Uma tentativa de piada feita pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) durante uma transmissão ao vivo nesta quinta-feira (15) ganhou repercussão nas redes sociais e virou alvo de cortes no X, Instagram e TikTok.
Ao lado do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e do senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP), Flávio criticava a proposta anunciada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de criar transporte público gratuito aos fins de semana quando decidiu relacionar o tema a uma das frases mais conhecidas da campanha presidencial de 2022.
“Hoje o Lula prometeu que vai dar ônibus de graça aí, né? E agora a gente descobriu por que é que a picanha ainda não chegou. Porque a picanha tá vindo de ônibus”, disse Flávio.
Logo depois da frase, não houve uma reação imediata de risadas entre os participantes da transmissão. O pequeno silêncio passou a ser recortado e compartilhado por usuários das redes, principalmente por perfis críticos ao candidato.
Outros internautas, por outro lado, defenderam Flávio e passaram a reproduzir a própria frase como crítica às propostas de Lula.
O que Flávio quis dizer com “picanha”?
A referência não surgiu agora.
Durante a campanha presidencial de 2022, Lula repetiu em diferentes entrevistas e comícios que queria recuperar o poder de compra da população para que trabalhadores pudessem voltar a consumir produtos que haviam ficado mais caros ou inacessíveis para parte das famílias.
Em entrevista ao Jornal Nacional, por exemplo, afirmou que o país precisava voltar a crescer e que o trabalhador deveria poder voltar a “comer um churrasquinho” e “uma picanha”. Em outra entrevista, ao Programa do Ratinho, disse novamente que os brasileiros deveriam ter condições de comer picanha e tomar uma cerveja.
Ao longo dos anos seguintes, a palavra “picanha” se transformou em um símbolo político e em meme nas redes sociais.
Adversários passaram a utilizar a expressão para cobrar resultados econômicos do governo, frequentemente tratando a fala como uma promessa de que Lula entregaria literalmente picanha à população.
O próprio Lula, posteriormente, explicou a referência como uma metáfora para a recuperação da renda e do poder de compra, e não como promessa de distribuição direta de carne.
Picanha já vinha sendo usada pela campanha de Flávio
A referência também não é nova na campanha presidencial deste ano.
Em setembro, durante um ato em Governador Valadares, Minas Gerais, Nikolas Ferreira chegou a jogar uma peça de picanha para apoiadores enquanto estava ao lado de Flávio Bolsonaro.
Na ocasião, Nikolas utilizou novamente a carne como provocação ao governo Lula.
Por isso, quando Flávio retomou o assunto na live desta quinta-feira, estava reutilizando uma imagem já incorporada ao repertório político de sua campanha.
E onde entra o ônibus?
A segunda metade da piada faz referência a uma proposta anunciada por Lula horas antes.
O presidente afirmou que pretende enviar ao Congresso Nacional uma Proposta de Emenda à Constituição para garantir transporte coletivo gratuito aos fins de semana em cidades brasileiras que possuem o serviço.
Segundo Lula, a iniciativa poderia ser financiada por recursos de emendas parlamentares. Até o anúncio, o governo não havia divulgado o custo total estimado nem todos os detalhes da implementação.
A proposta foi apresentada um dia depois de o Senado concluir a aprovação do fim da escala 6x1.
Lula relacionou as duas medidas ao argumentar que trabalhadores com dois dias de descanso semanal deveriam ter melhores condições de circulação e acesso ao lazer nos fins de semana.
Flávio diz que Lula faz promessas que não entregará
Depois da piada, Flávio continuou a crítica.
O candidato afirmou que Lula estaria fazendo promessas que, na avaliação dele, não conseguirá cumprir, e questionou a viabilidade da gratuidade nacional do transporte.
A crítica faz parte de uma estratégia mais ampla da campanha do PL para questionar anúncios feitos pelo governo nesta reta final do segundo turno.
A campanha de Lula, por sua vez, tem apostado em propostas de forte apelo social, como o fim da escala 6x1 e a gratuidade do transporte público nos fins de semana.
Vídeo vira disputa de interpretação nas redes
O trecho que viralizou, porém, não ganhou atenção apenas pelo conteúdo político.
O que chamou a atenção de muitos usuários foi justamente a sequência depois da frase: Flávio faz a piada e, nos segundos seguintes, os demais participantes não apresentam uma reação imediata de riso.
Perfis críticos ao candidato passaram a compartilhar o vídeo com comentários sobre o “silêncio” ou o “vácuo” após a tentativa de humor.
Já apoiadores de Flávio concentraram as publicações na frase em si e na crítica à proposta de Lula, utilizando o trecho para reforçar a cobrança sobre custo de vida e promessas feitas pelo presidente.
O mesmo vídeo, portanto, passou a circular com interpretações opostas de acordo com o campo político que o compartilha.
Humor e memes viraram parte da campanha
A cena também mostra como a comunicação eleitoral de 2026 tem sido marcada por conteúdos produzidos especificamente para ganhar circulação fora dos formatos tradicionais de propaganda.
Lives, memes, cortes curtos, vídeos verticais e frases que podem ser rapidamente transformadas em publicações passaram a ocupar espaço relevante na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Nesse ambiente, até uma pausa de poucos segundos pode ser retirada de uma transmissão longa e ganhar vida própria nas redes sociais.
Foi exatamente o que aconteceu com a frase sobre a “picanha vindo de ônibus”: uma crítica política apresentada em tom de brincadeira acabou se transformando em um novo episódio da disputa de memes e narrativas do segundo turno.

