aprovação, pelo Senado, da PEC que acaba com a escala de trabalho 6x1. O vídeo foi divulgado logo após a votação desta quarta-feira (14) e rapidamente passou a integrar a comunicação da campanha de reeleição do petista.
Nas imagens, Lula acompanha o resultado e reage à aprovação com entusiasmo. Em outra publicação, classificou o resultado como uma “conquista histórica” e afirmou que a mudança significa mais tempo para descanso, convivência familiar e vida fora do trabalho.
A cena ganhou peso político porque a votação ocorreu a apenas 11 dias do segundo turno da eleição presidencial, marcado para 25 de outubro, quando Lula enfrenta o senador Flávio Bolsonaro (PL).
O que o Senado aprovou
A PEC foi aprovada em dois turnos pelo Senado, com 75 votos favoráveis e apenas um contrário em cada votação.
O texto:
- acaba com a escala 6x1 como regra geral;
- garante dois dias de descanso remunerado por semana;
- reduz gradualmente a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais;
- impede redução salarial por causa da diminuição da jornada.
Dois meses após a promulgação, o limite semanal cai inicialmente para 42 horas. Um ano depois dessa primeira redução, chega a 40 horas. Como o Senado manteve o texto aprovado pela Câmara, a PEC segue agora para promulgação pelo Congresso Nacional.
Lula tenta associar medida à sua campanha
O fim da escala 6x1 já vinha sendo tratado pela campanha de Lula como uma das principais bandeiras sociais do segundo turno.
Antes mesmo da votação, o presidente vinha defendendo publicamente a proposta e pressionando pela conclusão da análise no Senado.
Na propaganda eleitoral, a campanha passou a afirmar que Lula seria o candidato capaz de garantir a mudança na jornada de trabalho.
Com a aprovação, o discurso deixa de ser apenas uma promessa e passa a ser apresentado pela campanha como uma conquista concreta obtida ainda durante o atual mandato.
É nesse contexto que o vídeo de Lula acompanhando a votação se torna politicamente relevante: a campanha tenta transformar a imagem do presidente comemorando o resultado em símbolo de proximidade com trabalhadores que cumprem jornadas extensas.
Flávio Bolsonaro mudou de posição
A situação também colocou Flávio Bolsonaro no centro da discussão.
Durante boa parte da campanha, o candidato do PL criticou a proposta e classificou a defesa do fim da escala 6x1 durante o período eleitoral como “oportunista”. Ele também demonstrava preocupação com possíveis impactos sobre empresas e empregos.
Na terça-feira (13), porém, Flávio anunciou que votaria favoravelmente ao texto.
Segundo ele, a mudança ocorreu porque, durante viagens pelo país, percebeu que a maioria dos trabalhadores apoiava o fim da escala.
“Estou rodando o Brasil, e a maioria dos trabalhadores brasileiros quer o fim da 6x1”, afirmou ao anunciar o novo posicionamento.
Nesta quarta-feira, Flávio cumpriu a promessa e votou remotamente a favor da PEC, enquanto estava em agenda de campanha no Rio Grande do Sul.
Flávio continua defendendo modelo mais flexível
Apesar de votar favoravelmente ao texto aprovado, Flávio mantém diferenças em relação à proposta defendida por Lula.
O candidato do PL afirma preferir um modelo com maior liberdade para que trabalhadores e empregadores negociem jornadas e escalas. Ele também defende a adoção de mecanismos para reduzir o impacto financeiro sobre empresas.
O PL já sinalizou ainda que poderá apresentar, em 2027, uma proposta alternativa envolvendo pagamento por hora e maior flexibilidade nas relações de trabalho.
Já Lula defende a redução da jornada para 40 horas, dois dias de descanso semanal e preservação do salário como parte de uma agenda de fortalecimento dos direitos trabalhistas.
Tema virou disputa eleitoral
O fim da escala 6x1 tem amplo apoio popular e, por isso, tornou-se uma das pautas mais disputadas neste segundo turno.
Levantamento Datafolha citado durante a tramitação apontou que 71% dos brasileiros apoiavam a medida.
Isso ajuda a explicar por que a PEC acabou recebendo votos tanto de governistas quanto de parlamentares da oposição.
Ao final, apenas Hamilton Mourão (Republicanos-RS) votou contra.
A ampla aprovação também reduziu o espaço para que a campanha de Lula apresentasse a medida como uma vitória exclusivamente governista. Ao mesmo tempo, o fato de Lula ter defendido a proposta há mais tempo e ter pressionado pela votação permite ao petista reivindicar protagonismo político na aprovação.
Aprovação ocorre no momento mais sensível da campanha
O calendário tornou a votação ainda mais importante politicamente.
O Senado aprovou a PEC em 14 de outubro. O segundo turno acontece no dia 25.
São apenas 11 dias entre uma coisa e outra.
Para Lula, a aprovação oferece uma oportunidade de falar diretamente com trabalhadores e reforçar uma pauta social na reta final da campanha.
Para Flávio, o desafio é impedir que o adversário monopolize o tema. Por isso, sua decisão de votar favoravelmente à PEC também funciona como tentativa de demonstrar que o fim da escala 6x1 não pertence apenas ao campo político governista.
A disputa, portanto, deixou de ser sobre aprovar ou rejeitar a medida.
Agora, Lula e Flávio tentam explicar ao eleitor quem teve maior participação na aprovação e qual modelo de relações de trabalho pretendem adotar a partir dela.
Vídeo resume estratégia de Lula
Ao publicar o momento em que acompanha a votação, Lula transforma um ato legislativo em conteúdo eleitoral.
O vídeo associa a imagem do presidente diretamente ao instante em que o Senado encerra a tramitação da PEC no Congresso.
Depois da votação, Lula afirmou que o resultado era “extraordinário” e disse que o fim da escala significaria “mais tempo para viver” para milhões de trabalhadores.
A aprovação da PEC, portanto, já ultrapassou o debate trabalhista e entrou definitivamente na disputa política do segundo turno.
