Durante a discussão sobre segurança pública, Flávio foi questionado sobre sua participação na defesa do policial. A fala provocou reações de Cristiane na plateia. Em um vídeo publicado pela jornalista Natuza Nery, é possível visualizar que pessoas posicionadas no setor ocupado por apoiadores do candidato do PL fizeram gestos e sons de “psiu”, além de mandá-la "calar a boca".
Vestindo uma camiseta com a fotografia de Ana Clara e a frase “Justiça por Ana Clara”, a mãe acompanhou o debate sentada próximo ao vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e à primeira-dama Janja Lula da Silva. Sua presença ocorreu após o caso da filha ganhar destaque na campanha eleitoral, especialmente depois do primeiro confronto entre os candidatos, promovido pela Band no domingo (18).
Durante o debate da Globo, Lula voltou a questionar a atuação de Flávio na defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro de ter efetuado o disparo que matou Ana Clara.
“O que leva um senador a defender um policial que deu um tiro de fuzil em uma menina de 5 anos? Que segurança é essa? Que território é esse? O território da bala?”, perguntou Lula.
Flávio Bolsonaro respondeu defendendo a presunção de inocência do acusado e afirmou acreditar que o policial não foi o responsável pelo disparo. O candidato também se dirigiu à mãe da menina, embora tenha confundido o nome de Cristiane com o da filha.
“Foi uma tragédia o que aconteceu. Eu não consigo imaginar o que é perder uma filhinha de 5 anos de idade. Eu tenho uma filha de 14 e uma filha de 12”, declarou.
O senador atribuiu a morte da criança ao contexto de violência armada na comunidade e afirmou que pretende contribuir para identificar o responsável.
“Eu tenho a confiança que não foi esse policial”, disse Flávio, ao comentar a acusação apresentada pelo Ministério Público.
Ana Clara morreu em 2 de fevereiro de 2021, na comunidade do Monan Pequeno, em Niterói. A menina brincava em frente de casa com o irmão, que tinha 2 anos, quando foi atingida por um disparo de fuzil durante uma ação da Polícia Militar. Ela chegou a ser socorrida e levada ao Hospital Estadual Azevedo Lima, mas não resistiu aos ferimentos.
O Ministério Público denunciou Bruno Dias Delaroli pela morte da criança. Segundo a acusação, o policial efetuou disparos em direção a uma área residencial, apesar da presença de moradores. A defesa contesta a responsabilidade do agente e sustenta que ele reagiu a uma situação de confronto armado.
Em 2024, quando já exercia o mandato de senador, Flávio Bolsonaro integrou gratuitamente a equipe de defesa do policial, por meio do Instituto Família Policial. O parlamentar assinou um recurso apresentado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar reverter a decisão que determinou o julgamento do acusado pelo Tribunal do Júri. O pedido foi rejeitado.
Mais de cinco anos depois da morte de Ana Clara, o caso permanece sem julgamento definitivo. O policial responde ao processo em liberdade, e o júri popular, anteriormente previsto para 2026, foi remarcado para 5 de maio de 2027.
No debate da Band, Flávio já havia sido confrontado por Lula sobre sua atuação no processo. Na ocasião, o candidato do PL afirmou que o exercício da advocacia não poderia ser criminalizado e criticou o adversário por tratar o policial como culpado antes de uma condenação.
A participação de um advogado na defesa de uma pessoa acusada de crime é um direito assegurado pela legislação brasileira. No caso de Ana Clara, a controvérsia política envolve especificamente a decisão de Flávio Bolsonaro, enquanto senador, de integrar a defesa e assinar um recurso contrário à realização do júri popular.
A presença de Cristiane no debate colocou diante dos candidatos uma família que aguarda, desde 2021, uma resposta definitiva da Justiça sobre a morte de uma criança. O episódio também levou para o centro da discussão eleitoral os efeitos da violência armada sobre moradores de comunidades e a demora na conclusão de processos criminais.

