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Brasil

Apoiadores de Flávio Bolsonaro mandam mãe de menina morta aos 5 anos calar a boca durante debate da Globo

Publicado em 24/10/2026 às 00:19 Por Redação
A presença de Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara Gomes Machado, menina de 5 anos morta por um tiro de fuzil durante uma operação policial em Niterói, no Rio de Janeiro, foi um dos momentos mais delicados do debate presidencial da TV Globo, realizado na noite desta sexta-feira (23). Convidada pela campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Cristiane acompanhou, na primeira fila da plateia, o confronto com Flávio Bolsonaro (PL), que atuou como advogado do policial militar acusado de provocar a morte de sua filha.

Durante a discussão sobre segurança pública, Flávio foi questionado sobre sua participação na defesa do policial. A fala provocou reações de Cristiane na plateia. Em um vídeo publicado pela jornalista Natuza Nery, é possível visualizar que pessoas posicionadas no setor ocupado por apoiadores do candidato do PL fizeram gestos e sons de “psiu”, além de mandá-la "calar a boca". 

Vestindo uma camiseta com a fotografia de Ana Clara e a frase “Justiça por Ana Clara”, a mãe acompanhou o debate sentada próximo ao vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e à primeira-dama Janja Lula da Silva. Sua presença ocorreu após o caso da filha ganhar destaque na campanha eleitoral, especialmente depois do primeiro confronto entre os candidatos, promovido pela Band no domingo (18).

Durante o debate da Globo, Lula voltou a questionar a atuação de Flávio na defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro de ter efetuado o disparo que matou Ana Clara.

“O que leva um senador a defender um policial que deu um tiro de fuzil em uma menina de 5 anos? Que segurança é essa? Que território é esse? O território da bala?”, perguntou Lula.

Flávio Bolsonaro respondeu defendendo a presunção de inocência do acusado e afirmou acreditar que o policial não foi o responsável pelo disparo. O candidato também se dirigiu à mãe da menina, embora tenha confundido o nome de Cristiane com o da filha.

“Foi uma tragédia o que aconteceu. Eu não consigo imaginar o que é perder uma filhinha de 5 anos de idade. Eu tenho uma filha de 14 e uma filha de 12”, declarou.

O senador atribuiu a morte da criança ao contexto de violência armada na comunidade e afirmou que pretende contribuir para identificar o responsável.

“Eu tenho a confiança que não foi esse policial”, disse Flávio, ao comentar a acusação apresentada pelo Ministério Público.

Ana Clara morreu em 2 de fevereiro de 2021, na comunidade do Monan Pequeno, em Niterói. A menina brincava em frente de casa com o irmão, que tinha 2 anos, quando foi atingida por um disparo de fuzil durante uma ação da Polícia Militar. Ela chegou a ser socorrida e levada ao Hospital Estadual Azevedo Lima, mas não resistiu aos ferimentos.

O Ministério Público denunciou Bruno Dias Delaroli pela morte da criança. Segundo a acusação, o policial efetuou disparos em direção a uma área residencial, apesar da presença de moradores. A defesa contesta a responsabilidade do agente e sustenta que ele reagiu a uma situação de confronto armado.

Em 2024, quando já exercia o mandato de senador, Flávio Bolsonaro integrou gratuitamente a equipe de defesa do policial, por meio do Instituto Família Policial. O parlamentar assinou um recurso apresentado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar reverter a decisão que determinou o julgamento do acusado pelo Tribunal do Júri. O pedido foi rejeitado.

Mais de cinco anos depois da morte de Ana Clara, o caso permanece sem julgamento definitivo. O policial responde ao processo em liberdade, e o júri popular, anteriormente previsto para 2026, foi remarcado para 5 de maio de 2027.

No debate da Band, Flávio já havia sido confrontado por Lula sobre sua atuação no processo. Na ocasião, o candidato do PL afirmou que o exercício da advocacia não poderia ser criminalizado e criticou o adversário por tratar o policial como culpado antes de uma condenação.

A participação de um advogado na defesa de uma pessoa acusada de crime é um direito assegurado pela legislação brasileira. No caso de Ana Clara, a controvérsia política envolve especificamente a decisão de Flávio Bolsonaro, enquanto senador, de integrar a defesa e assinar um recurso contrário à realização do júri popular.

A presença de Cristiane no debate colocou diante dos candidatos uma família que aguarda, desde 2021, uma resposta definitiva da Justiça sobre a morte de uma criança. O episódio também levou para o centro da discussão eleitoral os efeitos da violência armada sobre moradores de comunidades e a demora na conclusão de processos criminais.
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